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EUA admitem colaborar com talibãs para enfrentar ameaça do ISIS-K

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Stringer / EPA

Possibilidade foi admitida pelo chefe do Estado-Maior Conjunto dos EUA e pode ser do interesse das duas forças, as quais vêm no ISIS-K uma ameaça.

De inimigos a potenciais aliados. É assim que está a relação dos Estados Unidos da América com o grupo extremista afegão depois de as forças ocidentais terem abandonado Cabul na passada segunda-feira, colocando fim a uma guerra de vinte anos. A hipótese está em cima da mesa depois do ataque suicida reclamado pelo ISIS-K, célula do Estado Islâmico rival dos talibãs, que matou mais de 170 pessoas, nomeadamente soldados norte-americanos, às portas do aeroporto internacional de Cabul quando estavam a decorrer os voos de retirada de civis estrangeiros e afegãos.

Esta quarta-feira, em conferência de imprensa, o general Mark Milley, chefe do Estado-Maior Conjunto dos EUA, admitiu a possibilidade, que aconteceria também na sequência da cooperação no terreno que permitiu a evacuação de mais de 124 mil pessoas.

“Na guerra temos que fazer o necessário para reduzir os riscos da missão e das forças no terreno, não o que queremos realmente fazer”, comentou o general a propósito dos últimos desenvolvimentos na relação entre os EUA e os talibãs — que continuam a ser considerados um grupo terrorista por várias nações. Milley, ainda assim, apelidou o grupo de “impiedoso” e afirmou que prefere esperar para ver se as intenções do grupo de promover uma interpretação mais moderada da lei islâmica se comprovam ou não.

A acompanhá-lo na conferência de imprensa esteve Lloyd Austin, secretário da Defesa da Administração Biden, que se mostrou mais relutante com o cenário. “Prefiro não fazer extrapolações para assuntos mais amplos”, afirmou.

Como relembra o The Guardian, os Estados Unidos transferiram a sua representação diplomática no Afeganistão para Doha, no Catar, permanecendo a dúvida sobre qual será a relação futura entre as duas forças. A ameaça do ISIS-K é vista como um potencial alvo para as duas partes, já que, de acordo com Joe Biden, os EUA procurarão vingar o ataque sofrido há duas semanas. Numa declaração oficial, o Presidente norte-americano deixou mesmo um aviso. “Ao ISIS-K: nós ainda não terminámos convosco.”

No entanto, este objetivo será mais difícil de concretizar sem forças militares ou aliados no terreno — apesar de a atual Administração defender ser possível operar uma monitorização à distância e a realização de ataques localizados. Os dois oficiais norte-americanos, antigos combatentes no Afeganistão, também agradeceram a todos os que contribuíram para a retirada de civis norte-americanos, caracterizando a operação como “a maior missão de evacuação da história americana“.

Do lado dos talibãs, uma possível cooperação com os Estados Unidos também será bem-vinda, principalmente quando o grupo luta pelo prestígio do futuro governo — e que poderá ir para além da luta contra o ISIS-K. Segundo avança o The New York Times, um dos problemas que o país poderá enfrentar nas próximas semanas é a falta de bens alimentares, que as forças americanas distribuíam com frequência pela população durante a ocupação. As filas nos bancos para levantar dinheiro são também uma realidade quotidiana face ao colapso da economia afegã ao longo das últimas semanas.

  ARM //

 

4 Comments

  1. Gostava de esclarecer uma dúvida que se refere a algo que vê e ouve por toda a parte e eu penso ser um erro de pleonasmo.

    Segundo entendi, “talib” significa estudante e “talibã” significa grupo de estudantes. Assim, “talibãs” é um pleonasmo porque está a dizer o plural do plural. Estarei a ver bem? Se assim é, devemos dizer “o talib” ou “os talibã” e nunca “o talibã” nem “os talibãs”. Será?

    • Caro leitor,
      Obrigado pelo contributo; tomando a sua informação como boa, é efetivamente um daqueles pleonasmos que (erradamente) se institucionalizam — como dizer “o Alcorão”.

    • Caro, conhecimento é sempre bom, incluindo a etimologia das palavras. No entanto a língua portuguesa tem as suas próprias regras, que não são as de nenhuma outra língua estrangeira, nem sequer as do latim. Talib não é nenhuma palavra existente ou utilizada no português. Se a palavra talibã se utiliza em português para designar alguém do grupo que agora controla o Afeganistão – e que nesse sentido também nem sequer significa estudante – o plural dessa palavra deve seguir as regras de formação de plural que qualquer palavra em português: talibã -> talibãs.
      Portanto, a origem das palavras, seja qual for, não dita regras para o português (o mesmo pode ser dito acerca de qualquer língua). Cada língua tem as suas regras e as palavras a elas se adaptam naturalmente.
      Senão o Fernando ainda fica com receio de dizer que vai ao Algarve (origem al+garb = o poente) e, no limite, de utilizar qualquer palavra que compõe a nossa língua. E de qualquer língua.

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