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Cinco razões para explicar a vitória. Moedas precisa da esquerda para governar Lisboa

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Rodrigo Antunes / Lusa

Carlos Moedas está forçado a fazer acordos para governar a Câmara de Lisboa que tem uma maioria de esquerda de 10 vereadores contra 7 dos partidos à direita. O novo autarca da capital já disse que conta “com todos” no rescaldo de uma noite eleitoral onde a votação em Lisboa continua embrulhada em mistério.

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No seu primeiro dia como presidente de Câmara de Lisboa, Carlos Moedas foi cumprir uma das promessas que tinha feito, almoçando com os trabalhadores da área da higiene urbana. Foi nessa ocasião que notou que conta “com todos os partidos para governar a cidade”.

Moedas venceu com uma coligação de partidos à direita com PSD, CDS, MPT, PPM e Aliança, elegendo 7 vereadores. O PS tem outros 7, a CDU elegeu dois vereadores e o Bloco de Esquerda (BE) manteve o lugar que tinha.

Portanto, com uma maioria de 10 contra 7, Moedas vai ter inevitavelmente que negociar com a esquerda. Espera-se que o novo autarca comece por fazer uma aproximação ao PS, mas não estão descartados eventuais acordos com CDU e BE.

O presidente eleito já deixou claro que está disposto a gerar entendimentos, salientando que é “preciso trabalhar em conjunto” e acabar com a “política da fricção”, com vista à “construção de soluções”.

O vice-presidente do PSD, David Justino, salienta na TSF que “é necessário que se possa construir uma plataforma de entendimento minimamente estável, para que a gestão da Câmara de Lisboa não seja afectada”. Mas “não vai ser fácil”, alerta.

David Justino considera, contudo, que um eventual “Bloco Central”, com PSD e PS, só será viável se os socialistas estiverem disponíveis para isso.

O dirigente do PSD acredita, assim, que o mais provável é que haja “entendimentos sobre orçamentos e aquilo que são grandes deliberações“.

Também o secretário-geral do PSD, José Silvano, acredita que seja possível encontrar uma solução que torne Lisboa “governável”, até porque os lisboetas vão “pressionar” Moedas “para que haja essa concertação e esse diálogo“, aponta em declarações à TSF.

Mais derrota de Medina do que vitória de Moedas

Entretanto, por explicar continua a vitória de Moedas depois de todas as sondagens indicarem que Fernando Medina venceria, nalguns casos com margens de mais de 60%.

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O Expresso nota que “Medina perdeu 25.215 votos“, enquanto “Moedas ganhou só 2801”. Na análise do semanário, o autarca socialista que esteve à frente da Câmara nos últimos anos, “perdeu mais de 20% dos votos que tinha conseguido na quase maioria de 2017”.

Moedas “teve apenas mais 2801 votos do que a soma dos eleitores de Assunção Cristas e Teresa Leal Coelho em 2017″, de acordo com o mesmo jornal.

Os resultados também apontam uma subida da CDU, mas são apenas “mais 1418 votos contados para João Ferreira face há quatro anos”, explica o Expresso.

o Bloco perdeu votos (2962) e o PAN também (1042), segundo a mesma fonte.

Portanto, pode-se depreender que os votos que Medina perdeu não terão ido para a esquerda.

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Mas pode ter havido “uma transferência em cadeia de votos, ou seja, votos que saíram de Medina para Moedas”, destaca ainda o Expresso.

Contudo, a explicação mais provável para a derrota de Medina pode estar no “efeito do voto útil“, conforme salienta o Público. Esse factor ajudará também a explicar o facto de Iniciativa Liberal (IL) e Chega não terem eleito vereadores.

Com as sondagens a darem a vitória de Medina como certa, muitos eleitores socialistas terão escolhido não ir votar.

Pelo contrário, os eleitores de direita podem ter-se mobilizado no sentido de derrotar Medina, com votantes típicos de IL e Chega a optarem pelo voto útil em Moedas. Se assim foi, a estratégia surtiu o seu efeito.

“As pessoas fartaram-se”

Além da questão do voto útil, há outros factores que podem explicar a derrota de Fernando Medina na corrida autárquica.

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Apesar de grande parte dos lisboetas achar que o socialista seria o vencedor, são muitos aqueles que falam com desagrado das suas políticas nos últimos quatro anos.

As decisões de Medina no que diz respeito às ciclovias, às condições dos imigrantes, à proliferação de alojamentos locais e, mais recentemente, devido ao caso “Russiagate” colocaram o antigo autarca numa posição que não o favoreceu, refere o DN.

Em Arroios, o Diário de Notícias foi ouvir várias pessoas que foram fazendo referência a estes pontos, que consideram ter arruinado a imagem de Medina como presidente. “As pessoas fartaram!” – foi uma das frases mais repetidas.

Ermelinda Branco, de 93 anos, lembra a população envelhecida da freguesia e garante que nada era feito em seu benefício. Já o seu filho considera que “Medina não tinha empatia com as pessoas”.

Por sua vez, Fernanda, uma florista do mercado local, lamenta que o presidente tenha dado demasiada atenção às ciclovias. “Com uma população tão envelhecida neste bairro, o Medina só pensava em ciclovias. As pessoas desesperaram“, referiu.

No que diz respeito ao caso da divulgação de dados de activistas russos, a comerciante refere ainda que o caso acabou por manchar a imagem do autarca, ainda assim frisa que “foi prejudicial, mas foi tudo junto”, realçando que a queda do socialista se deveu a vários factores.

Já Nuno, taxista da cidade, destaca o problema da proliferação do alojamento local, uma consequência do grande número de turistas que a capital tem vindo a receber ano após anos, que “que tirou muitas famílias” até de bairros como Alfama.

Agora, a esperança reside nestes lisboetas que esperam que muitas destas políticas ganhem um novo rumo sob a alçada do social-democrata.

  ZAP //

7 Comments

  1. Carlos Moedas deve fazer uma exaustiva auditoria às contas e processos da CML.
    Só processos em tribunal, alguns por corrupção, há 18 !!
    Deve comunicar à opinião pública qualquer bloqueio que a geringonça camarária faça à sua presidência.
    Deve reduzir o pessoal administrativo da câmara, que neste momento tem mais de 13.000 elementos pagos principescamente.

  2. És trabalhador da Câmara? Vai ver o que aconteceu no tempo em que Santana esteve na Câmara.
    As dividas foram milhões e só pagava aos fornecedores ao fim de 2 anos. Assim como na Figueira Mas este povo não pensa.

    • Menos drama… o Moedas é um tóto, mas o facto se serem vários partidos a governar a Câmara até é positivo e evita abusos e “arrogâncias” como aconteceram com o Medina.

  3. O que aconteceu foi mesmo muito mau, culpas para o Medina naturalmente, mas muita ignorância de voto à mistura, e diz-se Lisboa culta em relação ao resto do país.
    Lembrar ao Carlos Sousa que não há geringonça camarária, devendo haver sim uma oposição consistente de acordo com aquilo que entendam ser as necessidades da população, que mais uma vez, penso, vai ser esquecida.

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