Vêm aí mudanças no ensino da Matemática. Novos métodos de avaliação, menos contas em pé e mais cálculo mental

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Está a ser preparada uma reforma no Ensino Básico da Matemática em Portugal. O grupo de trabalho constituído pelo Ministério da Educação para discutir as mudanças já apresentou uma proposta que sugere novos métodos de avaliação e uma maior aposta no cálculo mental em detrimento das contas em pé no papel.

A revisão curricular da Matemática no Ensino Básico, ou seja, dos 1º ao 9º anos de escolaridade, deverá levar também a mudanças na forma de avaliar os alunos, bem como nos manuais e até na formação de professores.

As propostas do grupo de trabalho do Ministério da Educação, coordenado por Ana Paula Canavarro, podem ser disruptivas relativamente ao actual ensino da Matemática.

Assim, sugere-se que seja privilegiada a “avaliação formativa”, dando menos ênfase aos testes e considerando também outros instrumentos de análise.

A ideia é diversificar os “instrumentos de avaliação” que podem ser “na forma escrita, individual e em tempo limitado”, “uma questão de aula ou um teste”, mas também uma “tarefa, em tempo alargado”, como cita o Público que teve acesso aos documentos do grupo de trabalho.

Mas também se considera que é “imprescindível discutir e negociar com os alunos os critérios de avaliação para cada tipologia de aprendizagens ou de tarefas a realizar”, cita ainda o mesmo jornal.

“Cálculo mais importante é o mental e com calculadora”

A coordenadora do grupo de trabalho explica ao Público que as mudanças a alinhavar visam “educar para o presente e futuro e não para o passado dos pais”.

Ana Paula Canavarro sublinha que é preciso ensinar os alunos a compreenderem a Matemática para analisarem o mundo que os rodeia de “forma mais crítica, mais criativa”.

Assim, um dos aspectos da proposta passa por colocar o foco no cálculo mental, retirando as contas em pé no papel do programa nos dois primeiros anos do Ensino Básico.

“A criança deve usar o papel para apoiar o seu raciocínio mental”, frisa Ana Paula Canavarro ao Público, notando que se pretende valorizar “o cálculo mental baseado na compreensão dos números e raciocinando sobre eles”.

“O cálculo sempre foi um ponto forte da Matemática, mas hoje temos de olhar para ele sem ignorar que todos temos no bolso uma calculadora“, acrescenta, notando que é preciso “valorizar o cálculo útil que pode ser mobilizado nas situações concretas” do dia-a-dia.

“O cálculo mais importante é o cálculo mental e o cálculo com calculadora” e a escola deve ensinar a “fazer os dois bem”, constata. Já as contas em pé “eram muito importantes antes das calculadoras, mas hoje em dia temos de admitir que já não são”. “Quantos de nós usam este tipo de cálculo na sua vida?”, questiona.

Da mesma forma, a proposta evidencia a importância da “compreensão por parte dos alunos” em detrimento da memorização como vem acontecendo com a tabuada. “Quando só se decora, esquece-se com facilidade. Se se souber o significado, pode sempre raciocinar-se para recuperar o valor”, explica Ana Paula Canavarro.

A coordenadora do grupo também considera que os “programas têm de seleccionar o que mais importa aprender na sociedade actual” e que, por isso, é preciso “ter a coragem de prescindir de alguns conceitos e insistir noutros, prescindir daqueles que, durante algum tempo, pareciam cruciais, mas que, hoje em dia, deixaram de ser”.

“Tecnologia não pode estar ausente na Matemática”

Na proposta do grupo de trabalho também se realça a importância de integrar mais os computadores na sala de aula. “A tecnologia não pode estar ausente na aula de Matemática – se está em todo o lado, como poderia não estar na aula?”, questiona Ana Paula Canavarro no Público.

“Até porque a tecnologia amplia o trabalho matemático que os alunos podem fazer, libertando-os de fazerem tarefas rotineiras e deixando mais tempo para o que importa ser feito pelos alunos”, diz ainda, dando como exemplo a construção de gráficos de estatística.

“Não tem sentido pedir às crianças e jovens que sejam eles a desenhar à mão gráficos da estatística, iriam perder tempo e obter gráficos não rigorosos, quando existem tantos recursos que podem realizar o gráfico, e com isso a criança e jovem tem oportunidade de usar o tempo, não para estar de régua e esquadro a construir o quadro, mas para analisar o gráfico”, salienta.

