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“Touradas cómicas” com anões. Atentado à dignidade humana ou direito ao trabalho?

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Cuadrilla comica "Diversiones en el Ruedo y sus enanitos toreros" / Facebook

Touradas com anões

Grupo cómico espanhol “Diversiones en el Ruedo y sus enanitos toreros”

A organização de “touradas cómicas” com anões em várias localidades portuguesas está a gerar uma onda de indignação. O ministro da Cultura já veio falar num “atentado à dignidade humana”, mas o representante dos participantes no evento fala de “espectáculos inclusivos” que permitem aos artistas “construir uma vida digna” e “criar as suas famílias”.

A primeira destas “touradas cómicas” está marcada para este domingo, dia 19 de Junho, na localidade da Benedita, concelho de Alcobaça. O evento é protagonizado pelo grupo espanhol de comediantes “Diversiones en el Ruedo” que organiza espectáculos de humor com anões e vitelos.

Este primeiro espectáculo a ocorrer em Portugal é organizado pelos bombeiros voluntários locais e foi autorizado pela Inspecção-Geral das Actividades Culturais (IGAC).

“A classificação etária é de maiores de 12 anos, conforme previsto na legislação dos espectáculos, que estabelece esta classificação para os espectáculos tauromáquicos”, refere fonte do Ministério da Cultura citada pelo Público.

A Plataforma Basta de Touradas que pede o cancelamento do evento lembra, em comunicado, que “o actual Decreto-Lei n.º 89/2014 de 11 de Junho (Regulamento do Espectáculo Tauromáquico – RET) prevê que os “toureiros cómicos” possam actuar nas chamadas “variedades taurinas”, que são espectáculos tauromáquicos onde actuam artistas tauromáquicos amadores e, ou, toureiros cómicos, que lidam animais do sexo masculino ou feminino, com mais de 2 e menos de 3 anos de idade e um peso máximo de 380 kg”.

Espectáculo “medieval e grotesco”

O ministro da Cultura, Pedro Adão e Silva, já veio dizer que este tipo de espectáculo “é atentatório à dignidade humana e contraditório com tudo o que importa defender no plano das políticas de inclusão”, como cita o Público. “De cómico não tem rigorosamente nada”, frisa ainda o governante.

A coordenadora do Observatório da Deficiência e Direitos Humanos, Paula Campos Pinto, refere ao mesmo jornal que se trata de um “grave retrocesso civilizacional”, considerando que “é um evento sem enquadramento numa sociedade respeitadora dos direitos humanos, medieval e grotesco“.

Já a presidente da Associação Nacional de Displasias Ósseas, Inês Alves, nota, também no Público, que eventos como este perpetuam o estigma do “bobo da corte” que ainda é atribuído a quem tem nanismo.

“O que diriam as pessoas se se tratasse de uma tourada cómica protagonizada por pessoas com paralisia cerebral?”, questiona ainda.

A Plataforma anti-touradas Basta apela aos Bombeiros Voluntários da Benedita que respeitem a dignidade humana, cancelando um espectáculo que, “além da brutalidade e violência contra animais“, contribui para “ridicularizar, denegrir e humilhar as pessoas com incapacidades”.

“Animais não são picados”

Contudo, João Guerra, da direcção da Associação de Bombeiros Voluntários da Benedita, assegura ao Público que as “touradas cómicas” não envolvem violência porque “os animais não são picados”.

Além disso, lembra que os elementos do grupo participam de livre vontade e que “as pessoas têm de ganhar a vida”.

Uma ideia que a presidente da Associação Nacional de Displasias Ósseas refuta, notando que o que é preciso é “encontrar trabalho digno e bem remunerado para estas pessoas”.

Respeito pelas “livres opções profissionais”

O representante português do grupo humorístico espanhol, Jaime Amante, também vinca, em declarações ao Público, que são espectáculos inclusivos com “vários artistas, independentemente da sua condição física, possuidores de carteiras profissionais e que exercem a sua profissão de modo livre“.

“São cidadãos com plenos direitos que realizam a sua vocação artística numa vertente de toureiro cómico, que tem uma tradição muito longa no tempo. Só quem tenha preconceitos para com uma pessoa, pelas suas condições físicas pode achar que estes artistas não merecem a consideração e o respeito de todos, começando por respeitar as suas livres opções profissionais“, reforça também Jaime Amante.

As “touradas cómicas” permitem a estes artistas “construir uma vida digna, criar as suas famílias, fugir ao estigma social e mudar o seu destino”, diz ainda.

