Ciberpadres dão missas online. Nem todos concordam: “Não vale tudo”

Um “ciberpadre” católico da zona de Aveiro diz que em tempos de pandemia as celebrações ‘online’ são uma boa alternativa às missas televisionadas ou radiodifundidas, porque permitem a interação, mas um sacerdote do Porto discorda: “Não vale tudo”.

A hierarquia da Igreja Católica, a mais representativa confissão religiosa em Portugal, mandou fechou as portas dos seus templos em 23 de janeiro e incentivou a aposta em “ofertas celebrativas, transmitidas em direto por via digital”.

Compreendendo a suspensão de missas devido à pandemia, o padre Jardim Moreira, que tem a cargo a paróquia da Vitória, no casco histórico do Porto, declara-se, contudo, contra a multiplicação de serviços religiosos alternativos ao presencial, nomeadamente através da internet.

“Admito isso apenas para os doentes, mas a missa na TV e na rádio já chega. Acho que é um perigo e deseducador, antipastoral, que se transforme um ato presencial, que é a celebração da ceia (“tomai e comei”), num ato virtual. Não vale tudo”, afirmou à agência Lusa o padre Jardim Moreira, de 79 anos, que é também responsável em Portugal pela Rede Europeia Antipobreza.

“O cristão é o que vive em comunidade, em comunhão fraterna”, frisa o sacerdote católico de uma zona urbana histórica em desertificação acentuada onde, “em poucos anos”, a população decresceu de “uns 20 mil habitantes” para três mil.

Diferente é o ponto de vista de Júlio Grangeja, o chamado “ciberpadre” de Águeda, no distrito de Aveiro, que tem a cargo três paróquias e que há duas décadas usa as novas tecnologias para transmitir a mensagem católica.

“Discordo dessa posição tão radical do meu colega. Num tempo em que falta alimento para o cristão, entendido este como participação presencial nos atos, devemos usar todos os meios ao nosso alcance para passar a mensagem, minimizando a falta que sentem. Já que não podem comungar sacramentalmente, pelo menos têm a comunhão espiritual”.

Júlio Grangeja, de 62 anos, sublinha, por outro lado, que a transmissão dos serviços religiosos pelas novas plataformas tem valor acrescido face às feitas na rádio ou na televisão, embora estas primem, como diz, pela “qualidade e comodidade”.

O padre tem a cargo as paróquias de Espinhel, Óis da Ribeira e Travassô, todas de Águeda, que no conjunto terão menos de cinco mil habitantes, mas, enquanto “ciberpadre”, chega a fazer celebrações online com 800 a mil pessoas, as quais registam, na caixa de comentários, participações de 300 a 400 fiéis, em Portugal e no estrangeiro.

“Há interação e isso faz toda a diferença. As pessoas que estão a participar (“a participar, e não a assistir”, enfatiza) são convidadas a escrever os seus comentários” e muitos escrevem o que diriam se estivessem a participar presencialmente, o que rejeita a ideia de que todos os seniores continuem a experimentar grandes dificuldades no recurso a plataformas.

“Há de tudo”, observa.

Já o cónego Fernando Milheiro, de 73 anos, que tem a seu cargo as três paróquias do Vale de Campanhã (Cerco, São Pedro de Azevedo e Campanha), no Porto, tende a desvalorizar a dicotomia entre a missa presencial e a transmitida por meios eletrónicos, sublinhando que o importante é mesmo a presença em espírito.

“Já antes da covid-19 eu lembrava isso, em contacto com alguns doentes que se queixavam que tinham deixado de poder ir à missa precisamente por razões de saúde”, refere o padre, ao combater eventuais dramas interiores de católicos agora impedidos de participar presencialmente em serviços religiosos e com dificuldades, por infoexclusão, a aceder a celebrações online.

Aludindo a alternativa às missas via televisão ou rádio, dá exemplos, recolhidos nas suas próprias paróquias, de idosos que obtiveram ajuda de familiares jovens para ver e ouvir a homilia que Fernando Milheiro transmite por internet.

“Não devemos desligar as pessoas que efetivamente não estão desligadas”, conclui.

A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), da Igreja Católica, determinou a suspensão das celebrações públicas de serviços religiosos, desde 23 de janeiro, na sequência do agravamento da pandemia de Covid-19 no país.

Em Portugal, morreram 13.257 pessoas dos 740.944 casos de infeção confirmados, de acordo com o boletim mais recente da Direção-Geral da Saúde.

Face à suspensão das celebrações comunitárias, a CEP pediu a aposta em “ofertas celebrativas, transmitidas em direto por via digital”.

  ZAP // Lusa

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