Lhuzie é a primeira bebé com nome próprio mirandês

Paul Goyette / Wikimedia

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Nasceu em Lisboa há um mês e promete fazer história ao tornar-se na primeira criança com nome próprio mirandês, pelo menos desde o reconhecimento como segunda língua oficial de Portugal, há 15 anos.

Chama-se Lhuzie (pronuncia-se como se se escreve com acento na última sílaba) e a atribuição do nome, disse fonte da família, teve de passar por um pedido especial que foi aceite há dias e que abre as portas a quem quiser dar nomes em mirandês aos filhos.

Lhuzie, equivalente a Luzia em português, é neta do principal estudioso da atualidade da língua mirandesa, Amadeu Ferreira, um mirandês levado para Lisboa pelo êxodo transmontano, que empurrou também o filho e a nora, pais da bebé.

“É um orgulho o primeiro registo em mirandês ser da minha neta”, afirmou à Lusa, embora a ideia nem tenha sido dele. Foi da mãe de Lhuzie.

O mirandês, falado junto à fronteira num recanto de Trás-os-Montes, é desde 1999, a segunda língua oficial de Portugal, mas até aqui apenas há registos de nomes de pessoas coletivas, nomeadamente associações.

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Amadeu Ferreira, o principal estudioso da língua mirandesa, é o avô de Lhuzie

Amadeu Ferreira, o principal estudioso da língua mirandesa, é o avô de Lhuzie

Relativamente a pessoas individuais, Amadeu Ferreira garante que “é a primeira vez, é um feito histórico”.

A atribuição de nome em Portugal obedece a regras muito estritas e só podem ser atribuídos a cidadãos portugueses os nomes próprios constantes de uma lista onomástica.

O de Lhuzie foi agora acrescentado a esta lista, mas foi necessário um pedido especial e uma sustentação jurídica para convencer os serviços dos Registos e Notariado de que ele existe e não traz qualquer prejuízo ao portador por poder ter conotações negativas.

O pedido foi fundamentado com o direito ao nome reconhecido na Constituição, a lei que reconhece os direitos linguísticos dos mirandeses e outros documentos históricos como uma publicação de vocabulário mirandês do padre Moisés, onde consta o nome, como explicou à Lusa o pai de Lhuzie, José Pedro Ferreira.

Os pais entenderam que “era muito importante passar a língua para a próxima geração e o que melhor senão o próprio nome”.

José Pedro acha que a filha não vai estranhar o nome e se for falante do mirandês e de outras línguas, como os pais esperam que seja, não estranhará.

Uma feliz coincidência é Lhuzie ter nascido próximo do Dia Europeu das Línguas, que se assinala a 26 de setembro, e que para os pais tem “um sentido especial” por serem bilingues.

O registo do nome acaba por ser para este pai “mais um passo em direcção ao uso natural do mirandês em todos os contextos do quotidiano”.

Para José Pedro, que é investigador no Instituto de Linguística Teórica e Computacional – ILTEC,” a aceitação do registo pode ser um feito muito importante para o mirandês”, uma língua “ameaçada, minoritária, mais usada em casa, no âmbito familiar e de trabalho, sobretudo no campo e na pastorícia”.

/Lusa

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1 COMENTÁRIO

  1. Quem dera essa lei que só permite colocar “nomes próprios constantes de uma lista onomástica” aos filhos existisse no Brasil, assim evitaríamos verdadeiros “crimes” contra a língua Portuguesa. Varsomar, Luziclei e outros estariam salvos…

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