Duas cadeiras para três. Ursula von der Leyen ficou incrédula com “afronta” na Turquia

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, viveu um momento de embaraço na visita à Turquia quando o presidente do país, Recep Tayyip Erdogan, e o presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, a deixaram pendurada, sem lugar para se sentar, numa cerimónia pública.

Na importante visita a Ankara, no sentido de recuperar as relações entre a União Europeia (UE) e a Turquia de volta ao bom caminho, Ursula von der Leyen acabou por ser relegada para um local secundário por não ter um lugar para se sentar no palco principal, onde ficaram Erdogan e Michel.

Aquando de uma cerimónia para as câmaras de televisão, nenhuma poltrona foi colocada na sala para a presidente da Comissão Europeia ao lado de Erdogan.

Von der Leyen foi obrigada a ficar em pé enquanto o presidente turco e o presidente do Conselho Europeu se sentavam confortavelmente nas suas poltronas, trocando sorrisos e ajeitando os casacos.

Von der Leyen ainda soltou um “humm” de espanto e Charles Michel pareceu olhar para ela, algo hesitante, mas manteve a sua posição intacta na poltrona.



A presidente da Comissão acabou por sentar-se num sofá, situado ao lado das poltronas dos lideres da Turquia e do Conselho Europeu, sem ter espaço no círculo central definido para Michel e Erdogan.

Von der Leyen “ficou surpreendida”

“A presidente Von der Leyen ficou surpreendida“, mas “decidiu seguir em frente e dar prioridade à substância acima do protocolo”, apontou à comunicação social o seu porta-voz, Eric Mamer.

“Mas isso não significa que ela não dê importância ao incidente”, acrescentou.

Von der Leyen não comentou directamente o episódio, mas depois do encontro, na conferência de imprensa que se seguiu, tomou uma posição dura sobre os direitos das mulheres na Turquia.

No passado dia 20 de Março, a Turquia saiu da Convenção de Istambul que visa prevenir as violências contra as mulheres.

Entretanto, uma fonte do gabinete de Charles Michel referiu que “o Tratado de Lisboa prevê que, no estrangeiro, o presidente do Conselho tem precedência sobre o ou a presidente da Comissão”.

Mas o porta-voz de Von der Leyen entende que “os presidentes da Comissão e do Conselho têm a mesma classificação de protocolo” e diz que, por isso, “deviam sentar-se ao mesmo nível”.

Do lado turco, um responsável sublinha à AFP que “nenhuma disposição foi tomada além das solicitadas por uma delegação da UE que preparou a visita”.

Michel reconhece “tratamento diferenciado”

Por seu turno, Charles Michel atirou culpas para os responsáveis turcos.

“Apesar de um desejo claro de fazer bem, a interpretação estrita feita pelos serviços turcos das regras protocolares produziu uma situação lamentável: o tratamento diferenciado, ou mesmo diminuído, da presidente da Comissão Europeia”, escreveu o presidente do Conselho Europeu no seu perfil do Facebook.

Quanto ao facto de não ter tido qualquer reacção, Michel nota que escolheu, juntamente com Von der Leyen, “não agravar” ainda mais o caso com “um incidente público”.

Ora, nas imagens, é visível que Michel não esboça qualquer gesto e que é a presidente da Comissão que se conforma com a situação, assumindo um lugar secundário no encontro.

Michel lamentou ainda a tristeza porque “esta situação ocultou o grande e benéfico trabalho geopolítico” realizado em Ancara.

O presidente do Conselho Europeu realçou que a “visita foi um momento importante no complexo processo de melhoramento das relações da UE com a Turquia“, no sentido de convencer Erdogan a assumir “uma abordagem mais construtiva” na relação com os pares europeus.

Nos bastidores da UE, as relações entre Michel e Von der Leyen também não serão perfeitas. O jornal francês Le Monde destaca que são mesmo “muito difíceis” devido a divergências quanto à política externa da UE.

