Depois de um ano “estranho e contraditório”, Marcelo quer reinventar a confiança

José Coelho / Lusa

O presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa

O Presidente da República defendeu, esta segunda-feira, que 2018 terá de ser o “ano da reinvenção” da confiança, advertindo que os portugueses precisam de ter a certeza de que, “nos momentos críticos, as missões essenciais do Estado não falham”.

Na tradicional mensagem de Ano Novo, este ano transmitida em directo a partir da sua casa, em Cascais, Marcelo Rebelo de Sousa elegeu a palavra “reinvenção” como a “palavra de ordem” de 2018, depois de um ano “estranho e contraditório”, marcado “sobretudo pelas tragédias dos incêndios”.

Depois de identificar as “reconfortantes alegrias” e as “profundas tristezas” que dominaram o ano de 2017, o chefe de Estado falou do “futuro”, exigindo que 2018 seja “o ano da reinvenção” que “é mais do que mera reconstrução material e espiritual”.

“Reinvenção da confiança dos portugueses na sua segurança, que é mais do que estabilidade governativa, finanças sãs, crescente emprego, rendimentos. É ter a certeza de que, nos momentos críticos, as missões essenciais do Estado não falham nem se isentam de responsabilidades”, exigiu.

“Se o ano tivesse terminado em 16 de Junho”, conclui ainda Marcelo, “ou tivesse sido por mais seis meses exactamente como até então, poderíamos falar de uma experiência singular, constituída quase apenas por vitórias“.

Assim não foi, porém, diz o Presidente. “Um outro ano, bem diverso, se somou ao primeiro, dominou o Verão, marcado pela perplexidade em Tancos, pesar no Funchal e, sobretudo, as tragédias dos incêndios, tão brutalmente inesperadas e tão devastadoras em perdas humanas que acabam por largamente pesar no balanço de 2017.

PSD diz que foi inegável que o Estado falhou

O secretário-geral do PSD, Matos Rosa, subscreveu o apelo do Presidente da República para a “reinvenção do país” em 2018, considerando que “foi inegável que o Estado falhou às pessoas”.

Numa declaração na sede do PSD, em Lisboa, o social-democrata considerou que o ano de 2017 “trouxe contradições” e que as “tragédias foram demasiado pesadas para que o balanço do ano seja positivo”.

Para o PSD, “foi inegável que o Estado falhou às pessoas“, o que exige “refletir sobre como o Estado, o Governo e a classe política podiam ter respondido melhor às necessidades do país”.

José Matos Rosa considerou que “Portugal podia e devia estar melhor”, frisando que o ano começa com a certeza de que “a austeridade escondida e disfarçada tem afetado áreas essenciais” como a saúde e a educação.

Na avaliação do PSD, o Governo PS “não sabe o que quer para Portugal” e não está disponível para a “reinvenção” que o Presidente da República pediu, considerando que prova disso foram as opções inscritas no Orçamento do Estado para 2018.

“Esperamos que, em 2018, o Governo socialista arrepie caminho quanto ao seu eleitoralismo. Os portugueses merecem mais do que a gestão para o imediato”, defendeu.

CDS-PP diz que “naquilo que dependeu do Governo o país não esteve bem” em 2017

“Naquilo que dependeu do Governo o país não esteve bem. No que não dependeu em grande parte do Governo, os resultados foram sendo melhores”, afirmou o vice-presidente do CDS-PP, Nuno Melo, em Braga, numa reação à mensagem de Ano Novo do Presidente.

Numa curta intervenção, quase sem se referir às palavras de Marcelo Rebelo de Sousa, o responsável do CDS-PP enumerou aquilo que o partido considerou ter corrido mal durante o ano de 2017, com destaque para o roubo de armamento em Tancos, para o “caso Raríssimas”, para os incêndios e para a nova lei de financiamento dos partidos políticos.

“Em 2017, o Estado falhou no combate aos incêndios e no apoio às vítimas, respondeu tarde e respondeu mal. Em 2017, desapareceram armas dos quartéis e percebeu-se que na Defesa há um ministro que basicamente não faz qualquer diferença. Em 2017, o terceiro setor revelou, na Raríssimas, o desperdício absurdo onde faltam meios para quase tudo, apesar de denúncias que a tutela não validou por ausência de um ministro que nega responsabilidades que todo país já percebeu”, enumerou.

