Cristas e Rio em debate à luz das velas. Impostos unem, regionalização separa

Rodrigo Antunes / Lusa

À luz das velas, num clima de quase romance: foi neste cenário que Assunção Cristas e Rui Rio encabeçaram o terceiro debate para as legislativas. Os cerca de 36 minutos foram suficientes para ambos os líderes evitarem a todo o custo um choque frontal.

CDS e PSD entraram a pés juntos no debate desta quinta-feira, na SIC, para deixar claro que a estratégia de ambos os partidos é ir cada um por si a eleições. Ainda assim, tanto Assunção Cristas como Rui Rio evitaram um confronto direto durante os 36 minutos de debate, moderado pela jornalista Clara de Sousa.

“O normal é os partidos irem separados. Ganhávamos qualquer coisinha [em coligação] no método de Hondt, ganhávamos dois ou três deputados. Assim marcamos a nossa identidade, não há problema nenhum”, disse Rui Rio no arranque. No entanto, o líder abriu a porta a uma coligação pós-eleitoral com o CDS.

Numa aparente indireta ao PSD, ainda que em tom suave, Assunção Cristas optou por um registo diferente, afirmando que o seu partido “fez o seu melhor nestes quatro anos para ser uma oposição muito firme” à “governação das esquerdas”, adiantando ainda que o seu partido é “o único que diz com clareza” que não fará “nenhum acordo estável com o PS”.

Ao mesmo tempo, a líder centrista decidiu recordar “com orgulho” águas passadas, sublinhando os entendimentos entre ambos os partidos, nomeadamente no tempo de Sá Carneiro e Amaro da Costa, Durão Barroso e Pedro Passos Coelho com Paulo Portas.

Os partidos de Cristas e Rio partem para eleições com sondagens que apontam valores historicamente baixos para ambos os partidos e é claro que necessitam de recuperar nas intenções de voto. Em causa pode estar a liderança do centro-direita, mas também a própria sobrevivência de ambos.

Clara de Sousa questionou a líder do CDS sobre a ambição que assumiu desde o último congresso: a de ser primeira-ministra, liderar a direita e, consequentemente, superar o PSD. Cristas não respondeu sobre as “alfinetadas” que tem dado ao partido de Rio, que num passado recente chegou a batizar como o da “colaboração” ou do “socorro” do PS.

Do lado oposto, Rio desdramatizou os ataques de Assunção Cristas à sua liderança. Em ano de eleições, é o momento de “marcar as diferenças” e isso também se aplica ao CDS. Por esse motivo, no hard feelings com a líder.

Em relação à carga fiscal, a pergunta subentendida impôs-se: quem dá mais na baixa de impostos? Os dois partidos defendem que a prioridade é a redução da carga fiscal, mas discordam em termos de números.

A fórmula do PSD é usar 25% da folga orçamental para baixar impostos, 25% para aumentar investimento, 44% para aumentar a despesa corrente e 6% para ter superavit orçamental. Assunção Cristas assume-se como mais ambiciosa: 60% da folga destina-se à baixa de impostos e 40% ao abate da dívida.

“Concordamos no aspeto essencial de baixar impostos, mas onde há convergência também há alguma divergência e para nós a prioridade é baixar impostos e é de uma forma mais intensa do que o PSD”, atirou Cristas, jogando no contra-ataque. “A nossa proposta é mais ambiciosa.”

Mas numa coisa ambos os líderes concordam: o atual Governo é responsável pela “maior carga fiscal” de sempre. Se este não é o momento para baixar impostos, afinal, quando será?

Assunção Cristas entende que o CDS não está a ser demasiado otimista na sua proposta, uma vez que admite “pequenas flutuações” caso o crescimento económico abrande mais do que se prevê. Rui Rio concorda, admitindo que se a folga orçamental não for de 15 mil milhões, “tudo será adaptado”.

Regresso às 40 horas pode custar votos?