Já o Le Figaro evidencia que os dois lideres europeus mantêm relações “muito mais tensas do que o bom entendimento que demonstram” publicamente.

#SofaGate “orquestrado por Erdogan”

O insólito episódio não escapou ao olhar clínico das redes sociais, onde chovem críticas a Michel e a Erdogan. O assunto também tem sido comentado em tom humorístico com o uso das hashtags #GiveHerASeat [Dêem-lhe um assento] e #SofaGate.

A eurodeputada holandesa Sophie in’t Veld usou o Twitter para divulgar fotos de Novembro de 2015 que mostram Erdogan sentado ao lado de Jean-Claude Juncker e Donald Tusk, respectivamente presidentes da Comissão e do Conselho Europeus da altura.

Reportando-se ao que aconteceu agora com Von der Leyen, a eurodeputada escreveu que “não foi coincidência, foi deliberado”.

Porque é que o presidente do Conselho ficou silencioso?“, pergunta ainda Sophie in’t Veld.

https://twitter.com/SophieintVeld/status/1379528585220853761

O antigo embaixador da UE na Turquia, Marc Pierini, também não tem dúvidas de que o incidente foi “orquestrado por Erdogan”, como destacou ao Le Figaro. “É mais uma promessa dada aos clérigos turcos conservadores”, sublinhou.

E o Secretário de Estado francês dos Assuntos Europeus, Clément Beaune, referiu a uma televisão francesa que parece ter sido “algo de organizado”.

“Não quero uma Europa ingénua e frágil”, realçou ainda Beaune, frisando que Erdogan “conhece a força das imagens, o valor dos símbolos”.

É uma afronta que vamos corrigir, mas não podemos deixar que este tipo de coisas aconteça”, acrescentou.

Susana Valente Susana Valente, ZAP //

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36 COMENTÁRIOS

  1. A europa acobardada nada vai fazer.
    É calar e comer. E pouco barulho!
    Quem manda nisto é Erdogan….
    Que pouca vergonha!!!!

  2. O monte de esterco do Erdogan no seu melhor. Esse homem é um asco. Deixaram um ditador subir ao poder ma Turquia e desde então que o animal não parou de se revelar o bandido que é. Que nojo de gajo!..

  3. A situação é inadmissível mas não por ser uma discriminação de género, como o texto no video dá a entender (com o patrocínio metoo).

    É inadmissível porque há uma lider em missão diplomática que não é tratada à altura enquanto líder (não enquanto mulher). Isto é uma afronta à UE e em particular à Comissão Europeia. O facto dela ser mulher, numa sociedade em que se quer afirmar a neutralidade de género, é irrelevante. Também há um homem sentado no sofá em frente do da Ursula… Será uma discriminação do género masculino? Que estupidez identitarista!

    • Para além do incidente na Turquia, inqualificável a qualquer título e que o próprio erdogan, se fosse realmente um homem, mandaria corrigir de imediato, o que ressalta é que não há nenhuma união europeia mas, sim, um saco de gatos, que se vão arranhando uns aos outros, por enquanto. Pode vir a haver, com muito mais vantagens, é uniões regionais, sobretudo no sul da europa, como a união da grécia com a Itália, de portugal com a espanha que, de certo modo, até já existe, da frança com os países baixos, da polónia com a hungria, estónias e letónias, e a alemanha sózinha, como chefe de orquesta. É este o meu ponto de vista que, sem má intenção exponho.

  4. Se o erdogan é um relíquia, de quem não podemos esperar civismo, o Charles Michel tem aqui culpa grande no cartório.
    O homem não tinha que se sentar a não ser ao lado a menina, no sofá.

