Garcia de Orta alerta para risco de pré-catástrofe. Hospital de Loures com doentes ventilados na urgência

Giuseppe Lami / EPA

O Hospital Garcia de Orta (HGO), em Almada, apresentava, este sábado, um total de 169 doentes com covid-19 internados, dos quais 18 em cuidados intensivos. Já o Hospital de Loures tinha 187 doentes com covid-19 internados, 17 dos quais em cuidados intensivos.

A par dos 18 pacientes na Unidade de Cuidados Intensivos (UCI), 148 doentes estão internados em enfermaria e outros três estão na Unidade de Hospitalização Domiciliária (UHD).

“Hoje, dia 16 de janeiro de 2021, e em enfermaria, o hospital volta a registar um crescimento dos doentes internados positivos para a infeção por SARS-Cov-2 e a ajustar a lotação afeta à covid-19, de modo a acomodar a necessidade do número de doentes internados positivos”, referiu o Hospital Garcia de Orta em comunicado.

Na nota informativa, a unidade hospitalar indicou que se mantém uma “enorme pressão assistencial”, devido à elevada procura de doentes covid-19 e doentes não covid-19, situação que “dura há mais de 10 semanas”, o que fez recorrer o HGO “a transferências para outros hospitais do país”.

“O HGO permanece no nível III do seu Plano de Contingência, apresentando à data de hoje uma taxa de ocupação superior a 250%, relativamente ao que previa o Plano de Contingência, nomeadamente de 66 camas em enfermaria e nove de cuidados intensivos, destinadas a doentes positivos para SARS-CoV-2”, precisou a estrutura hospitalar, frisando: “Situação a manter-se coloca hospital em cenário de pré-catástrofe”.

Perante tal cenário de pressão e a elevada procura de doentes (pacientes covid-19 e não covid-19), o HGO informou que tem vindo a realizar reafetações sistemáticas de circuitos e espaços, como a conversão de camas de enfermaria cirúrgicas, em camas médicas.

“Mas as conversões de camas, necessárias no HGO, abrangem também as áreas médicas. No total, e só na última semana, o total de camas reafectadas no hospital foi de 35”, indicou a unidade hospitalar, que destacou o “elevado esforço e dedicação” dos profissionais, conduta essa, “apesar dos níveis de exaustão que revelam”, tem sido “fator determinante para assegurar as soluções adequadas aos doentes”.

Loures com doentes ventilados na urgência

De acordo com a edição deste domingo do jornal Público, o Hospital de Loures tem estado sob enorme pressão, com quase metade das camas com doentes com covid-19 e uma taxa de ocupação “acima dos 240% há vários dias”. Neste sábado, já havia pacientes “com ventiladores no serviço de urgência a aguardar vaga” em cuidados intensivos.

O cenário é descrito pelo presidente do conselho de administração do Hospital Beatriz Ângelo (Loures), Artur Vaz, que diz que já se vive “um cenário de catástrofe” naquela unidade hospitalar.

Este sábado, o hospital tinha 187 doentes com covid-19 internados, 17 dos quais em cuidados intensivos.

“Estamos a esticar os recursos até rebentarem. E estamos muito perto disso”, avisa Artur Vaz, explicando ao diário que a unidade de pediatria já foi ocupada com doentes não covid adultos e que o hospital transferiu doentes para o Porto, para o Algarve e para hospitais privados.

“Isto já não é uma situação de pré-catástrofe, é de catástrofe“, afirmou.

O Hospital de Santa Maria, na capital, já se encontra em “máxima sobrecarga”. Segundo Daniel Ferro, presidente do conselho de administração do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte, “a capacidade do sistema está próxima, muito próxima do limite” e o “plano de contingência já foi esgotado”.

Situação dramática no Hospital de Cascais

Este sábado, Ricardo Baptista Leite, médico especializado em infecciologia, deputado e vice-presidente da bancada do PSD,fez uma publicação no Twitter sobre a situação vivida no Hospital de Cascais, onde se encontra a fazer trabalho voluntário como médico desde o início da pandemia

Nunca vi tanta gente a morrer em tão curto espaço de tempo como nestas 12 horas de urgência. Porra para isto!”, escreveu.

