Watchmen traz à HBO massacre da “Wall Street Negra”

A ação da série “Watchmen” recupera o massacre de afro-americanos em Tulsa, em 1921, para trazer à luz do dia um acontecimento de violência racial que “tinha sido apagado da história”, explica o criador Damon Lindelof.

Foi um dos piores capítulos na longa história de violência racial nos Estados Unidos, mas até há pouco tempo muitos norte-americanos nunca tinham ouvido falar do massacre que ocorreu em 1921 na cidade de Tulsa, no Oklahoma.

“Quando tomei conhecimento do massacre fiquei esmagado”, afirmou Damon Lindelof, criador de “Watchmen”, durante uma sessão virtual organizada pela revista de entretenimento Variety.

Este sítio incrível existia em 1921, com negócios detidos por afro-americanos, jornais, mecânicos, teatros, a prosperar em Oklahoma. O facto de ter sido varrido da existência em 48 horas tirou-me o fôlego”, diz o criador icónica série da HBO.

O mais chocante é que eu nunca tinha ouvido falar disto“, afirmou Lindelof. “Tinha de ser a pedra angular da série”, disse, referindo que a “marginalização” de criativos negros levou a que, no passado, ninguém quisesse investir em contar a história do massacre, porque “não era comercial”.

O local, que era conhecido como “Wall Street Negra”, foi palco de violentos motins durante os quais multidões de brancos incendiaram e pilharam casas e lojas e atiraram sobre afro-americanos. Segundo a Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, morreram 300 pessoas e os prejuízos em propriedade ascenderam aos milhões de dólares.

No início da década de 1920, Tulsa era uma cidade moderna, com mais de 100 mil habitantes. Alguns anos antes, a descoberta de poços de petróleo tinha enriquecido muitos dos seus habitantes — principalmente brancos, mas também alguns negros que tinham terras na área.

A cidade começou a atrair comerciantes e empreendedores negros, dando início ao que ficaria conhecido como a “Wall Street Negra”, em Greenwood — uma das mais bem-sucedidas comunidades negras, num país que apenas poucas décadas antes tinha abolido a escravatura.

O episódio que provocou o massacre de Greenwood ocorreu a 30 de maio de 1921. Nessa tarde, Dick Rowland, um engraxador negro de 19 anos, apanhou o elevador do Drexel Building, edifício onde ficava o único wc que os negros podiam usar no centro da cidade. A ascensorista, uma jovem branca chamada Sarah Page, deu um grito.

Segundo o historiador Scott Ellsworth, não se sabe o que causou a reação da jovem, mas “a explicação mais comum é que Rowland terá pisado o pé de Page ao entrar no elevador, fazendo com que ela gritasse”.

Dick Rowland foi detido e, no dia seguinte, o jornal Tulsa Tribune noticiava que o jovem engraxador tinha tentado violar Page. Além disso, diz o historiador, citado pela BBC, “segundo algumas testemunhas da altura, o Tribune publicou também um editorial, hoje perdido, com o título Negro será linchado esta noite“.

Nessa noite, uma multidão de brancos dirigiu-se à cadeia, mas o chefe da polícia local recusou-se a entregar-lhes o prisioneiro. Ao saberem do que se passava, dezenas de  negros de Greenwood, muitos deles veteranos da Primeira Guerra Mundial, que estavam armados, também se dirigiram para a cadeia, para ajudar a proteger Rowland.

A ajuda foi no entanto dispensada pelo chefe da polícia. “Quando os negros estavam a ir-se embora, um branco tentou desarmar um dos veteranos negros, e um tiro foi disparado. O tumulto começou“, conta Ellsworth.

Frustrados por não terem conseguido linchar Rowland, homens brancos armados começaram a atacar negros aleatoriamente, disparando contra pessoas e casas. Segundo Ellsworth, as autoridades pouco fizeram para conter o conflito nas primeiras horas, focando-se em proteger bairros de moradores brancos — que não estavam sob ataque.

Quando a madrugada de 1 de junho chegou, a multidão enfurecida já contava milhares, e dirigiu-se a Greenwood. Os invasores atearam fogo às casas e lojas. Segundo testemunhas do massacre, inúmeros objetos de valor foram roubados, e o resto destruído. Pelo menos uma metralhadora e até aviões foram usados nos ataques.

