Reabilitação de imóveis está a aumentar o risco sísmico em Portugal

Massimo Percossi / EPA

-

O sismo de Áquila, que em 2016 provocou mais de 300 mortos, “não é nada” em comparação com o que pode acontecer em Portugal.

A Ordem dos Engenheiros (OE) alertou hoje, em Lisboa, para o aumento do risco sísmico do parque edificado em Portugal devido à atual reabilitação urbana, defendendo que é necessário criar um quadro regulamentar e um mecanismo de fiscalização.

“Hoje em dia, há uma transferência da atividade da construção nova para a reabilitação”,  afirmou Eduardo Cansado Carvalho, coordenador da especialização Estruturas da OE.

“Mas essa atividade de reabilitação, se não tiver em conta a vulnerabilidade da estrutura do edifício e a sua diminuição, em termos práticos, está a aumentar o risco sísmico no país”, afirmou, frisando que a situação “parece paradoxal, mas é real”.

O responsável da OE falava numa conferência de imprensa de antecipação do seminário “A realidade da reabilitação sísmica do parque edificado”, que vai decorrer a 08 de junho, em Lisboa.

Para Eduardo Cansado Carvalho, o problema da reabilitação sísmica “é um assunto que não é nada fácil”, pelo que “não é para resolver em cinco anos, é para resolver numa geração”.

Não podemos é aceitar que o risco sísmico esteja a aumentar”, reforçou o responsável da OE, criticando as obras de reabilitação urbana que ampliam a estrutura do edifício e as que intervêm isoladamente numa fração de um prédio.

Eduardo Cansado Carvalho defendeu que, em obras de reabilitação com expressão, devia ser “obrigatório haver uma avaliação da segurança sísmica do edifício”, propondo ”um texto regulamentar para enquadrar este problema”, uma vez que o Regime Excecional de Reabilitação Urbana (RERU), em vigor desde 2014, “incentiva a reabilitação, mas sem acautelar a questão da reabilitação sísmica”.

Uma certificação sísmica seria ideal”, sugeriu o responsável da OE, lembrando que “os sismos são inevitáveis, mas as consequências não”.

Para o chefe do Núcleo de Engenharia Sísmica e Dinâmica de Estruturas do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), Alfredo Campos Costa, a realidade da reabilitação sísmica do parque edificado “é um pouco virtual, ou seja, não existe”.

“Na reabilitação que hoje ocorre está-se a criar muita vulnerabilidade sísmica”, indicou o responsável, referindo que, “atualmente, a resistência sísmica é entendida pelas populações como um dado adquirido que não está em questão quando se vai comprar uma habitação”.

Lisboa e Vale do Tejo e a região do Algarve são os territórios com maior risco sísmico em Portugal, por terem “uma concentração de edifícios mal construídos, mal projetos”, avançou Alfredo Campos CostA.

Segundo o especialista, o sismo de Áquila, que provocou mais de 300 mortos e figura como um dos mais mortíferos dos últimos anos em Itália, “não é nada” em comparação com o que pode acontecer em Portugal.

“Em termos de risco, estamos numa situação que poderá ser muito mais grave do que estes pequenos sismos em Itália”, sustentou o responsável do LNEC, estimando que se acontecesse um sismo em Lisboa, o impacto seria “cerca de 30 a 40% de perda do Produto Interno Bruto (PIB)”.

Este alerta surge depois de, em janeiro deste ano, um especialista do IST ter dito que Lisboa está “em cima de um barril de pólvora” sísmico. Segundo Mário Lopes, se houver um sismo semelhante ao de 1755, um terço da cidade fica completamente destruída.

Também Cristina Oliveira, professora no Instituto Politécnico de Setúbal, alertou em novembro do ano passado que um sismo como o de Itália arrasaria Lisboa – e um tal sismo pode mesmo acontecer.

