Norte “industrializado” concentra mais casos. Trabalho e tradições familiares podem explicar aumento

Mário Cruz / Lusa

As zonas urbanas densas, o tecido industrial de volta a uma atividade intensa e a tradição de reuniões familiares pode explicar o aumento de casos de infeção na região Norte do país.

Nas últimas semanas, o vírus parece estar a atingir com mais intensidade as zonas mais industrializadas do Norte. Não há uma explicação para esta incidência, mas o geógrafo João Ferrão, do Instituo de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, não se mostra surpreendido devido às “características estruturais do país”.

O Noroeste é, de novo, a zona com mais casos de infeção por covid-19, depois da acalmia durante o período de confinamento e o verão. O especialista aponta, citado pelo Público, que tal pode ser explicado pelas características de municípios muito industrializados e com muitas interligações, em que está “tudo misturado”.

“Voltamos de novo a perceber a grande diferença entre o que é a região urbano-industrial do Noroeste e a Área Metropolitana de Lisboa, em que o peso da administração pública e das empresas de serviços é muitíssimo grande e a questão do teletrabalho continua com uma incidência muito forte. Aqui, em muitos casos, o regresso ao trabalho não foi o regresso ao local de trabalho. É essa realidade que está outra vez a vir ao de cima”, diz.

O facto de as fábricas não terem praticamente parado não entra em conflito com esta visão, já que houve uma redução da atividade e muitas empresas recorreram ao lay-off, o que diminui a pressão dos contactos em muitos locais.

No entanto, João Ferrão ressalva que a disseminação da covid-19 não é mono-casual. “O peso relativo de cada causa vai mudando, e as mais conhecidas estão mais controladas, mas elas coexistem.”

Eduardo Vítor Rodrigues, presidente do Conselho Metropolitano do Porto, corrobora esta visão e considera que o “aumento de casos tem uma origem multidimensional“.

O também presidente da Câmara de Vila Nova de Gaia realça ainda o incumprimento das regras: seja por as empresas e a administração não estarem a aplicar o desfasamento de horários (contribuindo para transportes públicos menos cheios), seja pelos ajuntamentos de jovens estudantes.

O médico de Saúde Pública Bernardo Gomes sublinha ainda que pode haver uma “exaustão e uma resistência às medidas de saúde pública”.

Estarão a ser cumpridas todas as medidas previstas, nesta zona com um tecido industrial mais rico do Noroeste, com trabalho presencial? Houve um reacender de um conjunto de atividades relacionadas com uma maior tradição de agregação familiar ou de participação em eventos de caráter religioso? “São essas perguntas que têm de ser colocadas”, afirma.

Esta quarta-feira, António Costa esteve reunido com os autarcas de Felgueiras, Lousada e Paços de Ferreira, os municípios com maior crescimento de casos que estão a exercer grande pressão sobre o Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa (CHTS), em Penafiel.

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