Dívidas de Vieira investigadas. Com falência à vista, grupo do líder do Benfica pagou viagens de luxo

Tiago Petinga / Lusa

O presidente do Benfica, Luis Filipe Vieira

Afinal, o Fundo de Resolução nunca aceitou a reestruturação das dívidas do grupo empresarial de Luís Filipe Vieira, ao contrário do que foi dito aos deputados na Comissão Parlamentar de Inquérito aos grandes devedores do Novo Banco. E está agora a investigar como é que foi feito esse plano de negócios.

O ex-vice-presidente do Benfica, Nuno Gaioso Ribeiro, afirmou na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) aos grandes devedores do Novo Banco que o Fundo de Resolução aprovou o plano de reestruturação das dívidas do grupo empresarial de Luís Filipe Vieira, a Promovalor. E o próprio Vieira também garantiu o mesmo.

Mas o Correio da Manhã (CM) apurou que, afinal, o Fundo de Resolução nunca avaliou esse plano de negócios, nem autorizou a transferência de activos do Novo Banco para o Fundo de Investimento Alternativo Especializado (FIAE).

O FIAE foi criado em 2017 para viabilizar a reestruturação de uma dívida de 144 milhões de euros da Promovalor ao Novo Banco. Os créditos do grupo empresarial foram colocados nesse fundo, maioritariamente detido pelo próprio Novo Banco e gerido pela sociedade C2 Capital Partners que é gerida por Nuno Gaioso Ribeiro.

Esse fundo foi “constituído e assinado em Setembro de 2017” quando “ainda não existia” o Mecanismo de Capital Contingente (CCA), “nem o Fundo de Resolução tinha competências para apreciar reestruturação de dívidas”, avançam fontes ouvidas pelo CM.

As mesmas fontes asseguram que “as negociações da dívida da Promovalor começaram em Abril de 2017” e que a reestruturação das mesmas foi apresentada ao Fundo de Resolução, após a venda do Novo Banco, “como um facto consumado”.

Em Julho de 2018, o Fundo de Resolução “enviou uma carta para a administração do Novo Banco” a manifestar “muitas dúvidas sobre aquele negócio, quer porque o mesmo era feito com partes relacionadas (Tiago Vieira, filho de Luís Filipe Vieira, era accionista da sociedade de Gaioso Ribeiro), quer porque a escolha da sociedade C2 Capital não obedeceu a “um processo competitivo””, aponta ainda o jornal, citando fontes próximas do processo.

Essa carta estará entre a documentação cedida aos deputados no âmbito da CPI e deverá ser analisada em breve.

Entretanto, o Fundo de Resolução tem uma auditoria a decorrer em torno da reestruturação da dívida de Vieira, como confirmou o governador do Banco de Portugal, Mário Centeno.

As dívidas do grupo empresarial de Vieira ao Novo Banco eram superiores a 400 milhões de euros em 2018. Até àquela altura, os interesses do dirigente desportivo tinham provocado perdas de 200 milhões ao banco.

Do montante global da dívida, cerca de 219 milhões referem-se a créditos reestruturados através do FIAE e 160 milhões de euros respeitam a VMOC (valores mobiliários obrigatoriamente convertíveis) que vencem este ano e que levarão o Novo Banco a tornar-se accionista da Promovalor, como atesta o Expresso.

Há ainda a contar 54 milhões de euros de dívidas da Imosteps, outra empresa do universo de Vieira, que não fizeram parte da reestruturação da dívida no Novo Banco.

Viagens de luxo em ano de falência técnica

Vieira fez questão de realçar, perante os deputados da CPI aos grandes devedores do Novo Banco, que nunca comprou iates ou aviões. Mas as contas das suas empresas, respectivamente da Imosteps e da Promovalor, revelam que estas pagaram várias viagens em jactos privados.

O Expresso cita, em particular, uma viagem de jacto privado ao Rio de Janeiro, em 2014, que incluiu na comitiva Luís Filipe Vieira, o filho Tiago e o sócio Almerindo Duarte que terá custado à Imosteps mais de 200 mil dólares.

Cerca de um mês depois, a Promovalor iniciou o processo de reestruturação da dívida no Novo Banco, acabando por entrar em falência técnica com capitais próprios negativos de 72 milhões de euros.

E a Imosteps que detém terrenos e cemitérios no Brasil entrou no vermelho em 2015, ainda segundo contas consultadas pelo Expresso.

O semanário refere ainda outras viagens, nomeadamente em 2013, quando a Promovalor pagou uma viagem em jacto privado a Londres para a final da Liga dos Campeões, tendo como convidado o então administrador financeiro do BES, Amílcar Morais Pires.

No Parlamento, Vieira foi confrontado com algumas destas viagens pagas pelo seu grupo empresarial, mas não viu mal nenhum nelas. “Mas qual é a maldade que isso tem?”, perguntou aos deputados.

Foi em 2015 que Vieira passou a controlar a Imosteps depois de a ter adquirido ao BES que tinha ficado com ela no âmbito da penhora de um devedor.

“Em 2011, a Imosteps comprou 50% da portuguesa OATA SGPS (na qual a Rioforte, braço não financeiro do grupo Espírito Santo, detinha 25%, o BES 12,5% e o BCP outros 12,5%)”, repara o Expresso. Mas em 2012, “os sócios da Promovalor adquiriram, a título individual, todas as acções da Imosteps à Inland (subsidiária da Promovalor)”, destaca ainda o semanário.

Em Abril de 2013, a Imosteps tinha um crédito de 35,1 milhões de euros no BES, mas dois anos depois esse valor já era de 54,3 milhões.

Em 2019, a empresa terminou o ano com capitais próprios negativos de 44,5 milhões de euros, ainda segundo os dados consultados pelo Expresso.

Nesse mesmo ano, os créditos da Imosteps foram adquiridos ao Novo Banco pelo fundo-abutre Davidson Kempner por 4 milhões de euros. Mas o “rei dos frangos”, o empresário José António dos Santos que é o maior accionista individual da SAD do Benfica e sócio de Vieira em negócios imobiliários, acabou por comprar essa carteira de créditos por 8 milhões de euros.

  ZAP //

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7 COMENTÁRIOS

  1. Este banco e as negociatas que se lá fizeram hipotecaram o futuro de pelo menos duas gerações vindouras, e os responsáveis andam todos a passarinhar com vidas de alto luxo, enquanto declaram palheiros e garagens como propriedades. Mas o importante é ir para a rua festejar títulos de futebol.

  2. É por isto e por outros como este que cada vez mais gente vota no CHEGA.
    É isto que a nossa « democracia «  permite.
    Cambada de bandidos

    • Calma que o Chega também os lá tem…e dos bons.
      Estes bandidos são transversais a todos os partidos, sem exceção.
      Metade dos que se metem na vida política é para arrebanharem algum ao fim de algum tempo!

  3. Nós portugueses temos a obrigação de exigir que sejam utilizados todos os meios (Rui Pinto etc.) para, o mais rapidamente possível, descobrir os CRIMES que estes fulanos cometem, e de seguida, exigir que os tribunais (juízes) acelerem as condenações devidas. Ou, caso contrário, os legisladores alterem as Leis, aumentando os prazos para que estes crimes nunca caduquem. Pois como as coisas estão o crime compensa.

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