ZAP // Lusa

PARTILHAR

2 COMENTÁRIOS

  1. Porque é que esta notícia vem com a tag “Arquitetura”? Não deveria ser “Engenharia” ou “Construção”? Tudo bem que, etimologicamente, a palavra arquiteto vem do grego arkhitektôn que significa “o construtor principal” ou “mestre de obras”. Mas em Portugal significa “artista” ou “designer”. Parece-me desadequado…
    Quanto ao conteúdo: um sismo não é uma questão de “se”, mas sim de “quando”. Não há dúvida nenhuma que vamos ter outro sismo pelo menos semelhante ao de 1755, e a questão é apenas se vem já amanhã ou daqui a uns anos. A reabilitação, na minha opinião, obriga à reintrodução de um sistema que já tivemos no passado: a revisão e de certo modo “certificação” do projeto estrutural ao nível dos municípios. As câmaras deveriam possuir técnicos especializados para essa análise, ou delegar a entidades idóneas e acreditadas essa competência. Hoje em dia é preciso certificar o projeto de gás, de térmica, de eletricidade, de telecomunicações, e até o projeto de arquitetura é revisto a nível camarário. O projeto estrutural, inquestionavelmente o mais importante a nível da segurança das pessoas, entra como um pró-forma obrigatório e ninguém olha para ver se cumpre os requisitos essenciais.

RESPONDER

Friends: regresso da série está em negociações

De acordo com o The Hollywood Reporter, encontram-se a decorrer negociações que podem levar a uma reunião da série intemporal Friends. Este retorno seria um trunfo exclusivo da plataforma HBO Max, que ainda não foi …

NASA rebatiza Ultima Thule. Antigo nome foi associado ao nazismo

O nome do Ultima Thule deu polémica e a NASA decidiu mudá-lo. A controvérsia surgiu pelo nome dado inicialmente ao mundo gelado do Cinturão de Kuiper estar vinculado à ideologia nazi. O anúncio foi feito esta …

Vídeo mostra orcas a perseguirem tubarões-brancos na África do Sul

O tubarão-branco é visto como o maior predador dos oceanos. Mas um novo vídeo mostra que nem este animal está assim tão seguro, sendo na verdade uma presa para outras espécies. De acordo com o Science …

Descoberta a primeira vespa polinizadora da época dos dinossauros

Uma equipa de cientistas encontrou a primeira vespa polinizadora (prosphex anthophilos), que conviveu com dinossauros há cerca de 100 milhões de anos. O animal foi encontrado num fragmento de resina fossilizada em Mianmar, na Birmânia, segundo …

China está a vender drones assassinos ao Médio Oriente

A China está a vender drones capazes de matar automaticamente, sem necessidade de controlo humano. Os seus principais clientes serão a Arábia Saudita e o Paquistão. Segundo o site Defense One, uma empresa chamada Ziyan está …

Aumento da temperatura pode vir a matar 1,5 milhões de indianos por ano

Se as emissões globais de gases de efeito de estufa não forem interrompidas, cerca de 1,5 milhões de indianos podem vir a morrer anualmente até 2100 devido ao aumento das temperaturas. Os números contam de …

O vencedor do Tour de France, Egan Bernal, pode ter beneficiado de uma vantagem genética

O ponto de viragem da Tour de France deste verão ocorreu no alto de uma montanha nos Alpes franceses. Foi o resultado de anos de treinamento e, de acordo com um estudo divulgado na segunda-feira, …

Mina Chang utilizou uma capa falsa da Time no CV e conseguiu chegar ao Governo de Trump

Mina Chang, vice-secretária adjunta do Gabinete de Operações de Conflitos e Estabilização do Departamento de Estado dos Estados Unidos, mentiu no seu currículo para conseguir alcançar um lugar no Governo de Donald Trump. De acordo com …

Jovem norueguesa controla 450 perfis no Instagram para tentar evitar suicídios

Uma norueguesa de 22 controla 450 perfis privados no Instagram para tentar evitar suicídios, conta a emissora britânica BBC, revelando ainda que a jovem recebeu já o apelido de "salva-vidas" devido ao trabalho que leva …

Espanha vai tentar exumar 31 corpos que se encontram no Vale dos Caídos

As autoridades espanholas vão tentar exumar 31 dos milhares de corpos de pessoas enterradas no Vale dos Caídos, um grande mausoléu onde esteve enterrado o ditador Francisco Franco até ao mês passado. Segundo a agência Associated …