Médicos de família admitem que recuperados podem passar a grupo de risco

Angelo Carconi / EPA

A área das sequelas da infeção pelo vírus SARS-CoV-2 “é uma zona muito cinzenta”, sobre a qual Portugal “não tem ainda orientações totalmente definidas”.

Nuno Jacinto, presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), admite que os doentes recuperados de infeção pelo vírus SARS-CoV-2 com sequelas podem passar a ser um grupo de risco e devem ter um acompanhamento próximo.

“Estes doentes que tiveram uma infeção covid-19 e que mantêm sintomas vão, provavelmente, ter de ser considerado mais um grupo vulnerável ou de risco que temos de vigiar”, afirma, sublinhando as muitas dúvidas que ainda pairam sobre esta faceta da pandemia de covid-19.



“Não sabemos ainda o tempo ou a frequência [das queixas], mas são doentes aos quais temos de continuar a dar atenção”, frisa.

Em entrevista à Lusa, o líder dos médicos de família portugueses reconhece que a área das sequelas da infeção pelo vírus SARS-CoV-2 “é uma zona muito cinzenta“, sobre a qual Portugal “não tem ainda orientações totalmente definidas”, no que toca à forma e à periodicidade com que os doentes devem ser seguidos.

Entre os principais sintomas registados evidenciam-se cansaço, falta de ar, tosse, alterações cognitivas e, em menor grau, dores musculares e articulares.

“Estamos a ter agora o contacto com estes doentes, não eram tantos assim até há bem pouco tempo”, nota Nuno Jacinto, aludindo à dimensão que a última vaga da pandemia teve a este nível.

“O facto é que isso acontece: pessoas relativamente novas, saudáveis, sem antecedentes relevantes, e que até tiveram uma doença ligeira, mantêm queixas passado todo este tempo; e algumas até tiveram períodos de agravamento”, esclarece.

Numa fase em que começa a haver relatos de pessoas que tiveram infeção praticamente assintomática, mas com alguns sintomas a manifestarem-se muito depois de serem dadas como recuperadas, o responsável da APMGF defende que esta situação “não é tão provável”, embora lembre que “não se sabe tudo” sobre o novo coronavírus.

Questionado sobre a possibilidade de queixas em ambiente não covid de pessoas que descobrem que os atuais sintomas derivam de uma infeção não diagnosticada, Nuno Jacinto não exclui o cenário e deixa uma interrogação.

“Existe essa hipótese de o vírus provocar alguma condição que tenha impacto no futuro noutro órgão ou sistema que não só o respiratório. A grande questão é perceber como fazer a ligação a uma eventual infeção prévia“, sublinha.

Com a vacinação a acelerar no país, o presidente da APMGF entende que o “grande desafio” atualmente passa por conseguir manter os cuidados de saúde dos doentes em paralelo com este processo, assegurando o seu seguimento e dando início a “uma investigação a sério da questão do ‘longo covid’ e de qual a sintomatologia” a referenciar.

“A vacinação é prioritária, mas não podemos resolver esta questão criando um outro problema – deixar estes doentes sem acompanhamento“, observa Nuno Jacinto.

E justifica a importância de se produzir conhecimento nesta área para se ter “uma noção em Portugal de qual é a prevalência, quais os sintomas que duram mais tempo, os tratamentos que têm sido mais e menos eficazes e quais as alterações que têm aparecido mais vezes nos exames”.

Algumas unidades hospitalares já iniciaram consultas de seguimento de doentes pós-covid, num trabalho que apenas promete aumentar nos próximos meses ou mesmo anos.

Nuno Jacinto considera, por isso, indispensável uma “articulação próxima” entre os cuidados de saúde primários – que representam em muitos casos a ‘porta de entrada’ para estes doentes recuperados que mantêm queixas – e os hospitais.

“Temos de saber para quem é que devemos referenciar estes utentes, quando é que devem ser referenciados, quais os exames que devem ser feitos, entretanto, e quais os sinais de risco que nos devem alertar para uma referenciação mais rápida”, explica.

“Se houver consultas específicas para doentes pós-covid, certamente que a referenciação será por aí. Caso isso não aconteça, tem de haver circuitos definidos e é importante que trabalhemos em rede”, remata.

// Lusa

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