Nadia Murad dedica Nobel da Paz a vítimas de violência sexual

Franziska Kraufmann / EPA

A ativista dos direitos humanos yazidi Nadia Murad

A iraquiana yazidi Nadia Murad agradeceu esta sexta-feira por ter recebido o Nobel da Paz, em mensagem na qual manifestou o desejo de dividir o prémio com todas as minorias perseguidas e as vítimas de violência sexual do mundo todo.

O Comité Nobel Norueguês atribuiu esta sexta-feira o prémio Nobel da Paz à activista yazidi Nadia Murad e ao ginecologista e cirurgião congolês Denis Mukwege, que trabalha há anos na recuperação física e psicológica de mulheres estupradas durante os conflitos armados.

Estou incrivelmente honrada e grata por este apoio e divido este prémio com os yazidis, iraquianos, curdos e outras minorias perseguidas, bem como com as incontáveis vítimas de violência sexual no mundo todo“, disse a activista yazidi numa mensagem publicado no seu site.



No caso da iraquiana, o comité avaliou a sua condição de vítima e o seu activismo na denúncia dos abusos sofridos pelos yazidis por parte do grupo jihadista Estado Islâmico, que em 2014 deu início ao massacre de milhares de membros desta minoria religiosa curdo-iraquiana e escravizou para sua exploração sexual mais de 3000 meninas e mulheres.

Como sobrevivente, estou agradecida por esta oportunidade de chamar a atenção mundial sobre a situação do povo yazidi, que sofreu inimagináveis crimes desde que começou o genocídio do Estado Islâmico, em 2014″, afirmou Nadia, que durante três meses foi escrava sexual dos terroristas antes de conseguir fugir.

A ativista destacou que muitos yazidis poderão agora olhar para o prémio que recebeu e recordar os familiares que perderam e as 1.300 mulheres e crianças que ainda continuam em cativeiro. “No meu caso, penso na minha mãe, que foi assassinada pelo EI, nas crianças com as quais cresci e que devemos honrar”.

“A perseguição às minorias deve acabar”, disse a activista. Nesse sentido, a vencedora do Nobel pediu determinação para demonstrar que as campanhas genocidas “só fracassaram e levaram os seus responsáveis à Justiça”.

Nadia reivindicou também o compromisso para reconstruir as comunidades devastadas pelo genocídio e ressaltou a necessidade de ajudar as vítimas acima de divisões culturais e políticas.

“Devemos não só imaginar um futuro melhor para mulheres, crianças e minorias perseguidas, devemos trabalhar de forma consistente para fazer isso acontecer, dar prioridade à humanidade, não à guerra”, afirmou a jovem de 25 anos, que também aproveitou a ocasião para congratular o outro premiado com o Nobel da Paz deste ano, o cirurgião congolês Denis Mukwege, um homem que ela “admira enormemente”.

De escrava de jihadistas a Nobel da Paz

Nadia Murad, com 25 anos, sobreviveu à tortura e escravidão sexual pelo Estado Islâmico e é hoje uma porta-voz do seu povo, os yazidis iraquianos. Esta sexta-feira, viu ser-lhe atribuído o Prémio Nobel da Paz.

Uma jovem com um rosto magro e pálido emoldurado por longos cabelos castanhos, Nadia Murad poderia ter passado dias tranquilos na sua aldeia de Kosho, perto do bastião yazidi de Sinjar, no norte do Iraque, uma área montanhosa junto à fronteiras  com a Síria.

Mas o avanço dos grupos ‘jihadistas’ do Estado Islâmico (EI), em 2014, decidiu o contrário. Em agosto desse ano, combatentes do EI irromperam pela localidade, mataram os homens, transformaram os mais jovens em crianças-soldado e sentenciaram milhares de mulheres ao trabalho forçado e à escravidão sexual.

Ainda hoje, Nadia Murad – tal como a sua amiga Lamiya Haji Bachar, com quem em 2016 ganhou o Prémio Sakharov do Parlamento Europeu, continua a repetir que mais de 3.000 yazidies ainda estão desaparecidos, provavelmente ainda em cativeiro.

Os ‘jihadistas’ queriam “ter a nossa honra, mas perderam a sua honra”, disse aos eurodeputados, quando foi nomeada “embaixadora da ONU para a dignidade das vítimas do tráfico de seres humanos”.

Nadia Murad viveu este tráfico na primeira pessoa, conduzida à força para Mossul, então a “capital” iraquiana do autoproclamado “califado” do EI – e que há cerca de um ano foi recuperada pelas forças iraquianas. Foi torturada, vítima de violação coletiva, vendida e revendida em mercados ‘jihadistas’ de escravos e forçada a negar a sua religião.

Para os combatentes do EI, que têm uma interpretação ultra rigorosa do islão, os yazidis são hereges. Como milhares de outras yazidies, Nadia Murad foi “casada” à força com um ‘jihadista’ que a espancou, disse ela num discurso perante o Conselho de Segurança da ONU, em Nova Iorque.

Incapaz de suportar tanta violação e violência“, nas suas próprias palavras, conseguiu fugir com a ajuda de uma família muçulmana de Mossul. Com documentos de identidade falsos, conseguiu chegar a um campo de refugiados no Curdistão iraquiano, a poucas dezenas de quilómetros a leste de Mossul.

Aí, depois de saber da morte de seis de seus irmãos e da sua mãe, contactou uma organização de ajuda a yazidis para encontrar uma irmã na Alemanha. Neste país, onde ainda vive, despertou para a militância e tornou-se na porta-voz do seu povo, que tinha 550 mil membros no Iraque, antes de 2014. Hoje, quase 100.000 deles deixaram o país e outros estão deslocados no Curdistão.

Murad tem como objetivo que a comunidade internacional reconheça as perseguições cometidas em 2014 como um genocídio, contando com a ajuda da advogada e ativista de direitos humanos libanesa-britânica Amal Clooney.

Há um ano, após o seu apelo, o Conselho de Segurança da ONU prometeu ajudar o Iraque a reunir as provas dos crimes cometidos contra os yazidis.

ZAP // EFE / Lusa

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