Na Colômbia, há trapos vermelhos pendurados nas janelas. São um pedido de socorro

Mauricio Dueñas Castañeda / EPA

A pandemia de covid-19 está a assolar os países da América Latina e a Colômbia não é exceção. Com mais de 23 mil casos confirmados e 776 mortes, os colombianos vão ficar confinados às suas casas até ao final de mês.

Ficar em casa significa que muitos colombianos estão a passar dificuldidades, não tendo dinheiro para se alimentarem a si e às suas famílias. Desesperados, alguns estão a enviar pedidos de socorro atraentes: colocando tecidos vermelhos pendurados nas janelas.

De acordo com a NPR, numa favela à beira de uma montanha em Soacha, a sul de Bogotá, a capital colombiana, famílias desfavorecidas amarram ou penduram algo vermelho nas suas portas, janelas e varandas – uma camisola vermelha, um pano vermelho e até um pijama vermelho – como um sinal de socorro aos vizinhos que possam estar dispostos e capazes de lhes fornecer comida.

“[Os vizinhos] perguntam: ‘Precisa de tomate? Pegue um pouco! Precisa de cebola? Pegue a cebola!'”, contou María Mendoza, uma mulher que, antes do isolamento, vendia revistas e roupas usadas, mas agora depende de ofertas para alimentar a sua família de quatro pessoas. “E quando tenho comida extra, faço o mesmo”.

O “movimento trapo-vermelho” de Soacha, iniciado em março, foi criado pelo presidente Juan Carlos Saldarriaga, que administra a cidade com mais de um milhão de pessoas, principalmente pobres e da classe trabalhadora. Alguns foram deslocados das suas quintas e aldeias pela longa guerra de guerrilha da Colômbia. Milhares são refugiados do colapso económico da Venezuela.

Trabalhar em casa não é uma opção, uma vez que muitos ganham a vida como empregadas domésticas, guardas de segurança, motoristas de autocarros e operários. Outros vendem doces ou lavam pára-brisas para troca de reposição nos cruzamentos.

Poucos moradores têm muitas poupanças. Para convencê-los a abrigar-se, as doações de alimentos são fundamentais. “Eu sempre disse que, aqui, mais pessoas podem acabar por morrer de fome do que de coronavírus”, disse Saldarriaga, citado pelo NPR.

Saldarriaga, de 47 anos, cresceu numa casa pobre, mas formou-se na faculdade de direito e entrou na política. Assumiu o cargo em janeiro, poucos meses antes de o novo coronavírus se começar a espalhar pela Colômbia.

Saldarriaga começou a organizar ofertas massivas de alimentos em março. Até agora, a câmara municipal de Soacha entregou comida a 350.000 famílias, mas os trabalhadores da cidade só podem distribuir arroz, feijão, massa e outras provisões a 6.000 famílias por dia.

O presidente pediu aos mais necessitados que deixassem faixas vermelhas improvisadas nas suas portas e janelas como um sinal para ajuda imediata. “Não é apenas a câmara que tem de agir”, explicou Saldarriaga. “É preciso promover a solidariedade entre os vizinhos”.

Em alguns bairros de Soacha, bandeiras vermelhas estão penduradas em quase todos os prédios.

O toque de recolher de sexta-feira à noite de Soacha é uma das mais restritas medida locais da Colômbia. Até agora, Soacha registrou apenas quatro mortes por covid-19. Além disso, as doações de alimentos impediram que os moradores passassem fome.

No entanto, nem todos veem as bandeiras vermelhas com os melhores olhos. Alguns veem-nas mesmo como símbolos de uma rede de segurança social esfarrapada e de ineficiência do Governo.

“Os trapos vermelhos nos bairros pobres são como cartões vermelhos pela forma como as políticas foram implementadas durante a pandemia”, escreveu Clara López, ex-presidente da câmra municipal de Bogotá na revista Semana.

Além disso, a paciência está a diminuir entre os moradores de Soacha. Saldarriaga está constantemente a tentar acalmar os nervos daqueles que reclamam que não receberam comida e dos que querem voltar às ruas e voltar ao trabalho. Porém, com apenas 50 camas em unidades de cuidados intensivos e poucos hospitais em Soacha, Saldarriaga recusa-se a ceder.

“As pessoas dizem-me: ‘Não quero caridade. Quero voltar ao trabalho’. Mas isso seria como enviá-los para a morte“, rematou.

O “movimento do trapo-vermelho” já se espalhou para Bogotá, Medellín, Barranquilla, Florencia e outras cidades. Numa iniciativa semelhante, na Guatemala, as famílias que passam fome agitam bandeiras brancas.

ZAP //

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