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O tango dança-se a dois. Mas com Biden no poder, o “Trump dos Trópicos” não tem par

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Chris Kleponis / EPA

Líder da maior economia da América Latina, Jair Bolsonaro seguiu o exemplo de Donald Trump, merecendo o título de “Trump dos Trópicos”. Agora que o ainda Presidente dos Estados Unidos está prestes a dizer adeus à Casa Branca, o Presidente brasileiro fica sozinho a dançar este tango.

Rubens Ricupero, antigo embaixador do Brasil nos Estados Unidos, foi sucinto: “Ele vai ficar sozinho”. “Bolsonaro tem uma relação má com a União Europeia, França, Alemanha e com a China. Além disso, começou o seu relacionamento com o Presidente eleito dos EUA, Joe Biden, com o pé errado”, disse, em declarações ao Al Jazeera.

Recentemente, o recém-eleito Presidente norte-americano sugeriu que o Brasil poderia enfrentar sanções se não impedisse a destruição da Amazónia. A 11 de novembro, Bolsonaro respondeu.

“Recentemente, vimos um grande candidato a chefe de Estado dizer que, se eu não apagar o fogo na Amazónia, colocará barreiras comerciais contra o Brasil. O que podemos fazer para enfrentar isso? A diplomacia por si só não funciona… Quando a saliva acaba, temos que ter pólvora“, disse Jair Bolsonaro.

Mas à medida que Donald Trump se aproxima de conceder a transição formal para o Governo de Biden, pode não restar outra opção a Bolsonaro que não a diplomacia.

Ricupero acredita que o Brasil tem agora a oportunidade de “mudar a sua desastrosa política externa“, mas está cético sobre se será o Governo de Bolsonaro a dar esse passo.

Durante décadas, a política externa do Brasil foi ditada pelo pragmatismo: evitar interferir nos assuntos internos de outro país e não perder uma oportunidade de negócios. Mas Bolsonaro seguiu o exemplo de Trump nas relações exteriores, mesmo quando a matemática política e económica não era propriamente favorável.

Em relação à Saúde, o mesmo aconteceu: tal como o Presidente norte-americano, Bolsonaro minimizou a pandemia de covid-19, chamando-a de “gripezinha” e culpou a China pela disseminação do vírus. À semelhança de Trump, evitou usar máscara, contraiu a doença e usou a sua própria recuperação para mostrar que o vírus não é assim tão fatal.

Mas os números contam uma história diferente: atrás dos Estados Unidos, o Brasil surge na segunda posição quanto ao número de mortes causadas pela covid-19.

Para Ruben Barbosa, ex-embaixador do Brasil nos Estados Unidos e no Reino Unido e atual presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio exterior, a derrota de Trump também pode ser vista como um golpe para o “populismo nacional” nos Estados Unidos e no Brasil.

“Será difícil para Bolsonaro manter este tipo de movimento, a menos que Trump seja capaz de manter o controlo do Partido Republicano depois de deixar a Casa Branca e, até certo ponto, dirigir a política dos Estados Unidos”, disse à Al Jazeera.

A derrota de Trump enfraquecerá Bolsonaro e a direita conservadora, que tem ignorado as minorias”, disse a ativista Rose Cipriano à Al Jazeera. “Na América do Sul, países vizinhos como Argentina e Bolívia voltaram para governos de centro-esquerda. No Chile, protestos em massa convenceram as pessoas a reformar a Constituição e a reduzir a desigualdade social. No Brasil, vai acontecer o mesmo.”

Mas toda a moeda tem dois lados e o Brasil, assim como os Estados Unidos, está dividido: aqueles que apoioam Bolsonaro ecoam as visões dos apoiantes de Trump de que a culpa é do sistema, e não do Presidente.

  ZAP //

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