Até hoje não há consenso sobre o número de vítimas. Um relatório de 2001 de uma comissão que investigou o episódio diz que foi possível confirmar 39 mortos, sendo 26 negros e 13 brancos, mas que as estimativas anteriores, de até 300 vítimas, podem ser verdadeiras. Muitos corpos terão sido sepultados em valas comuns e no rio Arkansas.

United States Library of Congress / Wikimedia

O bairro de Greenwod, em Tusla, em chamas após o massacre da “Wall Street Negra”

Os sobreviventes do massacre foram detidos e levados para acampamentos. Os moradores de Greenwood declararam na altura um prejuízo de 1,8 milhões de dólares, mas as seguradoras recusaram-se a pagar.

Sarah Page, a ascensorista, retirou a acusação contra Rowland, que não foi indiciado. Mas mesmo assim as autoridades decidiram que os negros eram os culpados pela violência, classificada como motim racial. Nenhum dos invasores brancos foi acusado.

Apagado da história

A atriz Jean Smart, que interpreta a agente do FBI Laurie Blake na série da HBO, afirmou-se “horrorizada” por nunca ter ouvido falar do acontecimento, e considerou que a série conseguiu educar a audiência “de uma forma que foi muito significativa”.

“Watchmen” é uma sequela da novela gráfica de Alan Moore e Dave Gibbons, publicada pela DC Comics, entre 1986 e 1987, situando-se 34 anos depois dos acontecimentos dos livros e mostrando tensão e violência racial na Tulsa contemporânea.

A série, que estreou em outubro de 2019, levou a audiência a pesquisar os eventos do massacre de 1921 e ganhou novo fôlego devido ao contexto atual em torno da morte de George Floyd e o movimento de justiça racial liderado pelos promotores do Black Lives Matter.

“É um momento maravilhoso na história do nosso país e do mundo”, disse Louis Gossett Jr., de 84 anos, que interpreta Will Reeves, referindo-se ao movimento que foi para as ruas desde o final de maio. “Isto é novo. Ver isto, para mim, é poeticamente histórico“.

Regina King, que protagoniza a série como Angela Abar, sublinhou a importância de ser uma mulher negra a liderar a história. “Nunca tinha visto isto. Foi uma honra”, disse King, que recebeu o Óscar de Melhor Atriz Secundária em 2019 por “Se Esta Rua Falasse”. “Quando temos a oportunidade de expressar a nossa arte num espaço onde o comentário social está presente – é para isso que cá estou”.

De acordo com os dados da Nielsen e da HBO, citados pela Vulture, o episódio final de “Watchmen” foi visto por 1,6 milhões de pessoas e a audiência cumulativa média da série foi de sete milhões de espectadores por episódio, o que a tornou na temporada inicial mais vista do canal dos últimos três anos.

“‘Watchmen’ está povoada de personagens maiores do que a vida“, caracterizou Lindelof, conhecido também pelas séries “Lost” e “The Leftovers”. O produtor explicou que foi preciso convencer Jeremy Irons e Hong Chau a aceitarem os seus papéis de Adrian Veidt e Lady Trieu, respetivamente.

“Fui levado pela história como uma criança. Não sabia o que se estava a passar, era um mistério para mim”, disse Jeremy Irons. O ator, consagrado com um Óscar em 1991 pelo papel em “Reveses da Fortuna”, disse que só percebeu o arco global da história, incluindo a importância do massacre de Tulsa, quando viu o produto final. “Senti-me orgulhoso de fazer parte disto”, declarou.

Yahya Abdul-Mateen II, que interpreta Cal Abar, afirmou que a história o levou a perceber que os efeitos dos acontecimentos traumáticos que afligem uma geração passam para as seguintes. “O trauma perdura e entra nos nossos corpos, nas nossas famílias, no ADN”, disse. “Nem sequer sabemos que o carregamos”.

Apesar da vontade inicial da HBO de ter uma segunda temporada da série, Damon Lindelof disse que tinha contado a história que queria contar, pelo que o canal acabou por reclassificar a série como limitada. Ainda assim, não foi posta de parte a possibilidade de um regresso no futuro.

A sessão da revista Variety, com a equipa de “Watchmen”, realizou-se dois dias depois do primeiro comício do presidente Donald Trump após o confinamento por causa da pandemia de covid-19, que aconteceu em Tulsa a 20 de junho.

A escolha do local e a data original, 19 de junho, tinham causado polémica por causa do massacre de 1921 e a comemoração do “Juneteenth”, que marca o fim da escravatura nos EUA.

ZAP // Lusa / BBC

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