O clima de proximidade estendeu-se à questão das 35 horas na Função Pública. Assunção Cristas sempre criticou o facto de, num só país, haver dois regimes, mas defendeu que voltar às 40 horas implicaria aumentar os funcionários públicos – e essa não é a prioridade número 1 do CDS.

“Estes dois modelos de 35 horas para o público e de 40 horas para os privados não é de uma sociedade coesa e equilibrada. Mas prioridade do CDS é baixar impostos e não reverter as 35 para as 40 horas”, disse a líder centrista, frisando que não há dinheiro para tudo.

Rui Rio mantém a discordância sobre as 35 horas, apesar de considerar que essa reversão não deve acontecer em nome da estabilidade das políticas. “Um dos males do país é vem um Governo e anula o que o outro fez e vem outro e anula o que o outro fez.”

“[Reverter as reversões] não é política em lado nenhum. Entendo que deve haver alguma estabilidade. É preferível não mexer”, rematou.

Crise dos professores. PSD diz que foi “perfeitíssimo”

Quando questionado sobre o episódio da crise dos professores, Rui Rio respondeu que “aquilo que fizemos na altura está perfeitíssimo”. “Não me enganei nada.” Para o líder social-democrata, o que aconteceu em maio “foi determinante para o resultado das europeias”.

Como o PSD sempre disse que só aprovava a contagem integral do tempo de serviço dos professores se a norma travão fosse aplicada, Rio considera que não houve erro nenhum por parte do seu partido. Já o CDS, na altura, assumiu as culpas, e este debate serviu para Assunção Cristas voltar a explicar porquê: “se não conseguimos explicar que o que tínhamos era muito claro foi um erro.”

O CDS defende que a contagem do tempo de serviço tem de ser acompanhada de uma revisão das carreiras, de uma revisão da avaliação dos professores e da questão das aposentações na carreira docente. “A posição do CDS era em pacote”, mas o partido não a conseguiu explicar na altura.

Em relação à “dramatização” de António Costa e ao facto de esta atitude do primeiro-ministro ter contribuído para a “desinformação” com propósitos eleitorais, Cristas e Rio apertam as mãos e, em harmonia, concordam.

Na regionalização, há divergências entre os partidos

Se o assunto da regionalização vier a ser debatido na próxima legislatura, fica desde já claro que há divergências entre o CDS e o PSD.

Enquanto que Rio admite ser defensor da descentralização e da desconcentração e apoiar a regionalização se for acompanhada da redução da dívida pública, Cristas rejeita com a justificação de que a regionalização significa mais despesa para o Estado.

A regionalização não consta no programa eleitoral do PSD. Ainda assim, Rio marcou a linha vermelha: só diz sim se esta for acompanhada de uma redução da despesa pública. Mas, a descentralização e a desconcentração dos serviços são uma “guerra” que o líder está disposto a comprar.

Para Cristas, regionalização significa “mais despesa do Estado, mais burocracia e mais cargos políticos, e isso não ajuda o país”. Este é um “não” transparente por parte da líder do CDS.

“Perguntas de algibeira” acenderam o debate

Assunção Cristas e Rui Rio tiveram uma surpresa por parte de Clara de Sousa: “perguntas de algibeira” que, a poucos minutos do fim, vieram acender o debate.

A líder do CDS foi questionada sobre os comentários feitos por Francisco Rodrigues dos Santos, líder da JP, sobre o despacho do Governo relativo ao uso das casas de banho escolares pelos jovens transgénero, mas Cristas recusou responder.

Na altura, a JP ameaçou recorrer à justiça se o Governo não suspendesse o despacho, dizendo que este representava “um ataque vil à liberdade de ensino e de educação, ao direito de livre desenvolvimento da personalidade dos jovens portugueses e ao direito dos pais educarem os seus filhos”.

