Toxinas lançadas pelos EUA continuam a poluir o Vietname (50 anos depois do fim da guerra)

Durante a Guerra do Vietname, aviões dos Estados Unidos pulverizaram terras agrícolas, florestas tropicais e áreas húmidas com herbicidas, que corroíam a vegetação e permitam encontrar os combatentes vietnamitas. Cinquenta anos depois, essas toxinas continuam a contaminar o solo e os alimentos.

Segundo um artigo da Phys Org, divulgado na quarta-feira, mais de 20 milhões de galões de herbicidas – incluindo o agente laranja, contaminado por dioxinas -, foram utilizados pelos norte-americanos

O agente laranja corroíam a espessa vegetação da selva e destruía uma parte das plantações de alimentos do país. No entanto, eram principalmente as dioxinas que prejudicavam a saúde, tantos dos militares vietnamitas como dos americanos.

Um novo artigo, desenvolvido por investigadores pelas universidades de Illinois e do Iowa (ambas nos Estados Unidos) e publicado a 31 de janeiro de 2019, evidencia o legado ambiental do agente laranja no Vietname, incluindo os pontos críticos onde a dioxina continua a contaminar os alimentos.

“A pesquisa existente até à data é, essencialmente, de natureza médica, concentrando-se nos detalhes da exposição humana através do contacto com a pele e dos efeitos de longo prazo sobre a saúde dos soldados americanos”, disse Ken Olson, um dos autores do artigo.

De acordo com o professor do Departamento de Recursos Naturais e Ciências Ambientais da Universidade do Iowa, neste artigo em especifico foram analisados os efeitos ambientais, a curto e longo prazo, nos recursos naturais do Vietname, bem como a persistência da dioxina nos solos, água, sedimentos, espécies aquáticas e saúde.

Ken Olson, juntamente com Lois Wright Morton, outro dos autores, explicaram que o agente laranja era uma combinação de dois herbicidas (2,4-D e 2,4,5-T), que não persistem mais do que alguns dias ou semanas no ambiente quando exposto à luz solar.

No entanto, durante a produção do agente laranja, formou-se um subproduto tóxico: a dioxina TCDD, o químico mais tóxico da família da dioxina. Quando esta entra em contacto com o ambiente, pode permanecer por décadas ou mesmo séculos. Foi exatamente isso que aconteceu no Vietname, afirmaram os investigadores.

Lucas Jans / Flickr

Para tal, a equipa examinou um relatório de 870 páginas da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), bem como uma dúzia de outros relatórios sobre os locais contaminados, provenientes da base aérea do Vietname, para verificar a atuação da dioxina TCDD no país.

“Tudo começa com a pulverização militar dos EUA na década de 1960, tendo a dioxina TCDD sido lançada às árvores e arbustos, o que levou à queda de folhas na superfície do solo (juntamente com algum contacto direto da substância com o solo) e à sua fixação na matéria orgânica do solo”, explicou Lois Wright Morton.

A partir daí, a dioxina TCDD foi-se deslocando, através do escoamento superficial e das partículas de sedimentos, instalando-se nos pântanos, rios, lagos e lagoas. Esses sedimentos foram – e ainda são – ingeridos pelos peixes e camarões, acumulando-se no tecido adiposo desses animais e contaminado a cadeia alimentar de muitas espécies aquáticas, que formam a base da dieta vietnamita.

Mesmo que a pesca seja banida na maioria dos locais contaminados, as proibições têm sido difíceis de aplicar e, como resultado, a dioxina TCDD continua a entrar nos alimentos, 50 anos depois.

O artigo aponta os 10 locais onde ainda persistem níveis elevados dessa substância, tendo constatado que milhões de vietnamitas vivem em cidades e aldeias próximas dessas zonas.

“O pior local contaminado com dioxinas no Vietname é a base aérea de Bien Hoa, a 48 quilómetros ao norte da cidade de Ho Chi Minh”, contou Ken Olson. “Depois que o presidente [Richard] Nixon ordenou aos militares americanos que parassem de pulverizar o agente laranja, em 1970, este foi o local onde foram recolhidos todos os barris da substância que permaneceram no Vietname. Os barris foram processados ​​e enviados para a ilha de Johnston, no Oceano Pacífico, onde foram incinerados no mar, em 1977”.

Com base nas pesquisas, os investigadores recomendam a incineração de solos e dos sedimentos contaminados nos locais críticos da base aérea do Vietname.

“Embora a incineração seja a tecnologia mais cara disponível atualmente, eliminaria definitivamente a dioxina, ao invés de armazená-la temporariamente em aterros. Além disso, não exigiria manutenção ou tratamento futuros. A incineração é uma das tecnologias madura e testada, das mais usadas, tendo sido usada para tratar solos, em mais de 150 locais”, acrescentaram.

TP, ZAP //

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1 COMENTÁRIO

  1. E quem cobra aos Americanos o ASSASSINATO de milhares de Vietinamitas, com essas toxinas, escrevem sobre soldados amerdicanos contaminados, mas estes ficaram ouco tempo lá, e os NATURAIS, por não dizem NADA.
    Já sei que não irão publicar.

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