    Realmente uma oportunidade perdida e um golpe fatal para este fulano Charles Michel cujo nome só agora vi pela primeira vez e um nabo que deve ser muito bem pago por todos nós

  5. O ditador turco a gozar com a “presidente” da UE!…
    Ainda por cima ela é da Alemanha, onde os turcos continuam a fazer os que lhes apetece…

  6. Se alguém aqui perdeu uma boa oportunidade para mostrar o que nos diferencia de alguns turcos (não são todos) foi o presidente do Conselho Europeu, Charles Michel. A atitude dele é quase ao estilo Trump. Ultrapassa a Von der Leyen para ganhar a posição da única cadeira que restava para além da do Erdogan.
    Se ele tivesse cedido posteriormente o seu lugar à Ursula e fizesse menção alto e bom som que por uma questão de cortesia não deixaria uma senhora em pé, embora sorrindo ao mesmo tempo, dava um bofetadão de luva branca no Erdogan.

      • Decididamente escapou-te o essencial. A atitude do Erdogan foi bem intencional. Náo foi por acaso que só lá estavam dois cadeirões. Perante isso, havia que mostrar que somos culturas bem diferentes e que na UE, homens e mulheres são efetivamente iguais. Ao dar o seu lugar tinha-o deixado bem claro e era um verdadeiro bofetadão no Erdogan. Engolia o sapo e calava. A questão não era se o Charles Michel ficava em pé ou não. Era que contra a vontade do Erdogan, a Ursula estaria sentada ao seu lado em igualdade de circunstância. Assim, acabou por ganhar o Erdogan.
        Já percebeste ou até partilharás as ideias de alguns turcos?
        E de resto, acho que o mínimo é ser um cavalheiro. Perante uma situação destas acho que qualquer homem com H grande tinha feito isso.

  7. Além do mais é uma enorme falta de educação , deixar uma senhora de pé, enquanto ficam confortavelmente sentados.

  8. O pior não é o facto de os turcos serem turcos, o pior é o facto de que a união europeia considera a entrada da turquia para a união europeia. Por isso é que anda com reuniões sobre direitos humanos, a ver se convencem a opinião pública de que os turcos são europeus, mas nem assim se safam. A união europeia só anda a bajular os turcos para que eles continuem a travar os refugiados.

  9. A afronta a Sra Ursula von der Leyen, tem ter consequências, porque razão a Europa se acobarda?
    Charles Michel foi também indigno.
    Medo da abertura das fronteiras a resposta é sanções económicas!

  10. Ficou com um sofá só para ela e ainda se queixa, para a próxima senta no chão!..
    E nem vou falar do trabalho fraquissimo que está a fazer a frente a EU!.. na verdade faz toda a diferença ter uma mulher presidenta!.. só faz asneiras e arrasta nos para a crise!

  11. Tive um aluno Turco que no dia do exame apareceu, para fazer o exame, no fim do tempo. Não o deixei entrar e disse que ele estava reprovado por faltas porque ele apareceu só a 1 ou 2 aulas. Insistiu em falar com o diretor de curso. Durante a conversa com o diretor de curso veio com a mesma conversa e disse que eu não o podia reprovar por faltas porque ele não ia às aulas porque estas eram dadas só por mulheres.
    Posso dizer, custa-me muito reprovar um aluno, mas a esse não imaginam o que eu senti quando o reprovei por faltas.

  12. se fosse uma mulher com “eles no sito” como se diz, ela tinha dado meia volta e tinha saido da sala. a fronta depois era deles
    mas ela ao sentar-se no sofa, aceitou a humilhaçao dando razao aos turcos na questao de direitos das mulheres

  13. Um dos maiores erros históricos da Europa foi ter permitido a existência da Turquia no rescaldo da 1a guerra mundial. Aquele território deveria ser grego, arménio e descolonizado dos fundamentalistas islâmicos do aniquilado Imperio Otomano. Que aliás era o que estava previsto no Tratado de Sévres. Que a Turquia rasgou perante a passividade das potencias europeias. Grande erro…

  14. A culpa só pode ser do Erdogan, mais uma lição para a UE aprender que não deve andar com certo tipo de gente nas palminhas da mão!

  15. Nós europeus somos uns covardes, sempre que a Turquia se chateia temos que nos aninhar, porque é que eles não se baixam pelo menos uma vez.. ameaçam sempre com o envio de refugiados se não lhes der-mos dinheiro, então a Europa vai enviar para trás todos os Turcos de volta para a Turquia!!!

