Morreu Medina Carreira

António Cotrim / Lusa

O antigo ministro das Finanças do I Governo Constitucional, Medina Henrique Carreira

O antigo ministro das Finanças do I Governo Constitucional, Medina Henrique Carreira

Medina Carreira, conhecido advogado e fiscalista, faleceu esta segunda-feira em Lisboa, após doença prolongada, aos 85 anos.

Henrique Medina Carreira, que morreu hoje aos 86 anos, era nos últimos anos uma das vozes mais acutilantes em relação às opções políticas e em particular à estratégia financeira do país, que governou no I Governo Constitucional.

Nascido em Bissau em 14 de janeiro de 1931, Medina Carreira aprendeu a ler e a escrever aos quatro anos, com o pai, que lhe ensinou também “o rigor no dinheiro” e a assumir responsabilidades desde muito cedo.

Medina Carreira era licenciado em Direito, tinha bacharelato em Engenharia Mecânica e uma licenciatura em Pedagogia, tendo começado o percurso profissional como professor técnico de matemática e empregado de escritório no setor metalúrgico, que acumulava com o estudo de Direito, que só concluiu em 1962.

A partir de 1964, começou a dedicar-se ao exercício da advocacia, sobretudo Direito Fiscal, e ao estudo da fiscalidade. Após o 25 de Abril, foi nomeado administrador, por parte do Estado, do Banco Internacional Portugal.

Medina Carreira esteve duas vezes no Governo.

Em 1975 o almirante Pinheiro de Azevedo chamou-o para o VI Governo Provisório, atribuindo-lhe o cargo de Subsecretário de Estado do Orçamento, função que deixou para assumir, logo de seguida, as funções de Ministro das Finanças do I Governo Constitucional. Em 1976, foi Ministro das Finanças no governo chefiado por Mário Soares.

Em 1978 abandona o Partido Socialista, por divergências quanto à política económica adotada pelo partido, na altura no poder. Em 2006 apoiou publicamente a candidatura de Cavaco Silva a Presidente da República.

Conhecido como o economista pessimista, sempre incómodo, evidenciou-se como um grande crítico das finanças públicas portuguesas relativamente ao peso do endividamento e da despesa pública, bem como da atual carga fiscal portuguesa. Também criticou a situação atual da educação, justiça e inexistência de políticas contra a corrupção.

Em entrevista ao Jornal de Negócios em 2009, Medina Carreira recordou que ser ministro das Finanças era “um lugar melindroso”, porque “todos os dias se negava dinheiro às pessoas. É um lugar de combate e de grande antipatia nas decisões”.

“Não era uma atração ser ministro das Finanças. Num país rico e próspero, deve ser agradável”, disse, o que não era de todo o caso de Portugal naquela altura e foram as divergências em relação às opções político-partidárias que o levaram a demitir-se.

Nos últimos anos, Medina Carreira fazia-se acompanhar – nas participações em debates e televisivas – com estatísticas e gráficos que atestavam o galopar dos gastos públicos e da dívida de Portugal, criticando opções dos sucessivos governos.

Medina Carreira dizia não ter medo da morte, mas “da maneira de morrer”. “Defendo que desde a nascença devíamos ser portadores de uma ampola com cianeto de potássio. Acho que devíamos ser senhores do nosso fim. Não devíamos discutir eutanásia e testamento vital: era uma ampolazinha de cianeto de potássio. Mas isto é doutrina que nunca pegará, como é óbvio”.

Medina Carreira morreu hoje num hospital em Lisboa, aos 86 anos, vítima de doença prolongada, disse à Lusa fonte ligada à família.

ZAP // Lusa

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14 COMENTÁRIOS

  1. Morreu Medina Carreira, como já faleceram todos os meus antepassados e muitos outros amigos, que foram mais úteis à nossa Sociedade e nem uma palavra saiu nos jornais. Este pelo menos já não nos chateia com as suas manias de ser o melhor.

  2. Era um grande homem! As vezes pergunto-me se vale a pena ser … porque o fim é sempre inevitável !… Um homem de valor , sem dúvida alguma, polémico como são sempre estes homens, muito inteligente e sábio ! E como sempre acontece com estes homens mal compreendidos pela comum carneirada. Paz á sua alma
    !

  3. É pena que não haja mais pessoas independentes como Medina Carreira e que lhes deem oportunidade de expor as suas ideias.
    Para aqueles que não gostam de ouvir verdades, como era o caso com Medina Carreira, têm uma solução: mudam de canal e veem telenovelas ou a voz do dono.
    Paz à sua alma.

  4. o pais perdeu um grande pensador,temos falta de pessoas como ele,que separam as idealogias da verdade,doa a quem doer,ja vi que no seu funeral vao estar muitos inimigos seus . descanse em paz .

  5. O maior politico de sempre!
    Por essa razão abandonou a politica quando se apercebeu do rumo que levava a triste e pobre politica.

  6. Grande homem, pragmático, pensador, honesto, amigo do país e admirado por todos que pensam pela sua cabeça. Repudiava com muita veemência a incompetência dos políticos que, infelizmente “DESGOVERNAM” este país.
    Paz a Sua alma.

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