“O primeiro passo para salvar o planeta é eleger outro presidente dos EUA”

Kenneth C. Zirkel / Wikimedia

O secretário de Estado norte-americano, John Kerry

John Kerry esteve em Lisboa para o encerramento da conferência “O Futuro do Planeta”. O ex-secretário de Estado de Barack Obama lembrou que na luta para salvar a Terra, “não estamos a ganhar”.

John Kerry começou por lembrar que Portugal é o sítio ideal para discutir o Futuro do Planeta e a proteção dos oceanos. O ex-secretário de Estado norte-americano sabe do que fala e logo refere a mulher, Theresa, nascida em Moçambique “quando ainda era uma colónia portuguesa”, e que tem no português a sua língua materna. Ele próprio não se arrisca, optando por um cauteloso inglês para falar da “geração azul”, esses jovens que “começam a perceber a urgência de salvar o planeta melhor do que os políticos”.

John Kerry e a bióloga e exploradora subaquática Sylvia Earle são os protagonistas do painel que encerra a conferência O Futuro do Planeta, organizada em Lisboa pela Fundação Francisco Manuel dos Santos e pela Fundação Oceano Azul.

“É muito apropriado ter esta conversa em Lisboa. Porque não podemos imaginar o Portugal de Fernando Pessoa sem os Açores ou o Algarve. E porque Lisboa olha de frente para o mar”, afirmou o chefe da diplomacia do democrata Barack Obama diante de um auditório do Teatro Camões cheio.

Lembrando figuras como Vasco da Gama, Kerry recordou a ligação dos portugueses ao mar e a forma “visceral” como vivem as consequências das alterações climáticas que o estão a matar o planeta. “É preciso garantir que a próxima geração pode contar com os oceanos. Melhor do que nós que os dávamos por adquiridos. Estamos aqui juntos porque estamos juntos nesta luta”. “É o combate das nossas vidas! Se não é o vosso, passa-se algo de errado convosco!”, exclamou, citado pelo Diário de Notícias.

Aos 75 anos, o homem que em 2004 perdeu as presidenciais para George W. Bush admite que “os políticos não estão preocupados”. Kerry deu mesmo o exemplo dos EUA: “O meu presidente, ou devia antes dizer o presidente dos EUA, diz que as alterações climáticas são apenas um embuste chinês“. “Não estamos a ganhar. Não estamos a cumprir o nosso dever. Por isso um bando de miúdos saiu da escola para nos dizer que temos de fazer”.

O “bando de miúdos” refere-se ao movimento de jovens começado na Suécia por Greta Thunberg, uma adolescente com 16 anos, mas que alastrou a todo o mundo. A própria Greta está neste momento nos EUA para participar numa conferência da ONU sobre ambiente. E ainda este fim de semana se juntou a jovens americanos para um protesto frente à Casa Branca.

Para Kerry, é claro que não podemos dizer que estamos a ganhar esta batalha pelo futuro do planeta. Pelo menos “quando há disputas marítimas que deixar milhares de milhas sem leis. Quando os mares são palco de pirataria, de narcotráfico. Não podemos dizer que estamos a ganhar quando os corais estão a morrer. Quando a população de peixes está a decair.” “Os danos atingiram níveis em que se não mudarmos o nosso comportamento em meados deste século haverá mais plástico no mundo do que peixe”.

“Se não mudarmos o nosso comportamento em meados deste século haverá mais plástico no mundo do que peixe”.

“A triste verdade é que não estamos a ganhar. Não há um único país a fazer aquilo a que se comprometeu em Paris”, disse John Kerry.

Por exemplo, disse, na cimeira do clima em que quase 200 países se comprometeram a limitar o aquecimento global, estabeleceu-se um fundo verde que receberia 100 mil milhões de dólares (90,2 mil milhões de euros). “Sabem quanto é que lá está? Menos de cinco mil milhões de euros. Como é que podemos dizer a alguém que levamos isto a sério? Ainda não estamos a levá-lo a sério”, disse.