“Absolutamente insustentável”

O presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública, Ricardo Mexia, considerou, este sábado, “absolutamente insustentável” a situação vivida atualmente em Portugal na prestação de cuidados de saúde no âmbito da pandemia da covid-19.

É absolutamente insustentável o que se está a passar na prestação de cuidados, é uma situação dramática. Acho que é essa a descrição possível”, afirmou o médico em declarações à Lusa, lembrando que, “infelizmente os alertas dos hospitais e de todos os envolvidos não são de agora, [já vêm] até [de] antes do Natal”.

No dia em que Portugal contabilizou dois novos recordes diários relacionados com a pandemia — 166 mortes e 10.947 novos casos em 24 horas — alguns hospitais alertaram estarem em rutura.

Para o presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública, “não é surpreendente que haja de facto pressão”. “O que acontece é que estamos a atingir um nível insustentável e isso tem muito que ver com aquilo que foi acontecendo”, afirmou.

Embora o país esteja no início de um novo confinamento, “a realidade é que na prática, olhando para a rua e vendo o que se vai passando, há de facto uma grande mobilização das pessoas na rua, etc.” e “acaba por ser difícil combater a pandemia com esta situação”, considerou.

“Eu espero que apesar disso possa haver uma redução [nos números], mas vai demorar que isso se venha a verificar, na medida em que sabemos que estas infeções que estão a surgir agora são infeções que se calhar aconteceram há uma semana”, disse.

Para Ricardo Mexia, esta pressão “enorme nos serviços” de saúde “tem que ver com aquele volume de novos casos que houve já no início do ano” e esta pressão ainda se vai manter durante alguns dias. “Temo que a mortalidade se vá agravar ainda”, referiu também.

O médico alerta que “toda a gente avisou que era importante não ter criado aqui uma sensação de que estava tudo resolvido, e, portanto, as pessoas acabaram por ter muito mais contactos no Natal e na passagem de ano”. Além disso, “era importante ter reforçado os meios em tempo útil para quando eles fossem necessários estarem já aptos a trabalhar, portanto era importante ter planeado esta resposta”.

O médico considera que “mais até do que as questões restritivas, que podem ter o seu papel, o reforço dos meios, a melhoria na comunicação e a clareza com que se dizem as coisas, isso seguramente pode melhorar”.

“Já devia ter melhorado antes, mas ainda vamos a tempo também de corrigir isso, por forma a que consigamos ser mais assertivos e mais claros, para tentar empurrar esta situação para baixo, no sentido de conseguirmos ter maior sustentabilidade naquilo que é a nossa resposta, mas de facto vão ser semanas difíceis”, afirmou.

Liliana Malainho Liliana Malainho, ZAP // Lusa

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1 COMENTÁRIO

  1. Ouve-se falar em pré-catástrofe e em catástrofe. Eu digo que já é de catástrofe que se trata.
    Tal como as coisas vão, não adianta conversa, nem apelos a requisição civil de HH privados. Podíamos ter dez milhões de camas disponíveis que isso não resolveria nada.
    A solução está em não nos infectarmos, mas parece que ninguém está interessado em ir por aí.
    Diz-se que estamos em confinamento, mas o que se vê é exactamente o contrário. Que esperam os orgãos de soberania? Têm medo de quê? De que a Economia e as Finanças batam no fundo? Tal como as coisas estão é que vão bater!
    E a polícia, que anda a fazer nas ruas?
    Considerando o povo que somos, tem que haver mão de ferro, antes que seja tarde de mais, sob pena de acontecer o que no início da pandemia previ: a “fisga” como solução…
    É mais importante obrigar a confinar e insistir na explicação dos processos de higienização/desinfecção, que têm de ser mais do que os que têm sido enunciados, do esperar que algum milagre aconteça. porque milagres não há!

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