EUA negam visto a chefe da diplomacia iraniana para reunião da ONU. “Vamos vingar-nos”, promete Irão

Michael Buholzer / swiss-image.ch / World Economic Forum

Mohammad Javad Zarif, Ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão

Os Estados Unidos (EUA) negaram um visto ao ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros, Mohammad Javad Zarif, que lhe permitiria participar numa reunião no Conselho de Segurança das Nações Unidas, em Nova Iorque, na quinta-feira.

Segundo noticiou a Reuters, citada pelo Expresso, essa informação foi avançada por um oficial americano sob a condição de anonimato. Estas declarações surgem numa altura em que aumentaram as tensões entre os dois países, depois de os EUA terem assassinado o mais importante comandante militar do Irão, Qassem Soleimani, em Bagdade.

Um acordo da Organização das Nações Unidas (ONU), de 1947, indica os EUA são obrigados a permitir o acesso ao edifício a diplomatas estrangeiros. Contudo, Washington alega que pode recusar vistos por razões de “segurança, terrorismo e política externa”.



“Vimos os relatos da comunicação social, mas não recebemos qualquer comunicação oficial dos EUA ou da ONU sobre o visto do ministro dos Negócios Estrangeiros Zarif”, declarou a missão do Irão nas Nações Unidas.

Zarif iria participar numa reunião do Conselho de Segurança na quinta-feira, sobre a manutenção da Carta da ONU. A reunião e a viagem do ministro iraniano tinham sido planeadas antes da mais recente escalada de tensões entre Washington e Teerão.

(h) Iranian Supreme Leader's Office / EPA

O general iraniano Qassem Soleimani

O embaixador do Irão na ONU, Majid Takht-Ravanchi, classificou a morte de Soleimani como “um exemplo óbvio de terrorismo de Estado”, sublinhando que “enquanto ato criminoso, constitui uma violação grosseira dos princípios fundamentais do direito internacional, incluindo, em particular, a Carta das Nações Unidas”.

No fim de semana, o alto representante da União Europeia (UE) para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, Josep Borrell, convidou Zarif, por telefone, para uma visita a Bruxelas, no seguimento dos recentes desenvolvimentos no Irão e no Iraque.

“Tendo violado gravemente o direito internacional”, com os “assassínios cobardes” de Soleimani e de um chefe da milícia pró-iraniana no Iraque, Trump “ainda ameaça cometer novas violações das normas imperativas do direito internacional” e cruzar novas “linhas vermelhas”, escreveu Zarif no Twitter. “Atacar locais culturais é um crime de guerra”.

Na véspera, Trump anunciou que os EUA haviam identificado 52 locais no Irão que atacarão “muito rapidamente e com muita força” se a República Islâmica atingir pessoal ou alvos norte-americanos. Explicou que o número escolhido de alvos corresponde ao número de americanos que foram feitos reféns durante mais de um ano, a partir do final de 1979, na embaixada dos EUA em Teerão.

Depois da indignação internacional, o secretário da Defesa dos EUA, Mark Esper, demarcou-se publicamente do Presidente, reconhecendo que atacar património cultural iraniano constituiria um crime de guerra. E garantiu: “Vamos seguir as leis dos conflitos armados”, referiu, citado pelo Observador.

Trump, contudo, reiterou as ameaças contra o património cultural iraniano no domingo, a bordo do Air Force One. “Eles podem matar o nosso povo, podem torturar e mutilar o nosso povo, podem usar bombas de beira de estrada e explodir o nosso povo, e nós não podemos tocar nos locais culturais deles? Não é assim que funciona”, afirmou.

Carta a anunciar retirada das tropas enviada por engano

Na segunda-feira, foi noticiada a retirada das tropas da coligação militar internacional liderada pelos EUA do Iraque, na sequência do voto do Parlamento iraquiano contra a presença das tropas norte-americanas no país, informou o Observador.

Mas essa informação, apresentada por carta – com o timbre do Departamento de Defesa e a assinatura do comandante das tropas americanas no Iraque, enviada pelas forças armadas dos EUA às autoridades militares iraquianas – foi negada pelo Pentágono.

“Ainda não houve nenhuma decisão de sair o Iraque”, apontou Mark Esper, sublinhando que a carta divulgada é “inconsistente” com a “posição atual do governo norte-americano”.

“Estamos a reposicionar as forças em toda a região”, confirmou, acrescentando: “Não consigo falar-vos da veracidade dessa carta e posso dizer-vos o que li. Essa carta é inconsistente com a nossa posição atual”.

Poucos minutos depois, o chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas norte-americanas, Mark Milley, explicou que a carta era verdadeira, mas supostamente não devia ter sido enviada, sendo apenas um “rascunho”. “Foi um erro de McKenzie”, disse, referindo-se ao comandante do Comando Central dos EUA, o general Frank McKenzie.

Através do Twitter, a correspondente do Washington Post em Beirute, Liz Sly, revelou que várias das suas fontes militares, questionadas sobre o assunto, lhe garantiram que as cartas-rascunho costumam ter uma marca de água distintiva, com a palavra “rascunho”.

“Também me têm dito que não é normal que os rascunhos de cartas sejam traduzidos. E este foi”, acrescentou a jornalista britânica, que publicou aquela que se supõe ser uma fotografia da versão do documento em árabe.