“Se um cidadão por acaso tem um problema genético, deve ser discriminado no acesso a uma profissão? Mas se quiser ser actor pode ou não sê-lo? Os direitos destas pessoas são propriedade do senhor ministro ou daqueles que se dizem indignados e querem estigmatizar estes artistas e as suas livres opções?”, questiona também.

Não nos dão lições de direitos humanos, ou de inclusividade, porque são aqueles que organizam estes espectáculos que, muito antes de ser moda, praticaram a inclusão e o combate de um estigma que os novos censores modernos querem destruir”, aponta também Jaime Amante.

https://www.youtube.com/watch?v=mqZQwh0pq7o

Em 2015, tourada com anões foi cancelada

A Plataforma Basta de Touradas insiste que se trata de um “espectáculo degradante” e lembra que, em 2015, um movimento pró-tourada de Viana do Castelo cancelou uma tourada com anões depois da polémica instalada que chegou a levar o caso a tribunal.

Por outro lado, a Plataforma aponta questões burocráticas que violam a lei, notando que a publicidade ao evento “não refere a classificação etária, nem a advertência obrigatória que “o espectáculo pode ferir a susceptibilidade dos espectadores”, nem qualquer referência a licenciamento por parte da IGAC”.

“Além disso, o espetáculo tauromáquico é promovido por uma Associação de Bombeiros Voluntários, que por razões óbvias, não tem por missão nem está habilitada a promover espetáculos tauromáquicos”, vinca a mesma Plataforma, apelando à IGAC que faça “cumprir a lei”.

“Anões estão lá por livre escolha, ao contrário do touro”

As redes sociais não ficam indiferentes à polémica e a líder do PAN, Inês de Sousa Real, é uma das vozes que se insurge contra as “touradas cómicas”. “Enquanto do outro lado do Atlântico uma decisão histórica proibiu a realização de touradas na maior praça do mundo (México), por cá, na Benedita, foi autorizada pela IGAC uma tourada com anões”, lamenta no Twitter.

Há também quem fale num “espectáculo degradante” e quem aponte o dedo ao ministro da Cultura. “Touradas com touros o ministro acha bem, touradas com anões alto e pára o baile”, critica um utilizador do Twitter.

“Os anões estão lá por sua livre e pessoal escolha, ao contrário do touro”, aponta outro utilizador da mesma rede social, notando que “se calhar”, o ministro “devia-se indignar como o todo e não com uma parte, mas infelizmente não podemos contar com ele”.

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  ZAP //

5 Comments

  1. Contra a dignidade humana???? “Anões estão lá por livre escolha, ao contrário do touro”

    Eles vão lá porque querem, ninguém os obriga! O mais triste é fazer uma comparação com quem tem paralisia cerebral. Esses provavelmente não têm consciência do que estão lá a fazer, mas os anões têm tanta consciência como todos os outros!

    • Caro Sr. Fernando, informe-se antes de escrever. A paralisia cerebral não causa nenhum impedimento cognitivo, provoca limitações motoras.

      • Osório
        porque é que queres falar pelos anões, que são seres humanos com capacidade para decidirem o que querem fazer como profissionais.
        A tua verdade é melhor que a deles? Lá vêm essa tiraniazinha de que de que a tua verdade é melhor que a dos outros. É a ditadura da virtude.
        és livre de não assistir ao espetáculo mas não te podes arreigar a impor a tua vontade.

  2. Acho que o cinismo e a hipocrisia andam de mãos dadas no que respeita a touradas e outros eventos que se fazem em Portugal. Todos aqueles e aquelas que não respeitam a arte e o trabalho de pessoas com nanismo devia de ser banidas da face da terra. Todo o ser humano é livre de fazer o que bem entende desde que não prejudique o seu semelhante. Desde que apareceram estes pseudos defensores dos animais, equiparando os seus direitos, pràticamente aos mesmos dos seres humanos, aumentaram os problemas na nossa sociedade civil. Porque é que esses senhores e senhoras que não tem nada que fazer a não ser, tentarem ser visíveis, sugiro que comecem a preocupar-se com os problemas dos corruptos, ladrões de colarinho branco, problemas como do SNS que tanto transtorno causam à nossa população, greve quase selvagens dos transportes que só prejudicam os utentes que pagam os seus transportes e além de terem de arranjarem outro tipo de transporte, ainda chagam tarde ao seus empregos causando-lhes problemas com as suas entidades patronais. Isso, este cambada que nada faz a bem da sociedade só se preocupa em dar nas vistas com porcarias que nada enaltecem a sociedade. Vão trabalhar e deixem em paz que trabalha. Viva Portugal.

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