  16. Pois a minha opinião é esta, alguém quer o lugar dela, e humilhando-a, é humilhar a Europa, não será por ser mulher, mas sim o lugar que ocupa, um europeu sabe bem como se deve comportar para o bem e para o mal. A união europeia, anda à procura de mais gente pobre de espírito? quem procura encontra.

  17. A União Europeia no seu melhor ! já fomos humilhados em moscovo e não houve resposta a UE comeu e calou o Borel como espanhol pensava que fosse mais homenzinho, e agora esta cena na turquia e blá blá nada de novo como sempre e como querem que os outros paises levem a serio a UE tenho vergonha como europeu de ver e aceitar esta situação.- TENHAM VERGONHA , não é a UE que precisa da Turquia mas sim o contrario. Como na altura o Michel e a Van der Leiden não fizeram nada ao menos façam agora.
    FICO A ESPERA e ESTOU SENTADO ||||||

    • “…não é a UE que precisa da Turquia mas sim o contrario…”

      Olha que não é bem assim. A UE também precisa e muito da Turquia! Está completamente enganado. A ter em conta:
      – Se a UE não continua a “bancar” à Turquia o Erdogan abre os portões e teremos uma avalanche de imigrantes.
      – A Turquia ainda está na NATO, mas tem sido muito errática nos últimos anos, ora aproximando-se ora afastando-se da Rússia. Com o problema da Ucrânia em crescendo, é preciso ter algum cuidado. E nesta matéria da Ucrânia a situação aparenta ganhar alguns contornos explosivos nas últimas semanas (possibilidade embora remota de Ucrânia entrar para a Nato; na sequência disso foram enviados milhares de soldados russos para a região de Donbass). A situação deverá agravar nos próximos tempos, até pela postura do novo Presidente Americano.
      – Uma Turquia dominada por extremistas religiosos (que não propriamente o Erdogan, pelo menos nesta fase, masque para lá pode evoluir), seria uma enorme ameaça à Europa. As principais ameaças à Europa vieram no passado desta região.
      – A Turquia e o Azerbaijão vão controlar já em breve os gasodutos que vão do Cáspio para a Europa. Se eles fecham a torneira, a Europa parará de imediato.

      A Turquia devia estar totalmente democratizada, ser laica e ter uma boa relação com a UE. Isso seria o desejável.

      • Eu acho que as principais ameaças à Europa vieram, no passado, da própria Europa.
        A Turquia, com Ataturk, nos anos de 1920, tornou-se um estado laico. Atualmente, com o Erdogan, está a voltar para trás. Cada vez se observa mais, no mundo, uma deriva autocrática e aqui, na Europa, Portugal incluído, há muitos que querem seguir esse rumo. Rumo que provou, no passado, acabar sempre em desgraça para os povos e também para os ditadores. É o que acontece quando se esquece a História ou, simplesmente, se nega.

  18. Um boicote aos produtos da turquia . . .
    No tempo da guerra colonial, a norte da Europa boicotava a compra de café de Angola.
    Há tempos comprei um televisor da marca Kubo. Só depois percebi que é uma marca turca. O TV em si não tem nada de mal, mas tento evitar comprar coisas de certos países.
    É mesmo difícil, pois ao eliminar produtos da china quase não se pode comprar quase nada.
    Com a turquia e inglaterra é mais uma questão de sorte, pois quase não há produtos destes países que me interessam.
    O erdogan disse que foi a UE que achava duas cadeiras o suficiente. Claro que pensavam que o erdogan ia sentar se num tapete. Agora entendo bem que o tal Michel aspira um Trono

  19. O que se passou foi que a Ursula perdeu no jogo das cadeiras. Tanto barulho por causa de uma brincadeira de crianças!

  20. Quem foi ao ar perdeu o lugar!!! Lembram-se desta brincadeira? Isto é tudo uma brincadeira pegada, na política!

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