Portugal tem mais casos e mortes por covid-19 do que há um ano. Mas há mais variáveis a considerar

Especialistas consideram que a estratégia dos próximos meses deve priorizar a vacinação dos grupo etários mais velhos, onde a mortalidade é mais elevada, e dos indivíduos que não fizeram dose de reforço por motivo de infeção. 

Há um ano, os números de casos de infeção por covid-19 eram mais baixos do que os registados em abril de 2022. Simultaneamente, também as mortes sofreram uma subida, sendo estes dois fatores que deixam especialistas em alerta, sobretudo numa altura em que muitas das restrições que vigoraram durante a fase mais dura da pandemia já caíram e que a variante BA.5 está em tendência crescente. Mesmo assim, a eficácia das vacinas ainda vigora e não é questionada pelos especialistas.

Uma análise aos números do ano passado permite perceber que em abril o país ainda recuperava da vaga provocada pelo natal de 2020 e atravessava um lento desconfinamento caracterizado por uma descida expressiva de casos. De facto, a maioria dos estabelecimentos comerciais, como restaurantes, confeitarias e cafés só passaram a funcionar na plenitude em maio. A Páscoa, que este ano decorreu com normalidade, no ano passado ainda foi vivida com restrições de circulação entre concelhos. Outro elemento a considerar é do teletrabalho, que este ano já não é dominante.

No que respeita a números concretos, a média diária de casos em abril de 2020 foi de 573 e morreram 117 pessoas durante todo o mês. Já este ano, entre 29 de março a 25 de abril deste ano, o site da Direção Geral da Saúde aponta para uma média de 8.527 casos por dia, com um total de 548 óbitos (valor a 28 dias). À primeira vista, o cenário é mais negro, mas é importante considerar-se que atualmente mais de 92% da população portuguesa está vacinada – mas apenas 58% tem a dose de reforço. Para este número baixo contribuíram as infeções do final do último ano e início do atual, quando se registaram recordes de casos.

A situação hospitalar é, ainda assim, controlada, com algumas varações nas hospitalizações, mas uma descida nos cuidados intensivos. Gustavo Tato Borges, presidente da Associação de Médicos de Saúde Pública, explicou à CNN que “este nível de mortalidade deverá manter-se estável nas próximas semanas”. No entanto, é importante não confundir este conceito com o de letalidade. Segundo a mesma fonte, em abril do ano passado a taxa de letalidade estava nos 0,6% e em abril deste ano fixou-se nos 0,2%.

De acordo com a Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa, “a taxa de letalidade (…) dá uma ideia da gravidade da doença, uma vez que nos indica a percentagem de mortes causadas especificamente por essa doença (mortalidade específica)”. Miguel Castanho, professor catedrático da Faculdade de Medicina de Lisboa e investigador no Instituto de Medicina Molecular (IMM) explica que tal indica “que, neste momento, a mortalidade não reflete a evolução da situação na globalidade, na generalidade, e deve-se a fatores que serão mais relacionados com um grupo mais fragilizado”.

Gustavo Tato Borges sublinha que “temos mais infetados, mas temos apenas cinco vezes mais óbitos, e é este jogo de números que, juntamente com a proteção com a vacina e medidas prevenção e esta variante que é mais ligeira, faz com que tenhamos uma menor letalidade, mortos por total de doentes de covid”. Ressalva, ainda assim, que é errônea a ideia de que estamos numa fase “menos perigosa” da pandemia.

Para definir a estratégia dos próximos meses, é importante atentar nas idades das vítimas, apontam os especialistas. Segundo Gustavo Tato Borges, “estão a morrer as pessoas com 75 anos ou mais, é o grosso das mortalidade, mas há um desconsiderar destas mortes“. O investigador especifica ainda que as mortes que estão a ocorrer são de pessoas não vacinadas, daí que “a não vacinação tem a sua quota parte neste número de mortes, o que nos deveria levar a tomar medidas”.

Outro dos especialistas ouvidos pela CNN, Henrique Oliveira, estima que nos próximos dias Portugal chegue aos 15 mil casos por dia, mas recusa cenários de catástrofe. A chave parece ser mesmo a vacinação, quer no que respeita à administração das quartas doses para mais de 80 anos, quando o Inverno se aproximar, ou nas doses de reforço para os cidadãos que foram infetados no início do ano.

“A vacinação dos que foram infetados recentemente é importante, mas para evitar que eles venham a desenvolver nova doença e que ela possa ser grave. Como eles estiveram infetados, estiveram mais protegidos para esta doença até agora. Vacinar vai ajudar a minimizar a probabilidade de voltarem a ser infetados e assim minimizar o risco de continuar a haver uma propagação da doença de forma intensa”.

  ZAP //

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