Por outro lado, o grupo de trabalho sugere que o ensino aposte em relacionar a Matemática com outras áreas do saber como a dança.

“A Matemática ajuda a compreender os movimentos na dança tradicional e a definir com rigor as posições que os dançarinos devem assumir de modo a que a coreografia fique perfeita”, exemplifica-se, com o sublinhado de que isso pode suceder com quase todas as áreas.

Sociedade Portuguesa da Matemática critica propostas

Mas as propostas do grupo de trabalho não são consensuais, nomeadamente entre os profissionais da Matemática.

O presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática, João Araújo, já veio apontar críticas a várias das mudanças sugeridas, nomeadamente à ênfase no cálculo mental em detrimento das contas no papel.

“Nós descobrimos truques de cálculo, porque aprendemos a fazer contas em pé, em papel de determinada forma, e isso ajudou-nos”, salienta João Araújo em declarações ao Público.

Este responsável considera, assim, que é “preciso cuidado para não perder as bases” e não desvirtuar o que deve ser uma “construção metódica e estruturada do saber”.

ZAP //

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7 COMENTÁRIOS

  1. Já agora, porque não deixar de ensinar os alunos a escrever? Afinal, sempre existem teclados em todo lado. É este falhanço em não perceber o propósito das coisas que me prepcupa. O aluno só tem a ganhar em desenhar os gráficos. Pois é uma experiência real. Depois dizem que pretendem educar pessoas que ligam melhor o conhecimento à realidade. Não estão. Pelo contrário. A tecnologia é uma ferramenta, não uma muleta. Perceber a diferença entre os dois, a tua demanda será. Já dizia o sábio yoda…

  2. Entendo que as duas partes é fundamental no desenvolvimento futuro. Falando do meu percurso profissional muito sinceramente, tenho sido esbarrado pela má experiência desde o inicio desta disciplina nuclear, que fez e faz muita falta pela má qualidade nas bases. A título de exemplo em que uma professora venezuelana de origem Portuguesa com um Português de 3º mundo. Imagine-se . . .
    Sinceramente tive bases de Matemática altamente deficitárias, foi uma travessia no deserto, mesmo com explicações.
    Em outras disciplinas assim como o Português disciplina nuclear muito bom, das restantes embora importantes, mas a falta destas o aluno torna-se um marinheiro a atravessar o Cabo da Boa Esperança.
    Lamento muito esta falha ao longo das minhas experiências profissionais, em que poderia ir muito mais longe e sei perfeitamente das minhas limitações.
    Acredito que o homem não é perfeito, agora quando se falha nas bases, todo o restante falhou literalmente, repito com muita pena.

  3. Quando será o dia em que encontrarão o caminho certo para uma boa qualidade de ensino? Quanto mais mexem e remexem, e isso anda ao sabor de cada governo e cor política, menos qualidade e estabilidade o ensino terá. Tanto no ensino como noutros setores dá-nos a sensação que as mixórdias dos governantes são mais no sentido de contrariar e desfazer naquilo que outros fizeram do que na intenção de melhorar a qualidade das coisas.

  4. Nada se pode esperar de bom do ministério da educação porque os objectivos do ministro são diferentes dos objectivos dos cidadãos, sobretudo daqueles que acrescentam valor e criam riqueza. Porque esses cidadãos não estão organizados nem representados o ministro faz o que mais lhe convém, isto é, marketing enganoso.

  5. Toda a vida ouvi dizer pelos próprios professores que o nosso sistema de ensino é do séc xix e precisa urgentemente de ser renovado e adaptado ao mundo atual, mas quando alguém tem coragem de mexer nas coisas, é logo posto abaixo.

    Claro que não fez sentido dar demasiado relevo às contas de papel. Alguém ainda usa ábaco? Os métodos são substituíveis, a base e o raciocínio por detrás dos mesmos é que deve ser o foco.

    Nos meus tempos de escola cheguei a ter professores de matemática a chumbarem-me respostas porque não tinha demonstrado os passinhos todos no papel, quando o meu raciocínio estava corretíssimo e as contas de cabeça acertadas.

    Útil no dia a dia é precisamente isto, saber raciocinar. Se estamos no supermercado a tentar perceber qual o produto mais barato, vamos sacar de uma folha e de um lápis? Ou fazemos contas de cabeça, ou no telemóvel, sendo que mesmo neste último é preciso compreender que contas ao certo temos de fazer (regra de três simples, p.e.)

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