Numa publicação no Facebook, Francisco Rodrigues dos Santos escreveu que “a escola não é um acampamento do Bloco de Esquerda”. Esta quinta-feira, Cristas não disse se se revia, ou não, no tom e nas palavras do líder da JP. Aliás, uma e outra vez, recusou responder. O assunto “não interessa às pessoas em casa” que querem saber sobre as propostas do CDS.

Já Rui Rio teve direito a uma pergunta relativa a António Capucho. O presidente do PSD não considera que a readmissão de Capucho no PSD seja uma afronta a Pedro Passos Coelho, considerando que a expulsão foi “injusta”.

“Se cortasse relações com todos aqueles com quem discordei, já não falava com ninguém”, rematou Rui Rio, elogiando o currículo “notável” e o contributo de Capucho na sociedade.

Liliana Malainho LM, ZAP //

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17 COMENTÁRIOS

  1. Chama-se isenção, neutralidade e profissionalismo, quando se tratam todos os candidatos da mesma forma.
    Neste caso, a Sr Clara de Sousa (como outros na TVI) foi….um, um… nojo, porque não encontro uma palavra mais dócil, o povo deveria estar mais atento a estas investidas, arrogância e ate falta de educação, dos que deveriam ser isentos…
    Quando foi com o costinha, a luz das velas, foi entre o candidato e os jornaalistas…
    Enfim, desejo que ganhe, mas que ganhe mesmo…

    • Concordo plenamente com o seu comentário…. conseguia-se ver o ódio nos olhos e na forma de fazer as perguntas e estar constantemente a interromper os 2 candidatos por parte da jornalista Clara de Sousa.
      No debate Jerónimo e Costa portou-se de forma muito diferente.
      Clara de Sousa baixou muito na admiração que tinha para com ela. (E não era por ela ser mulher)…

  2. Tem toda a razão em relação à comunicação social e só não entende quem estiver distraído ou pior (for burro). Infelizmente anda muita gente distraída neste país. Ou isso ou a outra opção.

    Mas a CS sempre foi vergonhosamente a favor da esquerda.
    Não foi à toa que o Sócrates, Salgados e companhia fizeram o que fizeram.

  3. Eu não sei quem falou mais… Se os candidatos se a moderadora do debate Clara de Sousa, que passou grande parte do tempo a interromper os candidatos para expressarem as suas opiniões.
    Sinceramente esta falta de isenção é inacreditável. Não sei que tipo de pressão está a ser feito, mas os media andam completamente submissos a este governo.

    • Interrompia, porque essa Clara de Sousa já há muito ano se viu que não tem pedalada. É o maior fiasco no que toca a entrevistas pré-eleitorais. Nota-se tão bem ao longo das entrevistas a sua pobreza quanto ao nível das questões que coloca e a forma repetitiva como interrompe os candidatos. Isso só demonstra a sua reles qualidade de jornalista.

  4. Um… um… um… nojo parece-me o seu comentário Albertina. Não vi nada em que se possa basear para se expressar da forma como o fez. Sabe, chama-se honestidade falarmos das coisas que se ouvem ou veem sem desvirtuarmos o seu conteúdo. Saber aceitar e conviver com as realidades, é dignificante.
    Não gosta do Costinha? Ainda bem que vivemos em democracia, e quando assim é, manda a maioria.
    Também eu não gosto do Passos Coelho nem do Portas e tive que os gramar.

  5. O Desconfiado é que é o inteligente, pena é que seja também um enorme cretino, a soldo de algum partido político que assemelha a um clube de futebol (que anda certamente a ver demais).
    É claro que os Dias Loureiros, Duartes Lima, Oliveira e Costa etc. ficaram no esquecimento, estes também fizeram o que fizeram e muito me engano ou foram todos pessoas muito importantes dentro do seu partido. Ganhe juízo homem e não diga tanta besteira junta, nem se deixe abater pelas sondagens, não fique assim tão nervoso.

