Kremlin em chamas: como a polémica pintura chegou à parede do quarto de Zelenskyy

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Sandro Antadze/Faebook

“Sonho”, do georgiano Sandro Antadze

É da autoria de um “pacífico” georgiano, valerá “umas centenas”, mas tem valor simbólico suficiente para estar pendurado no quarto do presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy, mesmo por trás da sua cama.

Chama-se “Sonho“, e retrata o Kremlin, em Moscovo, em chamas, apesar de não ser esse o sonho literal do artista.

Será a obra favorita de Zelenskyy, entre uma pequena seleção de obras de arte pessoais que se veem num raro olhar próximo, partilhado pela revista Time no passado dia 24.

“Não são peças de museu” e valem “algumas centenas de dólares no máximo”, mas representam a “vitória”, a resistência, aponta a Time. No quarto do líder da Ucrânia vê-se também um navio russo a afundar-se e soldados ucranianos a lutar em território inimigo, mas foi o “Kremlin em chamas” que chamou mais à atenção do público… e do regime de Vladimir Putin.

A pintura foi imediatamente condenada pelas autoridades russas. A porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Maria Zakharova, compara o quarto do líder ucraniano a uma “ala psiquiátrica”, conta o Novaya Gazeta Europe, que foi atrás do pintor para contar a história.

“Ninguém aqui [na Rússia] pensaria em encomendar uma pintura da rua Khreshchatyk ou Bankova em chamas”, comparou o vice-presidente do Comité dos Negócios Estrangeiros do Conselho da Federação Vladimir Dzhabarov; “ilustra da melhor forma o nível de desenvolvimento espiritual e o estado interior de quem posa para estas imagens”, apontou o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, citado pela agência estatal TASS.

De Tbilisi, como chegaram as chamas ao quarto de Zelenskyy?

Quem é o “pacífico” por trás das chamas?

O artista por detrás da imagem é um georgiano, já conhecido pelas suas obras políticas “incendiárias”. Quem olha para o quadro pode não achar que Sandro Antadze é um homem pacífico, mas o pintor de 53 anos “não quer que Moscovo expluda ou que morram milhões de pessoas”. Pintou “um fogo simbólico, uma crítica à política e ao governo russo, não para o seu povo”, explicou em entrevista ao canal de televisão georgiano Formula, citado pelo Meduza.

“No quadro, pode-se ver os edifícios à esquerda do Kremlin, com as janelas iluminadas. Isso significa que [o fogo] não afeta as pessoas”.

“Sou uma pessoa muito pacífica”, disse: “não quero a guerra. Mas quando vejo injustiça, quando países inteiros e milhões de pessoas sofrem às mãos de um império insaciável, penso que esta é uma resposta válida”.

Formado em desenho arquitetónico, Antadze podia ainda hoje ser um esquiador alpino de competição, mas deixou a Geórgia nos anos 90 por causa da guerra e da crise económica. Levou consigo para Londres uma coleção dos seus pequenos quadros onde os começou a vender. Mais tarde, de regresso a Tbilisi, fundou uma galeria e expôs no Reino Unido, em França, nos Países Baixos, no Cazaquistão, na Coreia do Sul e… na Rússia.

Viagem até ao quarto de Zelenskyy

Curiosamente, “Positivismo” é uma das suas obras mais conhecidas, com ilustrações de animais felizes. Com “Aviões e Espaço”, evoca a liberdade e a aspiração, e em “Tudo está a mudar”, traz um olhar nostálgico sobre o tempo e decadência. O “Sonho” desvia-se da tendência. Quis enviá-lo ao presidente da Ucrânia, pois assim mandava o “destino”.

Sem saber se o sistema postal da Ucrânia estava sequer a funcionar, perguntou na Internet se alguém o poderia ajudar a enviar o quadro a Zelenskyy. Eventualmente o quadro chegou ao ao gabinete do líder em Kiev, mas Sandro nunca teve a confirmação de que este o tinha sequer visto. “Achei que o tinham posto num canto qualquer”, confessou.

Durante dois anos, nada de novidades, até que no início do ano passado, um amigo enviou-lhe um excerto do discurso de Ano Novo de Zelenskyy. No final da emissão, aparece o “seu” Kremlin em chamas.

“Aqueles que trouxeram o inferno para as nossas terras, um dia vê-lo-ão através das suas próprias janelas”, disse Zelenskyy. Só com o artigo da Time é que Sandro soube que o quadro tinha sido levado para o quarto pessoal do presidente: “ainda hoje me emociono ao pensar como é que isso pode ter acontecido.”

“Talvez o meu sonho se realize quando esta política russa acabar, quando tudo isto arder. Penso que só o próprio povo russo pode fazer com que isso aconteça. De certa forma, este quadro é também para eles”, remata.

Tomás Guimarães, ZAP //

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