Eleitores ucranianos “forçados a votar sob mira de armas”. Referendos de anexação são “ilegais”

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Sergey Dolzhenko/EPA

Volodymyr Zelenskyy

Zelenskyy afirmou que uma anexação de territórios através de referendos significará que “não há nada a negociar” com o seu homólogo russo.

O Presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskyy, afirmou esta terça-feira na ONU que uma eventual anexação de territórios da Ucrânia por parte Rússia, através de referendos, significará que “não há nada a negociar” com o homólogo russo.

Em declarações realizadas em vídeo, Zelenskyy revelou que os eleitores ucranianos “foram forçados a votar sob a mira de armas” e que os resultados “foram escritos com antecedência”. “A anexação dos territórios é a violação mais brutal da Carta das Nações Unidas”, sublinhou o chefe de Estado ucraniano.

A delegação russa opôs-se ao depoimento, sendo que o líder da Ucrânia apelou a um esforço por parte do Ocidente, nomeadamente no reforço das sanções a Moscovo, bem como a expulsão da Rússia da ONU e de todas as organizações internacionais.

Perante as delegações diplomáticas presentes na reunião, Zelenskyy pediu ainda que a Rússia seja mais isolada do panorama internacional. Primeiro, através da remoção do seu estatuto de membro permanente do Conselho de Segurança com direito a veto, e depois expulsando-a de todas as organizações internacionais. Se isso não for possível, o Presidente ucraniano pediu que a sua participação seja bloqueada.

A reunião do Conselho de Segurança foi convocada para abordar o aumento da tensão resultante da decisão de Moscovo de mobilizar parcialmente os reservistas do exército para apoiar os esforços da sua guerra na Ucrânia e realizar referendos de anexação nas regiões de Donetsk, Lugansk, Zaporijia e Kherson.

Após a declaração de Zelenskyy, Linda Thomas-Greenfield, embaixadora norte-americana na ONU, juntamente com a delegação da Albânia, apresentou uma resolução condenando a Rússia pela realização dos referendos.

“A Rússia começou esta guerra, e espero que cada membro deste Conselho faça a coisa certa ao defender o direito internacional e a Carta da ONU, pedindo à Rússia que acabe com isso agora. A luta da Ucrânia não é apenas uma luta pela sobrevivência, mas uma luta pela democracia e pelos próprios princípios que todos nós prezamos”, salientou a embaixadora.

“É por isso que apresentaremos uma resolução condenando estes falsos referendos, apelando aos Estados-Membros para que não reconheçam qualquer alteração do estatuto da Ucrânia e obrigando a Rússia a retirar as suas tropas da Ucrânia. Os falsos referendos da Rússia, se aceites, abrirão uma caixa de Pandora que não podemos fechar. Pedimos que se juntem a nós para reafirmar o nosso compromisso com a Carta da ONU e enfrentar esse desafio de frente”, apelou Thomas-Greenfield.

A resolução deverá ser apenas simbólica, tendo em conta que a Rússia quase certamente a vetará, uma vez que tem poder de veto. Contudo, a embaixadora norte-americana frisou que tentará levar a votação à Assembleia-Geral da ONU, caso a Rússia “escolha blindar-se da sua responsabilização”.

As autoridades pró-Rússia nas regiões ucranianas de Zaporijia, Kherson e Lugansk reivindicaram hoje uma vitória do “sim” à anexação pela Rússia, estando ainda a aguardar os resultados da quarta região ucraniana ocupada pela Federação Russa.

De acordo com autoridades eleitorais instaladas pela Rússia nas quatro regiões, 93,11% dos cidadãos de Zaporijia votaram a favor da anexação à Rússia, após a contagem de 100% dos boletins de voto. Na região de Kherson, a administração de Moscovo informou que 87,05% dos eleitores votaram a favor do “sim” à anexação, tendo sido também contados todos os votos.

Pouco depois, as autoridades em Lugansk também anunciaram a vitória do “sim”, enquanto a contagem na quarta região ucraniana, onde também se realizou um “referendo”, o Donbass (leste), continua, apesar de as autoridades já terem anunciado que “o sim prevaleceu largamente”.

Em 2014, a Rússia também usou o resultado de um referendo realizado sob ocupação militar para legitimar a anexação da Crimeia, no Mar Negro.

Referendos de anexação são “ilegais”

Josep Borrell, chefe da diplomacia europeia afirmou esta quarta-feira que os “referendos” de anexação organizados por Moscovo nas regiões ucranianas foram “ilegais” e os resultados “manipulados”.

“Trata-se de uma nova violação à soberania e à integridade territorial da Ucrânia, no contexto de violações sistemáticas dos direitos humanos”, salientou Borrell através de uma mensagem partilhada no Twitter.

“Nós saudamos a coragem dos ucranianos que continuam a opor-se e a resistir à invasão russa” acrescentou o chefe da diplomacia europeia.

  Alice Carqueja, ZAP //

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