“Respeitamos a vossa decisão soberana a ordenar a nossa saída (…) Em respeito pela soberania da República do Iraque, e como pedido pelo Parlamento e pelo primeiro-ministro, a coligação irá reposicionar as suas forças (…) para assegurar que a saída do Iraque é levada a cabo de maneira segura e efetiva”, escreveu o comandante das tropas americanas no Iraque, William H. Seely.

Dezenas de mortos no funeral de Soleimani

Os habitantes de Kerman afluíram esta terça-feira em massa ao centro da cidade iraniana, onde vai ser enterrado Soleimani. Até agora, 35 pessoas morreram e 48 ficaram feridas na debandada, avançou o Guardian, citado pelo Diário de Notícias e pela agência Lusa.

Em Kerman, terra natal do general, centenas de milhares de pessoas, vestidas de preto E empunhando imagens de Soleimani, exigiram vingança contra os EUA.

Na segunda-feira, a polícia iraniana disse que milhões se concentraram em Teerão para prestar homenagem ao general e às restantes vítimas do ataque aéreo norte-americano em Bagdade. De acordo com a agência Associated Press, com base em fotografias aéreas, pelo menos um milhão de pessoas esteve concentrado na capital iraniana.

O enterro do comandante da força de elite iraniana Al-Quds vai realizar-se no sul do Irão, numa cerimónia presidida pelo líder supremo iraniano, ayatollah Ali Khamenei.

Irão designa forças americanas como “terroristas”

O parlamento do Irão aprovou esta terça-feira um projeto de lei para designar todas as forças e funcionários dos EUA no Pentágono e organizações afiliadas, agentes, comandantes e os que participaram no assassinato de Soleimani como “terroristas”.

“Qualquer ajuda a essas forças, incluindo militares, de inteligência, financeiras, técnicas, de serviços ou logísticas, será considerada cooperação em ato terrorista”, foi dito no parlamento. Também foi votado o financiamento de 200 milhões de euros à força de elite iraniana Al-Quds, que era comandada por Soleimani.

“Vamos vingar-nos”

Também nesta terça-feira, o líder da Guarda Revolucionária do Irão, Hossein Salami, ameaçou “incendiar” lugares próximos dos EUA, provocando gritos de “Morte a Israel!” entre uma multidão de apoiantes. “Vamos vingar-nos. Vamos incendiar os locais que [os EUA] apreciam”, disse o líder, citado pelo Diário de Notícias e pela Lusa.

Sajed.ir / Wikimedia

Ayatollah Ali Khamenei, Líder Supremo iraniano

Salami fez a promessa diante de milhares de pessoas reunidas numa praça central de Kerman, elogiando as façanhas do general Soleimani e afirmando que este, como mártir, representava uma ameaça ainda maior aos inimigos do Irão.

Este anúncio reflete as exigências das principais autoridades iranianas e também de apoiantes por toda a República Islâmica, que exigem retaliação contra os EUA.

O Irão anunciou no domingo que deixará de respeitar os limites impostos pelo tratado nuclear assinado em 2015 com os cinco países com assento no Conselho de Segurança da ONU – Rússia, França, Reino Unido, China e EUA – mais a Alemanha, e que visava restringir a capacidade iraniana de desenvolvimento de armas nucleares.

No Iraque, o parlamento aprovou uma resolução em que pede ao Governo para rasgar o acordo com os EUA, estabelecido em 2016, no qual Washington se compromete a ajudar na luta contra o grupo terrorista Estado Islâmico e que justifica a presença de cerca de 5.200 militares norte-americanos no território iraquiano.

Alemanha anuncia retirada parcial de tropas do Iraque

Um porta-voz do Ministério da Defesa alemão anunciou esta terça-feira a retirada de parte dos 30 cerca de soldados atualmente estacionados em Bagdade e em Taji, no Iraque, em missões de formação e a transferência para a Jordânia e para o Koweit, devido as tensões na região, noticiou a Lusa.

Esta deslocação de tropas vai “começar em breve”, disse o porta-voz, sem adiantar uma data ou o número exato de soldados envolvidos.

Além dos militares baseados em e nas proximidades da capital do Iraque, a Alemanha conta ainda tropas no Curdistão iraquiano, também em missões de treino das forças de segurança locais. No total, Berlim tem atualmente cerca de 120 militares no país, no âmbito da coligação internacional contra o grupo extremista Estado Islâmico (EI).

O anúncio da retirada parcial do Iraque foi já comunicada pelo Ministério da Defesa alemão ao parlamento, que autoriza todas as missões das forças armadas alemãs no estrangeiro.

Na segunda-feira à noite, numa entrevista à rádio pública, a chefe da diplomacia alemã, Heiko Maas, reconheceu que a retirada das tropas ocidentais do Iraque era “uma reflexão que todos deviam fazer” dado o atual contexto.

“Nenhum país-membro da coligação anti-EI quer ficar no Iraque se não for aceite”, acrescentou. “O parlamento adotou esta resolução, e cabe agora ao Governo decidir e é por isso que estamos atualmente a dialogar com ele”, sublinhou o ministro alemão.

ZAP ZAP //

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3 COMENTÁRIOS

    • E ainda bem…ou não?
      É que qualquer mordida de um desses cães doeria em todo o mundo….eles que ladrem muito que com isso “podemos todos bem”

      • A mordidela do Irão nunca será muito forte. Um atentado aqui, outro ali. Uma incursão pelo Iraque, um ataque a poços petrolíferos na região, um ataque a uma qualquer embaixada, um sequestro de um petroleiro. Aquilo a que já nos habituaram.

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