“Divergências insanáveis”. Jerónimo diz que não vê abertura do Governo (e que é cedo para escrever memórias)

Mário Cruz / Lusa

Jerónimo de Sousa, líder dos comunistas, não se arrependeu da experiência do acordo à esquerda nos anos da “geringonça” (2015 a 2019), mas admitiu que a crise da pandemia agravou “divergências insanáveis” com os socialistas.

A menos de uma semana do XXI congresso nacional, em Loures, onde um dos temas das chamadas teses é a avaliação dessa experiência, que os comunistas apelidam de “nova fase da política nacional”, Jerónimo de Sousa disse que era importante afastar o Governo PSD/CDS.

“Fizemos aquilo que julgamos certo e que a vida demonstrou, de certa forma, que estávamos certos”, afirmou, em entrevista à agência Lusa, o secretário-geral do PCP, que admitiu dificuldades em eventuais entendimentos futuros.

Questionado sobre o que foi positivo ou negativo ao longo dos quatro anos resultado das “posições conjuntas” com o PS, Jerónimo enumerou medidas sociais, embora tenha ressalvado que se trata de conquistas “limitadas”.

As medidas positivas dadas como exemplo foram “a reposição de salários e do décimo terceiro mês, o aumento das reformas, a redução das tarifas dos transportes, uma medida de grande alcance”, neste “quadro de questões ambientais”.

De negativo, Jerónimo ressaltou que o PS “sempre, mas sempre que era confrontado com questões estruturais como a situação dos serviços públicos, não atendeu” às posições do PCP, mesmo, tratando-se de questões de emergência, como o reforço do Serviço Nacional de Saúde ou da escola pública.

Resumindo, trata-se de “valorizar o que deve ser valorizado e assumir” que há “necessidade de uma política diferente, com uma rutura com a política de direita e uma política patriótica de esquerda que resolva os problemas nacionais”. “Naturalmente, há aqui divergências insanáveis que, infelizmente se estão a agravar”, afirmou.

Para a história, Jerónimo de Sousa contou que, em 2015, nas conversações com Costa para as “posições conjuntas”, o PCP se comprometia a não viabilizar uma moção de censura, mas também que “disse ao PS que não deveria apresentar nenhuma moção de confiança”.

Jerónimo alerta que não vê abertura do Governo

Jerónimo de Sousa admitiu que, sem “fazer juízos apressados” – “até ao lavar dos cestos é vindima” – o PCP irá fazer “tudo para que o orçamento corresponda às necessidades nacionais”, “honrando a sua palavra até o fim”. No entanto, o líder comunista não vê, “neste momento”, “essa disponibilidade e garantia por parte do Governo do PS”.

“Podemos dizer que o Governo não se tem aproximado” das posições do PCP, afirmou ainda.

Os comunistas, sublinhou, fizeram “mais de três centenas de propostas” de alteração do Orçamento para o debate na especialidade, que se prolonga na próxima semana no parlamento, e a abertura dada pelos socialistas é considerada insuficiente.

“Aqui ou acolá, o Governo do PS tem procurado corresponder a esta ou aquela proposta do PCP, mas importa lembrar que o que vamos fazer é uma votação final global”, disse, para sustentar que será a “apreciação da globalidade do orçamento que determinará” a posição do partido.

Podem ter existido “duas, três, quatro propostas positivas”, mas nem o prolongamento do “lay off” pago a 100% para 2021, anunciada pelo PS e que o PCP também defendia, é suficiente para convencer o partido comunista.

 

Hoje, existe “um problema social grave não só em termos de salários”, mas também com o “lay off”, que “fez mossa na vida de quem trabalha” por “o trabalhador perder [o equivalente] a um salário” de três em três meses.

Quanto ao Serviço Nacional de Saúde, “o necessário reforço que toda a gente parece estar de acordo”, não tem, depois, “medidas concretas” que o ponham em prática.

E no plano económico “há setores muito diversos” a ser atingidos, “particularmente as pequenas e médias empresas”, enquanto, disse, há um “caráter intocável em relação aos grandes grupos económicos, que continuam de vento em popa”.

Jerónimo de Sousa acredita que “o povo e os portugueses” compreenderam a posição do PCP, ao abster-se na generalidade e fazendo depender o sentido de voto da aceitação de propostas do partido e da avaliação global que fará na votação final global, na quinta-feira.

“Continuo com mais projeto do que memória”

Jerónimo de Sousa admitiu, implicitamente, continuar como secretário-geral do PCP no congresso de Loures, e disse que ainda é cedo para escrever as suas memórias.

Eu hoje não estaria em condições de escrever um livro de memórias. Continuo a pensar que meu futuro, seja como secretário-geral seja como membro do comité central ou como militante, é ainda a olhar para frente. Continuo com mais projeto do que memória”, afirmou Jerónimo de Sousa numa entrevista à Lusa, questionado sobre os 16 anos de liderança, desde que sucedeu a Carlos Carvalhas, em 2004.

Aos 73 anos, o líder dos comunistas afirma, com um sorriso, que, apesar das leis da vida, se tem “aguentado muito bem”, mas remete a decisão quanto à escolha do secretário-geral para o comité central a eleger no XXI congresso nacional, em 27, 28 e 29 de novembro, em Loures, distrito de Lisboa.

Jerónimo não revelou o que pensa, pessoalmente, e realçou que “a vontade maior deve ser do próprio partido” quanto à escolha do secretário-geral.

Com um sorriso, comentou ser “curioso” que o atual Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, tem “praticamente” a sua idade [71 anos], e prepara-se para eventual candidatura para mais cinco anos. “E ninguém questiona a questão da sua idade. E bem”, disse.

A primeira vez que admitiu não se recandidatar à liderança, porque “é da lei da vida”, foi numa entrevista à Lusa em março de 2019, embora frisando não ir “calçar as pantufas”, mas em setembro aconselhou “uma tripla” sobre o seu futuro, “sair, ficar ou ficar mais um bocadinho”.

Passados 16 anos, destacou o facto de o partido ter escolhido um “operário metalúrgico” para líder recordou, também, quando teve de enfrentar o preconceito, devido à sua “origem social”, depois de ser eleito, em 1975, para a Assembleia Constituinte.

E emocionou-se ao recordar palavras de pessoas na rua quando lhe dão palavras de incentivo, apesar de admitirem “não sou do seu partido” ou até quem lhe diga: “Deus o guarde.”

  ZAP // Lusa

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2 COMENTÁRIOS

  1. O governo devia ter feito ao PCP o que lhe fez o Mário Soares remeteu para a sua insignificância, espero e desejo que os portugueses não se esqueçam da falta de respeito que o PCP tem para com o povo, se tivessem vergonha na cara nem a Festa do avante tinham feito espero e desejo é que o PCP não meta nem um deputado na A.R.

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