Que vai Putin tirar da cartola para não ser “comido vivo”? “Liquidar a Moldova” pode ser nova cartada

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Alexei Danichev / Kremlin / EPA

A aproximação do Dia da Vitória que a Rússia assinala a 9 de Maio próximo, faz aumentar os receios de uma nova escalada na guerra na Ucrânia. Os estilhaços do conflito podem chegar à região moldova da Gagaúzia que pode ser decisiva para um pequeno, mas decisivo “triunfo”, para salvar a pele de Putin.

Na próxima segunda-feira, 9 de Maio, a Rússia assinala o Dia da Vitória, celebrando o triunfo sobre os nazis na II Guerra Mundial, com a habitual parada militar. É um momento de patriotismo, mas também de propaganda, onde os russos exibem, para o mundo ver, o seu potencial em termos de armamento.

Contudo, neste ano, há grande expectativa para o evento, à luz da guerra que decorre na Ucrânia. E os especialistas acreditam que o presidente russo, Vladimir Putin, vai querer assinalar o Dia da Vitória de forma marcante – só falta saber como o fará.

Há especialistas que acreditam que Putin pode, finalmente, declarar guerra à Ucrânia. A Rússia tem insistido que se trata apenas de uma “operação militar especial”.

O anúncio de guerra poderia levar à mobilização total das forças russas e até à convocatória dos reservistas do exército para reforçar as fileiras na Ucrânia. Falta saber que efeito isso teria nas famílias russas que já viram morrer cerca de 20 mil soldados na Ucrânia – em comparação, morreram cerca de 5 mil russos nos 10 anos de guerra no Afeganistão.

Os serviços secretos da Ucrânia acreditam que a Rússia pode estar a preparar “uma mobilização mais ampla” em termos militares, segundo o Politico. Putin poderá, assim, querer marcar o dia com algo maior, até para dar ao mundo o que pensar, como disse aquando do lançamento de um novo míssil supersónico.

Nos últimos dias, a televisão russa tem subido o tom na forma como fala do conflito na Ucrânia, colocando a Rússia numa luta contra o resto do mundo, especialmente contra os “inimigos” da NATO, com referências mais recorrentes ao uso de armas nucleares.

Também há a ideia de que a parada militar do Dia da Vitória pode incluir a exibição de ucranianos capturados no que seria uma “cópia” do que Estaline fez, em 1944, para fúria de Adolf Hitler quando fez “desfilar cerca de 57 mil prisioneiros de guerra alemães pela capital russa”, nota o Politico.

Gagaúzia pode ser decisiva para Putin não ser “comido vivo”

Entretanto, com a guerra a arrastar-se no terreno, face à forte resistência ucraniana, Putin tem pouco o que mostrar aos russos em termos de triunfos no terreno, tirando as conquistas das cidades de Mariupol e Kherson.

Assim, a Rússia pode virar-se para o país vizinho da Ucrânia, a Moldova, aproveitando as regiões pró-russas da Transnístria e da Gagaúzia para fortalecer as suas intenções no terreno.

Nesta sexta-feira, a Transnístria, que tem um Governo próprio, pediu o reconhecimento internacional da sua independência. E agora, especula-se que a Gagaúzia, outra região independentista da Moldova com apenas 135 mil habitantes, pode fazer o mesmo.

“Se a Rússia reconhecer a Gagaúzia como um Estado independente, juntamente com a Transnístria, poderemos estar perante o desaparecimento da Moldova“, acredita o especialista em questões étnicas e religiosas na Eurásia, Paul Goble que é vice-reitor da Universidade de Tartu, na Estónia.

Em declarações ao Público, Goble nota que essa pode ser a “nova cartada da Rússia”. Contudo, este especialista duvida que “a Rússia esteja pronta para colocar tropas na Gagaúzia como estará, certamente, para o fazer na Transnístria”.

Moscovo está impedido de ir mais longe para não provocar uma amálgama das tropas da Moldova na Roménia, colocando um país da NATO contra as forças russas”, salienta ainda Goble.

A Gagaúzia pode ser decisiva na tomada de Odessa, além de ajudar as operações militares no terreno. Mas também pode ser um trampolim para a queda do Governo da Moldova.

O professor catedrático na Nova School of Law, Armando Marques Guedes, confessa ao Público que receia que a presidente da Moldova, Maia Sandu, pode acabar por ser assassinada, com o intuito de colocar no poder um “Governo fantoche”.

Este cenário daria à Rússia “uma vitória parcial, por mais fraca e simbólica que possa ser”, “caso contrário matariam Putin”, entende Marques Guedes. “Ele precisa desta vitória. Senão é comido vivo. Aqui, quem perde paga”, constata o professor.

Marques Guedes acredita que “a Rússia quer controlar todo o Mar Negro”. “Assim, por meio de uma cooperação entre os gagaúzes, os transnistrianos e os moldavos pró-russos (que também existem), dar-se-ia a liquidação da Moldova e a abertura de uma nova frente de ataque a Odessa. Este corte de acesso ao Mar Negro por parte da Ucrânia, associado à tomada do sul do país, cercaria Odessa por todos os lados, facilitando os objectivos de Putin”, nota o professor.

Depois disso, o próximo alvo de Putin será a Geórgia na “busca da antiga União Soviética”, aponta ainda Marques Guedes.

Guterres vai à Moldova na próxima semana

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, visita a Moldova no início da próxima semana numa acção de “solidariedade e gratidão” pela forma como acolheu quase meio milhão de refugiados ucranianos.

Esta viagem de António Guterres coincide com o 30.º aniversário da entrada da República da Moldova como membro das Nações Unidas. Guterres visitará um campo de refugiados construído com o apoio de agências da ONU.

O diplomata português esteve, na semana passada, em Moscovo e em Kiev, onde conversou com Putin e com o presidente da Ucrânia, Volodomyr Zelenskyy, num esforço para acabar com a guerra.

Esse esforço levou a três momentos de retirada de meio milhar de civis ucranianos que se encontravam cercados pelas forças russas na cidade portuária de Mariupol, no sudeste da Ucrânia.

  ZAP // Lusa

6 Comments

    • Caso pior é a teimosa insistência no erro grosseiro “Transnítria”, já propagado por vários artigos. O nome é Transnístria, com “s” antes do “t”. O nome designa as terras para lá do (rio) Dniestre e deriva do nome deste. O “D” de Dniestre caiu na construção do nome, mas o “s” não.
      O rio é Dniestre, não é “Dnietre”…
      Este erro está a contaminar diversos orgãos de comunicação social, TV incluída, e comentadores como Paulo Portas incluído…
      Este erro é tão desagradável como seria, em Português, designar o Alentejo (que é Além do Tejo) por, sei lá, “Alenteijo”, destruíndo assim o elemento de origem da palavra, que é o nome do rio (Tejo).

      • Por acaso nessa não tinha reparado – sempre me pareceu Transnístria…
        Obrigado pelo esclarecimento.

        Chegar a 2022 e começar a ouvir Molvoda é que é muito estranho…

  1. Este gajo está com os copos. Deve-lhe ter aterrado a senilidade com a idade e ele ainda não deu por isso. De repente viajou para o passado para os tempos da guerra fria. Não reparou que o muro já caiu há muito tempo.

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