Espicaçar é coisa do passado. Em sussurro, Rio e Jerónimo divergiram (mas pouco)

Ricardo Castelo, Rodrigo Antunes / Lusa

Rui Rio (PSD), Jerónimo de Sousa (PCP)

Longe vão os tempos em que os debates eram acesos e espicaçados. No debate desta quinta-feira, Rui Rio e Jerónimo de Sousa frisaram que os partidos têm “divergências de fundo”. No entanto, estas não foram suficientes para aquecer o frente-a-frente: só no Serviço Nacional de Saúde é que discordaram em absoluto.

Era espectável que o debate desta quinta-feira fosse um confronto entre pólos opostos, mas não foi. Rui Rio e Jerónimo de Sousa sentaram-se nas cadeiras do estúdio da RTP para, com muita diplomacia à mistura, transparecer um consenso de pontos de vista em vários temas. As divergências, quando as houve, ficaram para a forma como ambos os líderes pretendem atingir os objetivos.

Num debate que nem morno chegou a ser, ambos concordaram com a necessidade de aumentar os salários dos portugueses. Enquanto o PSD quer o salário mínimo nacional em 700 euros, o PCP é mais ambicioso e pretende chegar aos 850 até ao final da legislatura.

O partido de Rui Rio quer que as empresas com maiores assimetrias salariais sejam alvo de “penalizações fiscais” para que, “quando a empresa cresce, usufruam todos e não apenas aqueles que têm capacidade de decisão”. Jerónimo de Sousa garantiu que o problema do fosso salarial fica resolvido quando o salário mínimo for aumentado para os 850 euros.

Em relação à reposição das 35 horas no setor público e a aplicação idêntica no privado, Rio, apesar de garantir que “neste momento é impossível”, quer também “lutar para que o crescimento do setor económico permita a redução” do horário de trabalho também no privado. Lembrando as lutas dos operários, Jerónimo afirmou ser “necessário dar um passo adiante para a redução para as 35 horas”.

Também no aumento do abono de família os dois concordam. No entanto, enquanto que o líder dos comunistas quer um abono de família “universal”, Rui Rio acredita que este deve variar em função do número de filhos.

O líder do PSD acrescentou ainda que as empresas teriam de se habituar a ouvir dos funcionários que a mulher estava grávida e que isso significava que também teriam de “passar algumas semanas em casa”, uma vez que os sociais-democratas propõem a partilha de licença parental entre os pais.

Quanto às creches, Jerónimo luta por uma “rede pública e gratuita até aos três anos”, enquanto que o objetivo de Rio é uma rede “tendencialmente gratuita”, articulada com o setor social e apoiada por dinheiros públicos. Se os objetivos são os mesmos, só o rumo para os atingir é que é diferente.

PSD encara a Saúde como “um negócio”

A nova Lei de Bases da Saúde e a questão da existência, ou não, de Parcerias Público-Privadas foram temas que agitaram a atual legislatura. No frente-a-frente desta quinta-feira, o tema não passou ao lado dos líderes partidários, que concordaram em discordar.

Jerónimo de Sousa prefere a via de um Serviço Nacional de Saúde totalmente público, um a vez que “a saúde é um direito que a Constituição consagra”. O debate começou neste momento, com um ataque por parte do comunista ao PSD, afirmando que os sociais-democratas propõem “que a saúde seja um negócio“. E foi mais longe: a proposta do PSD de criar um “sistema nacional de saúde mereceria um chumbo do Tribunal Constitucional”.

O tempo disponível já tinha sido esgotado, pelo que Rui Rio não teve oportunidade de responder diretamente a Jerónimo de Sousa. No entanto, o líder do PSD já havia esclarecido anteriormente que a proposta de um sistema nacional de saúde tinha como objetivo fazer convergir os papéis do “privado e social”, mantendo o SNS como o conhecemos.

“Se os privados estão capazes de gerir e com o mesmo orçamento conseguem fazer mais e melhor, porque é que hei de dizer que não? Temos é de introduzir critérios de gestão, impor objetivos e responsabilizar, para o bem e para o mal, e uma boa fiscalização”, disse.

Rui Rio não quer ser deputado

Ser deputado não entusiasma Rui Rio. Esta quinta-feira, o líder do PSD sublinhou a sua postura e adiantou que o que o entusiasma é “liderar o partido”. “Não quero ser deputado, quero ser primeiro-ministro“, afirmou, adiantando que, caso o PSD não vença as eleições, estar no Parlamento irá depender do futuro do partido.

A última questão do frente-a-frente voou até Jerónimo de Sousa. Sobre a hipótese de voltar a viabilizar um Governo do PS, o secretário-geral do PCP afirmou que o partido “continua a considerar que há coisas que não são repetíveis“. “Os portugueses é que vão decidir o futuro e arrumação de forças do Parlamento.”

O debate fez-se de propostas, perguntas e repostas, num tom partilhado de cordialidade. Apesar de estarem representados dois partidos com ideologias muito diferentes, o frente-a-frente desta quinta-feira deixou saudades dos debates acesos, aguerridos e atiçados do passado.

LM, ZAP //

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