“Em 2017 legislou-se também com a oposição do CDS, aprovando-se privilégios de regime de IVA para os partidos e abrindo-se a porta ao financiamento sem transparência e com menor controle das identidades públicas”, lembrou.

Por aqueles motivos, sublinhou, “2017 não foi um ano particularmente saboroso para Portugal”, embora tenham existido momentos menos negativos, mas que não aconteceram por ação do Governo de António Costa.

“Felizmente para Portugal, 2017 confirmou também uma melhoria da conjuntura económica internacional a par do saneamento das contas públicas e das reformas estruturais realizadas até 2015 e da explosão do Turismo, ajudaram a um desempenho razoável dos principais marcadores macroeconómicos”, disse.

Nuno Melo apontou ainda que 2018 começa com aumento de impostos no setor dos combustíveis e aumentos em bens essenciais, o que, segundo o CDS-PP, contrasta com os anúncios que o Governo vai fazendo.

“Quando formos capazes todos de separar aquilo que é o tratamento mediático do Governo da sua ação política da realidade que nos vai penalizando, então é uma diferença que certamente saberemos validar num momento oportuno e, esse momento oportuno, será em 2019”, referiu.

Sobre as palavras que Marcelo Rebelo de Sousa dirigiu esta noite ao país, Nuno Melo disse apenas concordar com o Presidente da República quando este dividiu 2017 em dois: “Nesse ponto de vista, eu tenderia a concordar com o Presidente da República, até grande parte do ano tivemos algumas boas noticias, infelizmente naquilo que dependeu da intervenção do Governo as notícias foram o que se viu”.

Ao Governo de António Costa, Nuno Melo deixou ainda um aviso: “O que poderão ter a certeza é que em 2018 o CDS continuará a ser uma oposição muito firme e ao mesmo tempo construtiva”, disse.

BE concorda com reinvenção do país mas adverte para necessidade de consolidar economia

“No que diz respeito, estritamente, à questão dos incêndios, é necessário perceber onde é que o Estado falhou. E o Estado falhou. É preciso retirar lições, não apenas pondo em prática aquelas que foram as leis aprovadas para o ordenamento do território e da floresta, mas também investir a sério no interior, investir a sério na proteção civil. Aí, creio, que poderemos estar a falar de um cenário de reinvenção”, disse a eurodeputada do Bloco Marisa Matias.

A antiga candidata a Presidente pelo BE, que falava na sede do partido, em Lisboa, reagia assim à mensagem de Ano Novo do Presidente da República.

“Pagámos uma fatura muito cara, muitas pessoas perderam a vida, a suas propriedades e os seus rendimentos e isso exige uma certa dose de reinvenção. Quanto mais não seja, no sentido de tentar voltar a colocar os serviços públicos de onde eles nunca deveriam ter saído”, disse a dirigente bloquista.

Marisa Matias reiterou que o Bloco considera que Portugal desmantelou a rede de serviços públicos e “os incêndios mostraram, da forma mais dolorosa, a falta que esses serviços públicos fizeram”.

“Mas, creio que há outra palavra para o próximo ano, não é apenas a reinvenção, que é a consolidação. A consolidação do caminho económico e social que está a ser feito, mas que falta ainda chegar a tanta gente (…). Estamos num país de salários baixos, de pensões baixas, em que é preciso investir nos serviços públicos. Um país com muita precariedade, muita pobreza, muita desigualdade, por isso é preciso consolidar o caminho que está a ser feito”, salientou.

A eurodeputada do BE disse ainda que a análise de Marcelo Rebelo de Sousa sobre o percurso económico percorrido por Portugal no último ano “é uma analise correta”.

PCP “tem muita confiança” nos trabalhadores

Num comentário à mensagem do chefe de Estado, Dias Coelho, membro da comissão política do comité central do PCP destacou dois pontos.

