Mayday, mayday: banhistas revoltados, herói no meio da tragédia e um pai em choque

A avioneta que aterrou na quarta-feira de emergência na praia de São João da Caparica, em Almada, estava em voo de treino com um aluno e um instrutor sénior “com elevada experiência”. O acidente fez dois mortos, colhidos na praia. O Ministério Público já está a investigar as causas.

A aeronave Cessna 152 aterrou na quarta-feira de emergência, pelas 16h50, numa praia com elevado número de banhistas. Tinha descolado de Cascais e voava com destino a Évora. Os dois pilotos escaparam ilesos, mas no processo de aterragem, a avioneta colheu duas pessoas: um homem de 56 anos e uma criança do sexo feminino de oito anos.

A Procuradoria Geral da República (PGR) já confirmou que instaurou um inquérito para apurar as circunstâncias do acidente com a avioneta.

O capitão do Porto de Lisboa, Paulo Isabel, adiantou que os dois tripulantes, depois de já terem sido interrogados pela Polícia Marítima, ficaram com termo de identidade e residência e serão ouvidos na quinta-feira por uma procuradora do Ministério Público.

Segundo o mesmo responsável, correm dois processos em paralelo: um de natureza judicial, no âmbito do Ministério Público, e outro de natureza técnica, levado a cabo pelo Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários.

No momento da aterragem de emergência, quando saíram da aeronave, o aluno piloto e o instrutor sénior – com “elevada experiência e milhares de horas de pilotagem”, segundo fez saber a escola de aviação Aerocondor, em Torres Vedras, à qual pertenciam -, os ânimos exaltaram-se.

Banhistas que se encontravam na praia e assistiram à aterragem de emergência revoltaram-se, tendo tentado agredir os dois tripulantes. Segundo o JNM, que cita a agência Lusa, foi inclusivamente necessária a intervenção da Polícia Marítima para acalmar os ânimos dos presentes.

Herói no meio da tragédia

Antes da Polícia Marítima chegar, quem ajudou a impedir uma segunda tragédia, caso a agressão aos pilotos se viesse a consagrar, foi Nicolas dos Santos, o jogador de basquetebol do Benfica que, em conjunto com o nadador salvador ajudou a proteger a equipa de aviação da “fúria dos presentes”, segundo comunicado do Benfica.

“A minha mulher correu para junto da criança e não conseguia parar de chorar porque assistiu a tudo e à aflição da mãe abraçada à filha. Foi horrível. Eu corri para ajudar o nadador salvador, pois havia cada vez mais pessoas a chegar à praia e queriam bater no piloto da avioneta e no tripulante, também eles cheios de medo“, conta Nicolas.

“Eu meti-me no meio para tentar evitar que acontecesse outra tragédia. Quis ajudar. A solução não era bater, era manter a calma e esperar que as autoridades, a polícia e a ajuda médica de emergência chegassem. Manter a calma era o mais importante no momento”, continua.

E se em vez de aterragem fosse uma amaragem?

Sobre o acidente, muitos levantaram a questão de “Porquê aterrar em terra, com o mar ali tão perto?”. Segundo o Observador, há uma explicação técnica que pode ter influenciado a decisão do piloto.

A avioneta que estava a pilotar é básica e pequena. Só tem um motor e, por isso, se falhar, não há segunda opção. Não tem piloto automático, como os aviões comerciais, apesar de haver uma configuração que faz com que o avião fique a planar por mais tempo.

Mas há duas características que fariam com que o avião se estilhaçasse ao aterrar no mar, explica Pedro Diniz, piloto. Por ser uma avioneta pequena, as rodas são fixas e não recolhem. Numa amaragem com este tipo de aparelho, “aconteceria um efeito de ancora” e a avioneta “partia-se ao meio ou ficava desfeita“, explica o piloto.

