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Líbano decreta dia de luto nacional depois de tiroteio durante manifestação causar seis mortos

Joseph Eid / AFP

Médicos libaneses ajudam a retirar pessoas depois dos confrontos durante uma manifestação em Beirute

Confrontos durante uma manifestação convocada pelo Hezbollah na manhã de ontem causaram seis vítimas mortais. O protesto era contra o juiz que lidera o inquérito à explosão no porto de Beirute no ano passado.

O Líbano declarou um dia de luto nacional depois de uma manifestação organizada pelo Hezbollah em Beirute esta quinta-feira ter acabado em violência.

Seis pessoas morreram e 30 ficaram feridas durante um protesto contra o juiz que está à frente do processo de inquérito sobre a explosão no porto da capital libanesa depois da terem sido disparados tiros de metralhadora sobre a multidão.

O protesto começou durante a manhã à volta do Palácio da Justiça e foi convocado pelo Hezbollah em conjunto com o partido xiita Amal. Centenas de pessoas marchavam nas ruas da capital, quando, perto de uma rotunda na área Tayouneh-Badaro, homens armados com metralhadoras e lançadores de granadas começaram a disparar.

Seguiu-se o caos no centro de Beirute, com pessoas a correr pelas ruas à procura de um lugar seguro, os residentes a sair de casa e crianças a terem de se esconder debaixo das mesas nas escolas. As ruas ficaram cheias de estilhaços de vidro.

Os confrontos duraram quatro horas e obrigaram à intervenção do exército, que teve de estabelecer um perímetro de segurança nos bairros onde a confusão começou – uma parte da cidade onde vivem xiitas e cristãos e onde há um historial de situações semelhantes na guerra civil. O exército avisou que dispararia sobre qualquer pessoa armada nas ruas.

A organização do protesto culpa as Forças Libanesas, um partido cristão ligado à Arábia Saudita, pelas mortes – que foram todas de xiitas – mas o grupo nega a acusação. O Hezbollah diz que os tiros estavam a ser disparados a partir dos telhados.

O líder das Forças Libanesas, Samir Geagea, condenou o ataque no Twitter. “A principal causa destes desenvolvimento é a presença descontrolada e generalizada de armas que ameaçam as vidas de cidadãos a qualquer hora e em qualquer lugar”, escreveu.

O primeiro-ministro, Najib Mikati, apelou à calma e a que a população que “não se deixe atrair pela sedição seja por que razão for”. Já o presidente Aoun considera que não é aceitável o regresso das armas como forma de comunicação entre os partidos libaneses.

A violência de ontem é mais um sinal da profunda divisão política que o país vive, que foi acentuada pela explosão no ano passado, pela qual ainda ninguém foi responsabilizado legalmente.

Hezbolla acusa juiz de ser tendencioso

A explosão de 4 de Agosto de 2020 num armazém no porto onde estavam mais de duas mil toneladas de nitrato de amónio destruiu grande parte da cidade de Beirute e matou pelo  218 pessoas.

A ineficácia da justiça na investigação dos responsáveis cuja negligência resultou na explosão tem frustrado a população, que acredita que há falta de independência judicial no país, com os juízes a submeterem-se aos políticos.

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O actual juiz que está à frente do processo, Tarek Bitar, tem sido criticado pelo Hezbollah, que o acusa de ser tendencioso e parcial. Na quinta-feira, um tribunal rejeitou uma queixa apresentada por Ali Hassan Khalil e Ghazi Zaiter, dois antigos ministros do partido Amal e aliados do Hezbollah, que exigia a exoneração do juiz.

Na segunda-feira, o chefe do Hezbollah, Hassan Nasrallah, acusou Bitar de politizar o inquérito e pediu a sua substituição por um magistrado “honesto e transparente”.

No entanto, o pedido não foi sancionado pelo tribunal e o juiz vai assim continuar à frente da investigação, depois de ter chamado os dois ex-ministros do Amal a depor por suspeitas de negligência no caso da explosão.

As famílias das vítimas condenaram a queixa apresentada pelos políticos, acusando a liderança política do país de se tentar proteger do escrutínio do juiz. “Tirem as mãos do sistema judicial“, avisaram na quarta-feira.

A reacção do Hezbollah suscitou também críticas nos Estados Unidos. O porta-voz do Departamento de Estado, Ned Price, disse que Washington apoia a independência judicial no Líbano.

Os juízes devem estar livres de ameaças e intimidações“, referiu, acusando o Hezbollah de estar “mais preocupado com os seus próprios interesses e os do seu protetor, o Irão, do que com os interesses do povo libanês”.

O deputado do Hezbollah, Hassan Fadallah, respondeu às críticas e acusou os EUA de tentarem interferir na investigação e de quererem violar “a soberania do Líbano”.

Fadallah acusou Washington de impor “ditames que visam obstruir a justiça e encobrir a verdade” contra segmentos da população que os Estados Unidos consideram inimigos.

A verdade é que já foram nomeados dois juízes para liderar a investigação. Fadi Sawan foi o primeiro e avançou com um requerimento para levantar a imunidade judicial dos políticos, para que as figuras de Estado pudessem ser chamadas a depor. No entanto, o Parlamento libanês tem de aprovar esta decisão e chumbou-a.

O juiz foi afastado da investigação em Fevereiro quando acusou três ex-ministros e o primeiro-ministro cessante de negligência criminal.

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  Adriana Peixoto, ZAP //

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