Historiadores americanos dizem que Portugal deve pedir desculpa por tráfico de escravos

Lincoln Financial Foundation Collection / Wikimedia

“História da Escravatura”, William Blake (1860)

Os líderes políticos portugueses devem pedir desculpa pelo papel do país no tráfico de escravos e incentivar uma discussão sobre o tema na sociedade portuguesa, defendem especialistas americanos ouvidos pela Lusa.

“O facto de que vários países decidiram que era importante fazê-lo sugere uma nova norma que merece reflexão. Do meu ponto de vista, um reconhecimento do passado contribui para um sentimento coletivo de reconhecimento de desumanidades do passado”, disse à Lusa Walter Hawthorne, historiador da Universidade de Michigan.

“O apoio do estado para estas iniciativas pode galvanizar a investigação e ajudar a informar melhor o público”, explicou Christopher Brown, professor da Universidade de Columbia, em Nova Iorque.

Para o docente, este impacto ficou evidente com o Museu de história Afro-Americana, uma iniciativa do presidente George W. Bush, autorizada pelo Congresso, que inaugurou em Washington no ano passado e foi o primeiro espaço na capital dos EUA dedicado à história dos afro-americanos.

Brown acredita que quando um líder político fala sobre estes temas “leva a história a uma audiência muito mais ampla do que os académicos alguma vez conseguiriam e desperta a curiosidade de todos aqueles que nem tinham pensado sobre isso antes.”

“Por isso, sim, a liderança política pode fazer uma grande diferença, sobretudo se acompanhada por um apoio do estado para melhorar o conhecimento e compreensão sobre o tema”, conclui.

Em abril, o presidente Marcelo Rebelo de Sousa visitou a ilha de Gorée, no Senegal, e disse que Portugal reconheceu a injustiça da escravatura quando a aboliu em parte do seu território, “pela mão do Marquês de Pombal, em 1761”.

As declarações foram feitas no mesmo local em que, anos antes, o Papa João Paulo II pediu perdão pela escravatura. A decisão de Rebelo de Sousa trouxe para a opinião pública uma discussão que até então estava praticamente reduzido à academia.

Walter Hawthorne, autor de livros como “From Africa to Brazil: Culture, Identity, and an Atlantic Slave Trade 1600-1830”, acredita que “um pedido de desculpas deve focar-se numa ação, com reconhecimento das consequências, e terminar com uma ação corretiva”, como a criação de um museu ou um centro de investigação.

Um pedido de desculpas ajudaria os 5.8 milhões de africanos tornados escravos e embarcados em navios com a bandeira de Portugal? Ajudaria aqueles que foram mortos em guerras causadas pelo tráfico de escravos? Por aqueles que sofreram há centenas de anos? Não, mas seria um passo em frente para melhorar a relação hoje em dia entre pessoas com cores diferentes”, defende.

“Grandes pessoas pedem desculpas e tornam-se melhores pessoas. Grandes países cometeram atrocidades. Grandes países pedem desculpa. Quando os seus líderes tomam essa ação, elevam os seus países”, acrescenta.

Hawthorne cresceu no sul dos EUA, um território marcado pela escravatura, e diz que conhece “bem as atrocidades que foram cometidas e a ligação que existe entre o trafico de escravos no atlântico e racismo, desigualdades globais em termos monetários, educação, emprego, saúde e muito mais.”

“As atrocidades dos meus antepassados devem ser reconhecidas e discutidas para que todos possamos curar. Claro que os líderes políticos são centrais para esta discussão. Devem liderar. Mas quando eles falham, devemos atuar sem eles”, explica.

O especialista acredita que os académicos portugueses têm feito esse trabalho, com alguns dos melhores meios disponíveis em todo o mundo, e que por isso a discussão em Portugal vai continuar, com ou sem liderança política.

Portugal acolhe coleções de arquivos incríveis e bibliotecas que iluminam a história da escravatura. Nas suas universidades, encontram-se alguns dos melhores historiadores da área, pessoas que dedicaram a sua vida a escrever livros e artigos para envolver o publico nestas importantes, mas distantes, discussões”, conclui.

// Lusa

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15 COMENTÁRIOS

    • Julgo que o melhor seria que todos os países enfrentassem a sua história de frente e declarassem abertamente os erros que foram feitos, como o tráfico de pessoas e a colonização. E sim, os Estados Unidos também teriam de fazer face às suas responsabilidades no tráfico de pessoas e na colonização de territórios ocupados pelas populações indígenas americanas. E Portugal também teria de assumir as suas responsabilidades. Se ler bem o artigo, poderá ver que o historiador também fala das responsabilidades políticas dos Estados Unidos, não apenas de Portugal. Foi todo um conjunto de países que beneficiaram dum comércio de seres humanos… todos deveriam ser responsabilizados.

  1. Mais uma vez surge a moralidade a encobrir a imoralidade. Qual a diferença entre a escravatura das grilhetas e a escravatura do desrespeito pelos direitos humanos para aqueles que hoje em dia vivem no gueto vendo oportunidades iguais serem ocupadas pela cor e não pela competência, veja-se durante uma rusga quem preferencialmente é detido , e mais escravatura encapotada que grassa nesse país defensor dos” direitos e liberdades”, isto para não falar do extermínio dos AMERICANOS , sim porque os que hoje usam esse nome não são mais que descendentes dos deportados e emigrantes. Tenham vergonha da vossa historia de extermínio e lembrem-se que se não houver comprador não há vendedor.

    • Concordo. E julgo que a maioria das afirmações também são válidas para Portugal. Lembre-se que sem vendedor não há comprador…

  2. Só quando todos os povos que em algum momento da História escravizaram alguém se comprometerem a pedir igualmente desculpa, inclusive aqueles que escravizaram Portugueses ou proto-Portugueses…

  3. Qual será o objectivo desta notícia? Será que fundações americanas ligadas a afro-americanos (Fundação Obama ?) se estão a preparar para exigir indeminizações aos portugueses?

  4. “mudam-se os tempos, mudam-se os homens”… não sejam ridiculos! Que tenho eu a ver com o que os antepassados fizeram…?

    • e não seremos capazes de nos preocuparmos com dois problemas de cada vez? será que é mutuamente exclusivo? ou nos preocupamos com as situações passadas ou apenas com as presentes? será que não é possível para Portugal reconhecer o seu papel no tráfico antigo de seres humanos e ainda assim estar comprometido em lutar contra fenómenos de escravatura nos tempos modernos? eu gostaria de pensar que sim, que poderíamos preocupar-nos com as suas situações…

  5. estes senhores que nao sabem como se promover ,e tentam com afirmaçoes que julgam ser politicamente corretas,nao vem a figura ridicula que fazem ,perante os povos europeus

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