Por outro lado, a asa deste tipo de avioneta está ao nível da parte superior do aparelho, ao contrário do que acontece com os aviões comerciais, em que a asa está posicionada mais abaixo. Pedro Diniz prevê que, por causa desta característica, se a avioneta amarasse e permanecesse inteira, ficaria completamente submergida.

O piloto esclarece ainda que “o impacto do contacto da avioneta com a água é mais agressivo do que o contacto com a terra”. Isso faz com que o mar seja a última das opções numa situação que obriga a uma aterragem de emergência – da qual os pilotos tomam conhecimento durante a instrução e são treinados para a cumprir.

A primeira opção é “um aeroporto qualquer, mesmo que fechado”. A segunda será “um pedaço de alcatrão. A terceira pode ser uma floresta, um descampado ou, até, uma praia. O mar é sempre uma opção pouco considerável.

“Entre a opção de tentar uma amaragem, que iria correr mal quase por certo, e outra opção com uma probabilidade menos certa”, Pedro Diniz duvida que houvesse muitos pilotos a optar pelo mar, acrescentando que, apesar de, àquela distância, o piloto conseguir ver as pessoas que estavam na praia, havia a possibilidade de ninguém morrer. Já uma amaragem, era morte quase certa para o piloto e o aluno.

Além de tudo isto, o piloto e ex presidente do Sindicato dos Pilotos da Aviação Civil, Jaime Prieto relembra as dificuldades do lado emocional e humano, ao qual nem pilotos com horas de treino conseguem fugir, frisando ainda, que o aluno teve apenas alguns segundos para avaliar opções e salvaguardar vidas.

“Mayday, mayday”

No áudio da comunicação de emergência, o aluno dá conta de falhas no motor. “Mayday, Mayday, Mayday. Falha do motor, vai aterrar na praia” pode-se ouvir. Do outro lado, alguém pergunta em que praia vai aterrar: “Cova do Vapor”.

Mais à frente, no mesmo áudio, ouve-se a comunicação de feridos: “Eles feriram pessoas na praia. Pedem ambulâncias para a zona com urgência, na Cova do Vapor”. “Todos os meios já estão a ser acionados”.

No mesmo áudio, alguém da equipa de aviação informa já estar no local: “Ele está a reportar que tem feridos na praia. Os pilotos estão bem. Ou seja, a tripulação está bem”. “Fez foi feridos à aterragem, confirma?”. “Afirmativo, exatamente. Eu estive agora a falar com eles. A tripulação está bem. Foram pessoas da praia, por isso é que eles estão a pedir ajuda, está bem?”

O pai em choque

Para a praia deslocaram-se várias reportagens televisivas que foram dando conta de testemunhos pessoais, daqueles que se encontravam no areal no momento do acidente. Entre esses testemunhos, destaca-se o do pai da menina de 8 anos, Sofia, que morreu na tragédia.

O homem dirigiu-se a uma equipa de reportagem da TVI24 para falar da tragédia: “Estávamos ali a brincar, com a maré baixa, onde a água é escoada na lagoa, e estava com o meu cunhado a explicar de forma educativa às minhas duas filhas e aos meus sobrinhos o que é um agueiro e como se forma um agueiro. Entretanto, um dos meus sobrinhos chamou-me a atenção para uma aeronave que vinha baixa junto ao paredão”, conta.

Visivelmente revoltado, e ignorando as tentativas iniciais da equipa de jornalistas de interromper a emissão que estava a passar em direto, o pai da menina prosseguiu com o relato.

“Disse à Sofia, que faleceu, para correr atrás de mim, a Sofia correu aquilo que pôde, quando vi que as crianças estavam em segurança, quando me voltei para trás para ajudar a Sofia vi-a a ser colhida. Dirigi-me ao senhor que vinha a pilotar a aeronave e o senhor disse-me que perdeu o controlo da aeronave e eu podia ter-lhe dado dois socos, tinha esse direito, mas não o fiz“.