O primeiro “sobre a tragédia que assolou o país, para manifestar de novo a solidariedade do PCP para com as pessoas atingidas, mas também para dizer que há causas e causadores e que as causas decorrem de décadas de políticas de abandono do interior, de abandono da floresta”, afirmou, sublinhando “a necessidade de respostas imediatas para todos aqueles que foram atingidos pelas tragédias”.

Dias Coelho apontou que “também que são precisas medidas de fundo, políticas de fundo que alterem aquilo que ocorreu durante essas décadas”. “O PCP tem muita confiança, confiança nos trabalhadores, confiança no povo, confiança na sua capacidade de lutar e de transformar”, sublinhou

Dias Coelho referiu ainda “o caminho que tem sido seguido de reposição de direitos, de reposição de rendimentos, a necessidade de dar resposta aos problemas, designadamente do emprego, do aumento dos salários, da produção nacional, mas também das políticas sociais, no que diz respeito à saúde, à educação, à segurança social, à justiça, havendo mais médicos, mais enfermeiros, mais pessoal auxiliar nos hospitais, nas escolas, mais professores, com estabilidade de emprego, políticas que respondam às necessidades dos trabalhadores e do povo português”.

PEV sustenta que mais do que “reinvenção” é preciso “vontade política”

“Em matéria de combate às causas que contribuíram para a imensa dimensão e trágicas consequências dos incêndios de 2017 e em matéria de reforço de uma política preventiva para o futuro, mais do que criatividade e reinvenção, é preciso vontade política, garantia de meios e ação, de modo a que a mudança estrutural se dê, de facto”, é referido num comunicado do PEV.

O PEV frisa que “trabalhou incansavelmente para que se tomassem medidas legislativas e orçamentais que viessem a ter repercussão visível na floresta”, através da necessidade de estancar as imensas áreas de monocultura do eucalipto, entre outras.

Quanto à advertência de Marcelo Rebelo de Sousa de que os sucessos de Portugal na economia e finanças colocam “fasquias mais altas” no combate à pobreza e aconselham “prudência no futuro”, o PEV realça que está “profundamente empenhado nesse objetivo”. Contudo, responsabiliza a União Europeia, considerando que “não pode continuar a constituir uma força de bloqueio a esse desenvolvimento”.

O PEV destaca ainda que o Presidente da República reconheceu que as políticas do atual Governo “têm dado bons resultados na melhoria das condições de vida das pessoas e no crescimento económico”.

“Os Verdes consideram que esse facto só foi possível por se ter quebrado o ciclo da política prosseguida pelo PSD/CDS, profundamente negativo para os portugueses”, lê-se na nota do partido ecologista.

ZAP ZAP // Lusa

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7 COMENTÁRIOS

  1. É melhor falar dos aumentos monstruosos em todos os bens de consumo! Parece que isso não atinge ninguém. Apenas precisamos ser confiantes e esperar que o afeto faça face aos aumentos?
    Já parámos para pensar que os combustiveis aumentaram entre 6 e 9 centimos só em taxa?
    Assim qualquer um governa, dá-se por um lado a alguns e retira-se por outro a todos.

    • Mas afinal quais foram esses “aumentos monstruosos”?!
      Tem que parar e pensar melhor – o aumento do ISP foi de 0,9 e 0,6 cêntimos na gasolina e no gasóleo, respectivamente!!
      É certo que aumentou, mas de 0,9 para 9 ainda vai uma grande diferença…

        • Isso já é desconversar!…
          Mandas dados errados para o ar num comentário “cheio de indignação” e depois não concretizas!…
          Eu devo sentir esse aumento dos combustíveis (embora, se o preço do petróleo baixar, os combustíveis até podem descer (isso é que era!!)), mas, não estou a ver onde há esses “aumentos monstruosos em todos os bens de consumo”!!

    • O cds é a comédia nacional… nem me faça falar…
      Sabem muito mas andam a pé!
      Andam sempre a reboque, uma tristeza de partido!

      • Sim historicamente estiveram sempre colados. Simplesmente na minha opinião são quem tem mais noção da realidade neste momento. A comédia nacional acho um pouco forte. Para isso tudo o que não é PSD ou PS é a comédia nacional.

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