Morreu Arnaldo Matos, o “grande educador da classe operária”

António Cotrim / Lusa

Arnaldo Matos, fundador do Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses (PCTP/MRPP)

O fundador do Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses (PCTP/MRPP), Arnaldo Matos, morreu esta sexta-feira de madrugada, aos 79 anos, vítima de doença. A notícia foi avançada pelo Jornal da Madeira e posteriormente confirmada por fonte do partido.

O fundador do PCTP/MRPP, Arnaldo Matos, morreu esta sexta-feira, vítima de doença. “É com uma profunda tristeza e um enorme vazio que vimos informar que faleceu há poucas horas o nosso querido camarada Arnaldo Matos, fundador do PCTP/MRPP e um incansável combatente marxista que dedicou toda a sua vida ao serviço da classe operária e a lutar pela revolução comunista e por uma sociedade sem classes”, escreve o partido numa nota.

Arnaldo Matos tinha 79 anos e, apesar de não ter um cargo que o ligasse formalmente ao partido, era a principal figura do Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado (MRPP). O partido foi formado em Lisboa, na clandestinidade, em 18 de setembro de 1970, por Arnaldo Matos, Vidaúl Ferreira, Fernando Rosas e João Machado.

Arnaldo Matos foi dirigente do PCTP/MRPP entre 1970 e 1982, até se ter desvinculado do partido. Dos quatro fundadores, é o único que continua atualmente ligado ao partido que nas últimas legislaturas teve 1,11%.

Na nota intitulada “Honra ao camarada Arnaldo Matos” (1939-2019), o PCTP/MRPP diz que a sua obra e o seu exemplo “perdurarão para sempre na memória dos operários e dos trabalhadores portugueses e constituirão um guia na luta do proletariado revolucionário e dos comunistas pelo derrube do capitalismo e do imperialismo e pela instauração do modo de produção comunista e de uma sociedade de iguais”.

Clandestinidade

Durante a sua juventude, Arnaldo Matos foi um oposicionista acérrimo ao regime de António Salazar. Em 1967, venceu as eleições para a Associação Académica da Faculdade de Direito e fez parte do movimento estudantil de oposição ao regime. Ma foi a 18 de setembro de 1970 que fundou o MRPP, por defender que o Partido Comunista Português adotara uma ideologia “revisionista” e deixara de ser o “partido do proletariado”.

Antes do 25 de abril, o partido foi muito ativo, especialmente entre os estudantes e jovens operários de Lisboa, tendo inclusivamente sofrido a repressão das forças policiais.

No pós-25 de Abril, começou a ser conhecido por ser “delegado do Comité Lenine”, que era o Comité Central do MRPP, movimento que se legalizou em Fevereiro de 1975 e se transformou, em Dezembro de 1976, no Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses – Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado, o PCTP/MRPP, explica o Público.

Após a legalização do movimento, em 1975, Arnaldo foi preso pela primeira vez em Mirandela, pelo COPCON (Comando Operacional do Continente), em pleno PREC (Processo Revolucionário em Curso). Foi este momento que fez com que todo o partido ficasse a saber o seu nome, tendo alguns militantes e simpatizantes gritado em pleno Rossio “Libertação imediata do camarada Arnaldo Matos!“.

Após a prisão, adianta o Observador, o ativista político natural de Santa Cruz foi transferido para o Hospital Militar Principal, na Estrela, tendo conseguido escapar, passando à clandestinidade. Neste período, chegou a ser entrevistado pelo semanário O Jornal. Entretanto, o COPCON começou a libertar os militantes detidos em 1975, depois de o partido ter sido suspenso.

Em 1976, deu-se a primeira participação em eleições, que foi “um estrondoso fracassi para o MRPP”, tendo recebido apenas 36.200 votos (0,66%). Este foi o primeiro grande e duro golpe para o líder Arnaldo Matos. Em 40 anos, e em todas as eleições em que participou, o PCTP/MRPP nunca elegeu qualquer deputado.

A faísca com Garcia Pereira

 

Entre 1982 e 2015, o “grande educador da classe operária” (epíteto colocado por Natália Correia), deixou o partido, justificando a sua decisão com a ideia de que a contra-revolução tinha ganho, passando a considerar o papel do partido na nova sociedade inútil.

Foi António Garcia Pereira que assumiu a liderança do PCTP/MRPP, sendo seu candidato presidencial e cabeça de lista às legislativas por diversas vezes. Mas em 2015 o verniz estalou, altura em que saiu do partido em rutura com Arnaldo Matos com acusações mútuas de “traição”.

Após as legislativas de outubro desse mesmo ano, Arnaldo Matos deu ordem de suspensão a todos os membros do Comité Permanente do Comité Central, mesmo não possuindo qualquer cargo no partido. Essa ordem incluiu a suspensão do líder do partido na altura, que era também seu amigo pessoal.

A demissão de Garcia Pereira em novembro de 2015 não foi o fim, mas antes o início de uma luta interna que, de acordo com o Público, pôde ser acompanhada no jornal online “Luta Popular”.

Em maio de 2017, Garcia Pereira quebrou o silêncio e publicou oito textos num site intitulado “Em nome de verdade”, com o objetivo de repor a verdade dos factos. Numa entrevista ao Jornal i, em maio do ano passado, Garcia Pereira admitiu ter sido forçado a sair do MRPP.

“A seguir às eleições de outubro de 2015, com a suspensão dos membros do Comité Permanente, com uma situação em que era todos os dias atacado das formas mais inaceitáveis e mais baixas que se possa imaginar, o ambiente foi claramente desenhado para travar qualquer luta política e ideológica, por muito dura que fosse“, começou por afirmar.

Justificando os seus dois anos de silêncio, Garcia Pereira afirmou que, em 2017, “entendi que tinha chegado o momento de repor a verdade dos factos, que foi o que fiz com o meu site Em Nome da Verdade. Senti a necessidade de dar uma explicação às dezenas de milhar de pessoas que tinham votado MRPP sobre as coisas que estavam a ser ditas”.

Questionado sobre a forma como reagiu aos “ataques” de Arnaldo Matos, Garcia Pereira afirmou que “a minha primeira reação foi de uma enorme estupefação e revolta interior”.

“Como era possível que a pessoa com a qual tinha não apenas um relacionamento político mas também de amizade de décadas se permitia fazer aquilo? Não estou a falar de críticas políticas. Estou a falar de se falsear conscientemente a verdade e imputar à outra pessoa coisas que se sabe que não correspondem à realidade. E realmente isso não tinha nada a ver com a memória e imagem que tinha da pessoa. Num primeiro momento foi muito difícil”, confessou.

ZAP // Lusa

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