    • Eh pá ! Este A.C.B.S é um geringonceiro de alto calibre. Este deve ter gostado da bancarrota Sócrates. Aquela bancarrota que hipotecou o país à Troika e que obrigou o governo seguinte e aos portugueses, a um sacrifício tão grande. Os portugueses foram todos roubados por essa bancarrota socialista, não foi por Passos Coelho. A ele e a todos nós calhou-nos a fava. Parece que este A.C.B.S. gostou dessa fava ou então sofre de amnésia grave. Fosca-se que a esquerdalhada anda por aí, outra vez.

  6. Não disseram nada que conduzisse o tele-ouvinte à reflexão sobre s problemas e rumo a dar a País.
    Cristas, porque desconhecendo a profundez da realidade portuguesa, a história política e administrativa dos últimos 100 anos, a história dos próprios partidos mais representativos da nossa democracia, não foi de estranhar a sua actuação, Aliás, como acontece frequentemente, ou não sabe do que fala, ou sabe e é politicamente desonesta.
    Mas uma coisa ela disse acertadamente, não sei se por convicção, ou por decalque: «a Regionalização significa mais despesa do Estado, mais burocracia, mais cargos políticos.»
    Quanto a Rio, parece-me que a ideia era não fazer muitas ondas.

  7. Venha o Costa para mais 4 anos! Venha também a sua regionalização para empregar o resto do partido, os poucos familiares do Carlos César que ainda não estão a mamar no Estado e para pormos todos os amigos, família e afins em cargos públicos. E depois, obviamente, haverá muito mais negociatas dos familiares dos membros do governo e dos amigos com o nosso grandioso Estado.
    Só não sei porque é que ninguém investiga a fundo a atribuição dos apoios no âmbito do atual Portugal2020, nomeadamente no domínio da formação. Seria particularmente interessante perceber por que razão entidades que praticamente não existem (ou foram criadas recentemente) têm projetos aprovados em detrimento de muitas outras com experiência assinalável. Seria de facto muito interessante perceber como é que isso é possível e como tudo funciona na realidade. Seria igualmente interessante acompanhar os dirigentes e técnicos dos diferentes programas operacionais por altura do Natal. Ouve-se um pouco por todo o lado que o Pai Natal tem sido amigo. Será tudo isto verdade ou apenas boatos? Fica a dúvida. Mas que se ouve por aí, ai isso ouve.

  8. Esta jornalista é seguramente das piores que temos aqui pelo burgo. Embora muito tacanha, penso que a criatura se julga inteligente. Lá está, quem desconhece quase tudo tende a sobrevalorizar o pouco que conhece. A ingenuidade e ignorância desta jornalista são proporcionais à imagem que faz de si própria. Como resultado temos sempre entrevistas da treta, sem capacidade de arrancar o que quer que seja aos entrevistados, sem qualquer controlo da entrevista e assumindo ela a maioria do tempo. Alguém lhe explica o que é ser jornalista? É que ainda por cima tem lá tantos colegas na SIC tão conceituados. Alguém quer perder 5 minutos do seu tempo para evitar futuros vexames como o de ontem?

    • Esta Clara de Sousa, já no debate Passos vs Costa, para as legislativas de há 4 anos, quando juntaram as 3 televisões RTP, SIC, TVI, se notou a flagrante incompetência desta jornalista. Parecia que a senhora tremia quando lhe calhava a ela colocar uma questão aos candidatos Passos e Costa e, sobretudo a banalidade de cada questão. Não sei como é que a SIC mantém esta vaidosa/convencida, neste tipo de entrevistas. Só prejudica a estação televisiva. Há lá dentro jornalistas de muito melhor qualidade. Esta não passa de um fiasco.

    • Tem toda a razão. Mas nos debates televisivos não é fácil “arrancar o quer que seja aos políticos entrevistados, já que de uma maneira geral se comportam como uma espécie de “raposas”, e só respondem ao que lhes convém…

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