Gestores e BdP arrasados. CGD não foi gerida “de forma sã e prudente”

André Kosters / Lusa

A versão preliminar do relatório da comissão de inquérito à Caixa Geral de Depósitos já foi entregue aos deputados. Os gestores do banco e os supervisores são alvos de críticas.

Numa longa lista de conclusões da comissão parlamentar de inquérito, começa-se por realça a concessão de créditos ruinosos por parte da Caixa Geral de Depósitos que não se poderiam desfazer “sem causar tumulto no mercado e eventual desvalorização da própria garantia”.

Apesar dos avisos acertados da Direção de Gestão de Risco, “uma parte significativa dos riscos veio a materializar-se”, com os financiamentos à aquisição de ações a serem concedidos com “elevados níveis de alavancagem“. Além disso, apesar de terem sido detetadas irregularidades que foram devidamente reportadas ao Ministério das Finanças, não foram conduzidas diligências para as colmatar.

“A CGD colocou-se várias vezes numa situação em que ficou refém de si própria, credora e acionista dos mutuários, o que condicionava os seus direitos nos casos de insolvência”, lê-se também na versão preliminar do relatório.

As críticas estenderam-se também até ao Banco de Portugal, que “não avaliou o comportamento dos administradores, a concretização da segregação de poderes, nem a falta de discussão dentro dos conselhos, em que as propostas de cada um não eram escrutinadas pelos outros”.

A comissão parlamentar de inquérito realçou ainda uma dualidade de critérios do BdP no tratamento de dois casos semelhantes. Por exemplo, enquanto no Vale do Lobo, o Banco de Portugal escreveu cartas a exigir detalhes da operação, no BCP “não exerceu o mesmo zelo”.

O Banco de Portugal foi ainda acusado de não acompanhar os problemas detetados na Caixa, “assumindo que as suas orientações eram executadas”, apesar de muitas das vezes não ser esse o caso.

“A supervisão seguiu acriticamente as notas técnicas dos serviços do BdP, não exigindo mais informação do que aquela fornecida, demonstrando mais receio no confronto jurídico com os supervisionados do que com a possibilidade de erros ou fraudes”, lê-se no relatório, que faz um crítica aberta aos supervisores.

Créditos a Berardo

“Na concessão do financiamento de 350 milhões de euros à Fundação José Berardo, o Banco de Portugal deveria ter realizado uma análise real da instituição em vez de aceitar informação de fraca qualidade dos seus serviços”, concluiu a comissão. Caso uma análise completa tivesse sido executada, poderia ter inibido os direitos de voto e exigido contrapartidas adicionais na concessão dos créditos.

Ficou também esclarecido que foi o próprio Joe Berardo que entrou em contacto com a CGD para garantir o financiamento — e não o contrário.

Foram ainda criticados outros investimentos, como por exemplo no projeto ARTLANT, no qual foi revelada uma vontade política de realizar o investimento. No financiamento à LSB já eram conhecidas as irregularidades praticadas pelo seu CEO quando o investimento foi feito. A Caixa Geral de Depósito também entrou com 97% dos fundos para a constituição da WOLFPART, mas ficou com apenas 25% dos capital.

As maiores perdas na CGD tiveram origem durante o mandato da administração liderada por Santos Ferreira. Já os créditos mais problemáticos ficaram a cargo do vice-presidente Maldonado Gonelha e dos administradores Armando Vara e Francisco Bandeira.

“Foi evidente, nesta comissão, que a CGD não foi gerida de forma sã e prudente, na concessão de vários dos créditos analisados”, resume o relatório, ao qual o Observador teve acesso.

Recomendações

O relatório preliminar realça que “é necessário definir bem a missão da Caixa e a sua compatibilização com os princípios de regulamentação e concorrência da União Europeia”, defendendo a sua importância numa economia aberta e num país com as nossas características.

O Estado tem de desempenhar também um papel mais ativo de acionista, não bastando apenas nomear a administração e aferir os resultados quantitativos. A comissão parlamentar de inquérito critica o “absentismo” do Governo “perante o conhecimento de problemas” na Caixa.

O Banco de Portugal também deverá assumir uma atuação mais transparente na supervisão da crise financeira portuguesa. Adicionalmente, deve atentar à cultura, ao comportamento e às dinâmicas internas, que segundo estudos do FMI, são “fatos essenciais para a a responsabilização ética, a reputação dos bancos e a confiança no sistema financeiro”.

Por fim, entende-se que a reforma da supervisão deve ser definida como prioritária, sendo também de extrema importância a CGD apurar as responsabilidades dos processos ruinosos e se remediar das perdas.

ZAP //

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8 COMENTÁRIOS

  1. Posto isto e depois de se verificar responsáveis incompetentes e c/ outros afins quem fica c/ as responsabilidades das perdas ? O povo? Não está correcto que assim seja. Quem deve ficar c/ as perdas terá de ser quem estava á frente da CGD e do Banc Portugal. Só quando as situações forem assim é que se vai minimizar as fraudes, vigarices, corruptos e Roubos. Mas isto aos politicos não lhes interessa pois não? Povo deixa de votar vai ás ornas mas deixa mensagens no boletim de voto e não o voto.

  2. Pois. E de que serve tudo isto. Ninguém será condenado e situações destas continuarão a acontecer. É mais um bocado de areia para os olhos.

  3. Agora os portugueses querem ver os gestores da cgd bem com do bpd a arcarem com as dividas que permitiram que acontecessem!!!

  4. No meu entender o título deste artigo peca por ser demasiado brando, deveria ser:
    Gestores da CGD e BdP, pagos a peso de OURO, arrasados.
    Como é que continuamos a pagar fortunas a pessoas que só fazem disparates.
    Que raio de país é este?

  5. Pagos a peso de ouro e perdas a dar com um pau. Governos ocultaram quedas sucessivas , limitando-se apenas a recapitalizar a cgd. As nomeações que têm sido feitas de nada serviram deixando esta instituição a penar. Os depositantes não têm palavra , mas há muito que devia haver quem defendesse os seus interesses por meio de uma associação copm representação ao lado dos administradores.
    Mesmo o presidente só devia poder ocupar esse cargo por concurso .

  6. Pois e qual é a novidade. A CGD sempre foi (e continua) politizada. Colocaram Boys incompetentes e ignorantes a gerir a coisa e deu asneira…
    Os que estão no activo deveriam ser imediatamente impedidos de exercer funções. Os outros punidos…
    Mas, claro, a culpa vai morrer solteira…

  7. Sr Polo Morcedo com os bancos privados ,é da responsabilidade deles , mas quando há buracos o cidadão por incrível que pareça é obrigado a pagar. Basta ver a pouca vergonha que tem sido. A CGD é um, banco público . Quando as coisas não correm bem e não são poucas é o Estado que tem de lá pôr dinheiro, para o qual temos também de pagar. Deixe-se de fantasias , com essa história dos juros , comissões vergonhosas a reformados e outra restrições .

  8. As sansões existem? Depois desta incompetência ao longo dos anos e amplamente demonstrada a instituição que era credível transformou-se numa loja falida. Com a implementação de restrições muito pouco atrativas as pessoas manisfestam o desinteresse e vão abandonando. É para ser vendida ? Pelos vistos já houve essa intenção.Solução para desocupar. O Estado deixa arrastar a situação com prejuízos avultados reconhecidos e não é capaz de pôr um ponto final a fim de reverter esta forma de incompetência que nos tem prejudicado. Afinal que país é este?

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