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Corpos abandonados, crianças perdidas e fome: este é o cenário no norte de Moçambique

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ONGAWA Ingeniería para el Desarrollo Humano / Flickr

Baía de Pemba em Cabo Delgado, Moçambique

Alguns jornalistas que presenciaram ataques de rebeldes e sobreviveram durante duas semanas nas matas de Cabo Delgado, no norte de Moçambique, chegaram a local seguro e contaram que há muitos corpos abandonados e crianças sozinhas, perdidas no campo.

“A situação está descontrolada, há muitas crianças, sozinhas e perdidas nas matas“, referiu Beatriz João, jornalista da Rádio Comunitária São Francisco de Assis, localizada no distrito de Muidumbe.

“Cruzei-me com muitas dessas crianças enquanto caminhava quilómetros em direção a Montepuez (região onde agora se refugia)”, referiu ao Fórum Nacional de Rádios Comunitárias, que divulgou um comunicado com declarações destes jornalistas e onde anunciou estarem a salvo os nove jornalistas daquela estação que há duas semanas fugiram, tal como a maioria da população.

Contudo, muitos residentes, em número incerto, não conseguiram escapar, adianta o comunicado do órgão. A Igreja Paroquial do Sagrado Coração de Jesus “está a ser usada, nos últimos dias, como base dos insurgentes”, adiantou. “Os insurgentes abandonaram o anterior local onde estavam fixados devido ao cheiro dos cadáveres que se encontram de qualquer maneira nas ruas”, acrescentou a jornalista.

Moisés José, outro dos jornalistas que também se encontrava refugiado nas matas, referiu, citado no mesmo comunicado, que “os insurgentes capturaram inúmeras mulheres”. O jornalista contou que “uma delas foi a minha filha de 27 anos que felizmente conseguiu fugir para as matas e juntar-se a nós”, destacou.

No local onde esteve refugiado durante dias, “havia muitos corpos em fase de decomposição”, descreveu.

O terror no distrito de Muidumbe começou às 04:30 de 31 de outubro.

“Começámos a ouvir tiros por perto”, relatou Hilário Tomás, outro jornalista da rádio comunitária. Os insurgentes iniciaram as ofensivas na zona alta do distrito, onde residia a maior parte da população: Ntchinga, 24 de Março, Namaculo, Nangunde, Namacande, Muatide e Muambula.

“Quando os insurgentes se aperceberam que as comunidades estavam a fugir para zona baixa, em Miangaleua, começaram a segui-las e a matar quem encontravam pelo caminho. Fugi com a minha família e ficamos escondidos nas matas por mais de 10 dias”, resumiu.

Muidumbe foi o mais recente distrito tomado por rebeldes este ano, depois de já terem ocupado outros, durante vários dias, mantendo ainda controlo de Mocímboa da Praia, vila costeira e uma das principais da província, segundo detalha o mais recente relatório sobre o conflito, elaborado por uma comissão parlamentar.

Entretanto, o comandante-geral da Polícia da República de Moçambique (PRM), Bernardino Rafael, disse na quinta-feira que as Forças de Defesa e Segurança (FDS) recuperaram a sede distrital de Muidumbe.

A violência armada em Cabo Delgado está a provocar uma crise humanitária com cerca de duas mil mortes e 500 mil pessoas deslocadas, sem habitação, nem alimentos, concentrando-se sobretudo na capital provincial, Pemba.

A província onde avança o maior investimento privado de África, para exploração de gás natural, está desde há três anos sob ataques de insurgentes e algumas das incursões passaram a ser reivindicadas pelo grupo jihadista Estado Islâmico desde 2019.

  ZAP // Lusa

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