Pacientes com Covid-19 dados como curados voltam a dar positivo e preocupam médicos

Andrea Fasani / EPA

Há relatos de pacientes com Covid-19 que tiveram alta hospitalar, dados como curados da doença provocada pelo novo coronavírus, mas que, passados alguns dias, voltaram a dar positivo para o vírus. A situação está a gerar preocupação, com dúvidas se as altas foram precipitadas por erros nos testes ou se tudo se deve à mutação do vírus.

Só na China já foram reportados mais de 100 casos de aparentes “reinfecções” do Covid-19 em pessoas dadas como curadas, após uma primeira infecção. Mas também há alguns casos reportados no Japão e na Coreia do Sul.

Na província chinesa de Guangdong, que faz fronteira com Hong Kong e Macau, as autoridades oficiais chegaram a anunciar que 14% dos pacientes declarados curados voltaram a testar positivo, como reporta o Los Angeles Times (LAT).

Os dados oficias são uma incógnita, tanto mais tratando-se do ultra-secreto regime chinês, mas a possibilidade de haver “reinfecções” em pacientes dados como curados está a gerar preocupação na comunidade médica.

Há especialistas que acreditam que tudo pode dever-se a erros nos testes médicos que dão indicação de alta, tratando-se, portanto, de falsos negativos. Até porque a China revelou alguns problemas nos exames de diagnóstico do coronavírus.

Por outro lado, os médicos chineses estarão a ser pressionados para darem alta a pacientes que apresentam melhorias, para libertarem espaço para outros doentes. Haverá casos em que os médicos dão alta a pacientes ainda com sintomas da doença, nomeadamente problemas pulmonares e respiratórios, para poder tratar e salvar outras pessoas, como aponta o LAT.

Para o médico Keiji Fukuda, director da Escola de Saúde Pública da Universidade de Hong Kong, a reinfecção seria “bastante inusual a não ser que o sistema imunitário [dos pacientes afectados] esteja a funcionar mal”, explica ao LAT.

Fukuda acredita que estes possíveis “reinfectados” podem estar a ter alta mais cedo do que o devido, transportando ainda no organismo “fragmentos inactivos da doença que não são infecciosos”. “O teste pode ser positivo, mas a infecção não está lá”, constata.

Já o director de Investigação Clínica do Instituto Nacional dos EUA para as Doenças Infecciosas e as Alergias, Clifford Lane, avança ao LAT a possibilidade de as cargas do vírus terem “descido abaixo do limiar” que é detectado nos testes e de terem depois reaparecido, no seguimento da alta hospitalar. Este profissional esteve na China em Fevereiro e, nessa altura, teve a garantia dos especialistas do país de que não havia pacientes “reinfectados”.

Possível mutação do vírus seria uma ameaça

A possibilidade de uma reinfecção é preocupante porque pode significar que há um processo de mutação do vírus que lhe permite escapar aos anti-corpos dos pacientes curados com a primeira infecção. Esse cenário complicaria a descoberta de uma vacina contra o vírus, além de dificultar o processo de tratamento e controle da pandemia.

Um artigo do jornal Forbes levanta a hipótese de o nosso sistema imunitário não ser capaz de “elaborar consistentemente uma protecção suficiente” contra o Covid-19, lembrando um estudo realizado, em 2007, em torno do outro coronavírus que abalou o mundo entre 2002 e 2003, o SARS. A pesquisa concluiu que a imunidade a este vírus em particular só se prolonga durante dois a três anos e que, após esse período, as reinfecções são possíveis.

O estudo não é conclusivo porque para confirmar os resultados seria preciso infectar pessoas com o SARS para tirar ilações mais taxativas. Admite-se, assim, que as reinfecções podem ter a ver com mutações do vírus, o que levaria o sistema imunitário a não o reconhecer e, portanto, a não conseguir combatê-lo.

Será que no caso do Covid-19 poderemos também estar perante uma mutação do vírus, nestes casos de “reinfecções”? Se for assim, será particularmente preocupante, pelo facto de a mutação ter ocorrido de forma tão imediata. E seria um dado aterrador e uma séria ameaça ao combate à pandemia, nomeadamente para o Reino Unido cuja estratégia passa por deixar que a larga maioria da população fique infectada, para que ganhe “imunidade de grupo”.

Pelo sim pelo não, e uma vez que ainda se sabe muito pouco sobre este novo coronavírus, o director da Organização Mundial de Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, já anunciou que os pacientes curados devem continuar o seu isolamento por, pelo menos, 15 dias, após terem alta hospitalar ou depois de deixarem de ter sintomas. Até porque ainda poderão infectar outras pessoas, segundo o responsável da OMS.

Numa conferência de imprensa em Genebra, na Suíça, Ghebreyesus lembra que, nesta altura, o número de casos de infectados fora da China (83 mil) já ultrapassa os que se verificaram no país (81 mil) onde o vírus teve origem.

SV, ZAP //

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