ZAP CF, ZAP //

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8 COMENTÁRIOS

  1. Qualquer aeronave, em princípio faz barulho se o motor vier em funcionamento. Acho que todos os aparelhos voadores deveriam ter buzinas específicas (com som definido para emergência) que seriam acionadas logo que houvesse falha de motor. Pode ser uma ideia parva para alguns, mas se calhar preveniam com mais antecedência os que estavam na praia. Podiam ter evitado mortes.

  2. Grande Ribeiro e “brilhante”. Eu também Ribeiro não preciso de ser brilhante para ainda não perceber porque é que tantos jornalistas a entrevistar experts (de leis, de aeronáutica, de psicologia, etc) durante horas ainda não fizeram essa simples pergunta. As aeronaves são dotadas de sinais sonoros e/ou luminosos para poder utilizar em emergências e a sua utilização consta dos manuais de voo? Gostaria de saber! Se não têm revela incompetência dos engenheiros projetistas aeronáuticos: se têm e não foi utilizado é negligência por parte dos tripulantes. Os veículos automóveis por imposição de Directivas Europeias são obrigados a ter esses dispositivos e outros.

  3. A ideia dos “Ribeiros” tem toda a lógica, não necessariamente para todos os “aparelhos voadores” mas pelo menos para aqueles que pelas suas dimensões e características, como o caso presente, podem aproximar-se de forma silenciosa e quase sem se dar por isso! É legítimo perguntar-se: porque é que nunca ninguém pensou nisso? Julgo que a resposta seja: porque nunca houve (que eu tenha conhecimento) nenhum acidente deste tipo em Portugal, e são muito, muito raros no resto do mundo!
    É fácil afirmar-se que o piloto deveria ter optado pelo mar, e não sabemos (e provavelmente nunca se saberá) se o fez e simplesmente não conseguiu, porque um avião daquele tipo não é fácil de controlar sem motor, ou “apontou” directamente à praia trocando a certeza de perecer (ou na melhor das hipóteses ficar ferido em estado grave!) pela hipótese (remota mas possível) de não atingir ninguém. Alguém tem a ousadia e a certeza de afirmar qual a opção que tomaria em circunstâncias equivalentes, ainda por cima dispondo apenas de alguns segundos para decidir? Também piloto este tipo de aviões, e a frio eu diria que optaria pelo mar! Mas em cima do acontecimento… não tenho a certeza se seria assim! E não acredito que alguém o possa afirmar. E não acho que alguém o possa julgar (ao piloto)!

    • Isso do mar equivale a morte quase certa para o piloto, por capotamento (cambalhota de frente) imediata neste tipo de avião, mas isso se calhar é secundário.

  4. Para os comentários acima, a ideia proposta é completamente válida e só não deve existir ainda, talvez pela raridade da situação, contudo é bem possível que essa solução vena a ser adotada, uma vez que na aviação, depois de uma tragédia e do estudo da mesma, surja após o relatório a apresentação de uma solução que visa minimizar ou evitar que tal problema volte a surgir.
    Para além disso, aplicar buzinas e holofotes led numa qualquer aeronave para atuar em situações de emergência, não é de todo complicado.
    Já agora, se todos os aviões reportassem via rádio a posição de GPS que ocupam a cada 10 segundos, nunca mais existiriam aviões desaparecidos, parece-me a mim mais um ovo de colombo, o a partir do momento em que uma qualquer aeronave deixa-se de emitir este sinal, enviasse uma posição repetida ou improvável, a emergência seria direcionada mais rapidamente e para o local correto.

    • As aeronaves têm sistemas de “tracking”. Só se “perdem-se” exactamente porque os sistemas de “tracking” deixam de funcionar seja por avaria seja por danos sofridos no acidente.

      • Eu também tinha essa ideia, mas não entendo como a explicação para a tragédia do MH777 ainda não foi encontrada, tal como a demora por vezes em encontrar as aeronaves que se despenham.
        Para além disso, penso que os aviões deveriam ter uma terceira caixa negra no solo, cujos dados seriam enviados por teletria a cada instante.

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