Rússia testou a sua própria Internet (e quase ninguém reparou na diferença)

Sergei Karpukhin / POOL / EPA

O presidente da Rússia, Vladimir Putin

O governo russo anunciou que o país testou, com sucesso, a sua própria rede de Internet e que a maior parte dos utilizadores nem reparou na diferença.

O chefe do Ministério das Comunicações confirmou, de acordo com a agência de notícias Pravda, que os testes decorreram conforme o planeado. “Os resultados dos exercícios demonstraram que, em geral, tanto as autoridades como os operadores estão prontos para responder eficazmente a riscos e ameaças e a assegurar o funcionamento estável da Internet e da rede de telecomunicações”, disse Alexey Sokolov.

A Rússia segue, assim, o exemplo de países como a China — em que o acesso aos serviços de muitos países estrangeiros está bloqueado — e o Irão, onde a Rede Nacional de Informação controla todo o conteúdo e limita a informação exterior.

Esta segunda-feira, a Rússia anunciou que concluiu um conjunto de testes durante os quais se desconectou com sucesso o país da Internet mundial. O Governo russo não revelou detalhes técnicos sobre os testes, adiantando apenas que testou vários cenários de desconexão, incluindo um cenário que simulava um ciberataque de um país estrangeiro.

Estes testes bem-sucedidos são o culminar de vários anos de planeamento, elaboração de leis pelo Governo russo e modificações físicas na infraestrutura de Internet local. Inicialmente, os testes foram agendados para abril deste ano, mas foram adiados até agora para dar ao Kremlin mais tempo para aprovar uma lei que os acompanha – a lei da soberania da Internet.

Esta lei concede ao Governo o poder de desconectar o país do resto da Internet com poucas explicações, apenas com base no argumento de “segurança nacional”. A lei determina que todos os provedores locais de serviços de Internet devem redirecionar o tráfego por meio de pontos de obstrução estratégicos sob a administração do Ministério das Comunicações da Rússia.

De acordo com a BBC, alguns especialistas estão preocupados com a tendência de desmantelamento da rede global da Internet.

“Infelizmente, a decisão russa é mais um passo para a destruição da Internet“, disse Alan Woodward, professor e cientista de computação na Universidade de Surrey. “Os países autoritários que querem controlar os que os cidadãos visualizam, já o fazem”, continuou, acrescentando ainda que estas medidas limitam o “acesso ao diálogo sobre o que se passa na própria nação” e que os mantém “na sua própria bolha”. A nova política pode vir mesmo a condicionar a liberdade de expressão.

Por outro lado, de acordo com um especialista em cibersegurança, os técnicos russos depararam-se com alguns problemas. “O governo russo teve alguns desafios técnicos na tentativa de aumentar o controlo online, sendo que foi incapaz de descodificar a encriptação da aplicação de mensagens Telegram”, garantiu Justin Sherman.

Ainda assim, o sucesso do teste russo pode ter implicações mundiais: outros países podem sentir-se tentados a seguir o mesmo caminho, fragmentando o acesso à Internet e acabando assim com a ideia de uma rede livre e mundial – que, desde sempre, foi o objetivo da existência da Internet.

ZAP //

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4 COMENTÁRIOS

  1. Como todos os ditadores, querem o “controlo total” de tudo.
    O problema – para esta gente – é que não há forma de controlar o pensamento nem a inteligência nem a criatividade.
    A internet recompõe-se. Será talvez mais lenta, mas só isso.
    Os radioamadores têm alternativas e mesmo que se regresse à velha tecnologia dos modems, haverá sempre forma de ligar-se a alguém que está ligado a alguém que está ligado à internet.

  2. Situação delicada de analisar.
    Quem assistiu o filme de Eduard Snowden?
    De fato os americanos controlam o mundo com a rede mundial e informações priveligiadas.
    Isto é correto?
    Putin estaria errado?

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