Kerry afirmou que “é crítico elevar o esforço e forçar o sistema a responder”, lembrando o movimento cívico que levou à primeira criação de legislação ambiental significativa nos EUA no princípio da década de 1970 e defendendo que é preciso “chamar os políticos à responsabilidade” e travar a exploração e contaminação dos oceanos.

Isto não diz respeito só aos peixes e às tartarugas. Diz respeito a nós, porque 51 por cento do oxigénio que respiramos vem do oceano. Eu aprendi isto no liceu e é importante termos Presidentes de nações e líderes que compreendem e acreditam na ciência”, salientou.

John Kerry lembrou que, em 2015, os signatários do acordo, mesmo “os relutantes, que tinham que ser arrastados para a mesa das negociações”, disseram que iam aplicar capital nas energias renováveis e que “isso aconteceu…no primeiro ano”, com “358 mil milhões de dólares investidos, que pela primeira vez na história humana foi mais do que se investiu nos combustíveis fósseis”.

Apesar deste discurso, Kerry garante que está otimista. “O que temos de fazer é decidir que vamos responsabilizar os políticos. Temos de juntar as pessoas e votar pelo futuro”.

Com eleições presidenciais marcadas para novembro nos EUA, o democrata não hesita em garantir que “o primeiro passo para resolver os problemas é eleger um novo presidente dos EUA! É preciso ir votar. Todos os candidatos democratas têm programas para o ambiente”.

“Quando Trump diz que os jornais mentem, isto é Orwell”

O escritor norte-americano de viagens Paul Theroux disse, este sábado em Lisboa, que a eleição de Donald Trump representa a materialização da forma de pensamento profetizada por George Orwell no célebre livro distópico 1984.

Para o escritor, conhecido pelos livros em que relata as suas viagens à volta do mundo, a única forma de antecipar o futuro é compreender o presente. “O 1984 é sobre o futuro. Orwell escreveu-o em 1948, quando percebeu que os totalitarismos estavam a dominar o mundo. Aconteceu? Não, mas aconteceu uma forma de pensamento“, afirmou Paul Theroux, elogiando a forma como o escritor britânico George Orwell entendeu o presente do seu tempo e antecipou muitos aspetos do que viria a ser o futuro.

Recordando as suas viagens, Paul Theroux explicou que as grandes mudanças no mundo aconteceram sem que nada o fizesse prever. E deu exemplos: da queda do muro de Berlim ao desaparecimento de espécies de aves nas ilhas Salomão (provocadas pelo consumo excessivo dos ovos por parte dos humanos), do desenvolvimento económico da China ao 11 de setembro. “O que nunca ninguém tinha previsto era que Nova Iorque fosse atacada, e aconteceu. Quem teria pensado nisso?”, questionou.

Paul Theroux enfatizou ainda a necessidade de viajar para compreender o mundo — mas não “na passadeira vermelha”, como considerou. “Uma vez fui do Cairo até à Cidade do Cabo sempre por terra. Não conheci nenhuma pessoa importante, mas conheci muitas pessoas”, disse o escritor, assinalando que é “muito mais importante ver o mundo como ele é”.

Dizem que as viagens de luxo são maravilhosas. São maravilhosas, mas não nos mostram nada. Podemos ir a um safari em África, mas quem vive numa pequena vila em África sabe muito mais sobre o futuro de África”, disse Paul Theroux.

Foi aqui que o escritor norte-americano aproveitou para lançar uma farpa ao presidente dos Estados Unidos, deixando a questão: “Quem é a melhor pessoa para dizer se devemos ir para a guerra? Um soldado. Donald Trump nunca foi soldado, Dick Cheney nunca foi soldado”. Theroux desafiou a plateia a questionar o antigo secretário de Estado norte-americano John Kerry, que fala na conferência este domingo, sobre a sua opinião relativamente à guerra.

“Vão ver que ele terá uma opinião diferente. Sabem porquê? Porque ele foi um soldado, esteve no Vietname, sabe o que é a guerra”, disse Paul Theroux, rematando: “Se estamos convencidos de que sabemos o que vai ser o futuro, isso pode ser um problema”.

ZAP // Lusa

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