Chatbots: A tecnologia que “ressuscita” os mortos é cada vez mais uma realidade

(cv) Channel 4

Cena do episódio “Be Right Back”, da série Black Mirror.

Foi recentemente revelado que, em 2017, a Microsoft patenteou um chatbot que, se construído, ressuscitaria digitalmente os mortos. Usando Inteligência Artificial e machine learning, o chatbot proposto traria o nosso ente querido de volta à vida para que a família e amigos pudessem conversar com ele.

Quando confrontados com a tecnologia, os representantes da Microsoft admitiram que o chatbot era “perturbador” e que atualmente não havia planos para o colocar em produção.

Ainda assim, parece que as ferramentas técnicas e os dados pessoais estão disponíveis para tornar possíveis as reencarnações digitais. Os chatbots de IA já passaram no “Teste de Turing”, o que significa que enganaram outros humanos, fazendo-os pensar que também eram humanos.

Enquanto isso, a maioria das pessoas no mundo moderno deixa agora para trás dados suficientes para ensinar programas de IA sobre as nossas idiossincrasias de conversação. Duplos digitais convincentes podem estar ao virar da esquina.

Mas atualmente não há leis a reger a reencarnação digital. O seu direito à privacidade de dados após a morte está longe de ser imutável e, atualmente, não há como optar por não ser ressuscitado digitalmente. Esta ambiguidade jurídica deixa espaço para empresas privadas fazerem chatbots com os seus dados depois de morrer.

Um novo estudo, publicado recentemente na revista Future Law, examinou a questão jurídica surpreendentemente complexa do que acontece com os seus dados depois de morrer.

O chatbot da Microsoft usaria as suas mensagens eletrónicas para criar uma reencarnação digital à sua semelhança depois de falecer. Esse chatbot usaria o machine learning para responder às mensagens de texto da mesma forma que fazia quando era vivo.

Se por acaso deixar para trás uma boa quantidade de dados de voz, estes também podem ser usados para criar uma voz semelhante à sua – alguém com quem os seus familiares possam falar, por chamada ou através de um robô humanoide.

A Microsoft não é a única empresa a ter demonstrado interesse na ressurreição digital. A empresa de IA, Eternime, construiu um chatbot que recolhe informações – incluindo geolocalização, movimento, atividade, fotos e dados do Facebook – que permite aos utilizadores criar um avatar de si mesmos para viver depois de morrer.

Pode ser apenas uma questão de tempo até que as famílias tenham a opção de reanimar familiares mortos usando tecnologias de IA, como a da Eternime.

Se os chatbots e hologramas póstumos se tornarem comuns, precisaremos de elaborar novas leis para os controlar. Afinal, parece uma violação do direito à privacidade ressuscitar digitalmente alguém cujo corpo está sob uma lápide onde se lê “descanse em paz”.

Corpos em binário

As leis nacionais são inconsistentes sobre como é que os dados são usados após a morte. Na UE, a lei sobre privacidade de dados protege apenas os direitos das pessoas vivas. Isso deixa espaço para os Estados membros decidirem como proteger os dados dos mortos e alguns países, como Estónia, França, Itália e Letónia, já têm leis sobre dados post-mortem.

Para complicar ainda mais as coisas, os nossos dados são controlados principalmente por plataformas online privadas, como o Facebook e a Google. Este controlo é baseado nos termos de serviço que assinamos quando criamos perfis nessas plataformas, que protegem ferozmente a privacidade dos mortos.

Por exemplo, em 2005, a Yahoo! recusou-se a dar os dados da conta de email para a família de um fuzileiro dos SEAL morto no Iraque. A empresa argumentou que os seus termos de serviço foram feitos para proteger a privacidade do soldado.

Um juiz acabou por ordenar que a empresa fornecesse à família um CD contendo cópias dos emails, abrindo um precedente legal.

Algumas iniciativas, como o Gestor de Contas Inativas da Google e o Contacto Legado do Facebook, tentaram resolver o problema de dados post mortem, permitindo que utilizadores tomem algumas decisões sobre o que acontece com os seus dados após a morte, para evitar batalhas judiciais. Mas estas iniciativas não substituem as leis.

No futuro, as empresas privadas podem confrontar famílias com uma escolha angustiante: abandonar o seu ente querido ou, em vez disso, pagar para o reviver digitalmente. O chatbot da Microsoft pode, de momento ser muito perturbador para aceitar, mas é um exemplo do que está para vir.

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3 COMENTÁRIOS

  1. Esta parece ums perspectiva interessante.
    Talvez um acordo da pessoa, enquanto viva, e a sua decisão de quem teria acesso ao seu “contacto” depois de morto, resolvesse o problema.
    Outro aspecto interessante será possibilitar a quem viver daqui a milhares de anos, saber como (bem ou mal) vivemos e pensamos hoje.

  2. Eu acho a ideia boa se essa tecnologia não for usada depois de morto, enquanto vivo, para dar aulas, suporte e algumas outras utilizações, seria óptimo.

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