Catarina Martins pede “voto útil” dos socialistas que não querem maioria absoluta

Paulo Cunha / Lusa

A porta-voz do Bloco de Esquerda, Catarina Martins

Catarina Martins defende que nas eleições legislativas o voto útil dos socialistas que não querem maioria absoluta é no Bloco de Esquerda, considerando que o crescimento do partido que lidera “pode ser o fator decisivo” para a impedir.

A líder do Bloco de Esquerda insiste na ideia de que “uma maioria absoluta é perigosa“, até “pelas experiências passadas” que Portugal teve com este tipo de resultado eleitoral, um perigo que “toda a gente reconhece”, incluindo o primeiro-ministro, António Costa. “Se há um voto útil dos socialistas que não querem maioria absoluta nestas eleições é no Bloco de Esquerda”, sugere, reiterando que “o voto útil é no Bloco de Esquerda”.

Na perspetiva de Catarina Martins, “até às eleições de 2015 ficava muito a ideia de que só se escolhia entre um Governo do PS ou um Governo do PSD”, paradigma que considera que se alterou com a atual legislatura, que mostrou que “as maiorias que são formadas no Parlamento podem determinar que programas vão para a frente”. “E, portanto, hoje o voto útil não tem a ver com a escolha de um primeiro-ministro. Tem sobretudo a ver com o equilíbrio de forças, com o equilíbrio que queremos para puxar pelo país”, aponta.



A dirigente do BE aproveita este argumento para apelar ao voto de “quem deseja que Portugal continue a avançar nas conquistas dos direitos do trabalho, de valorização de salários e de pensões, na defesa do Estado social, na defesa de investimento público”.

Aos perigos de uma maioria absoluta, para a deputada do BE, acresce o programa com que o Partido Socialista se apresenta a eleições. “O PS apresenta um programa em que diz que quer fazer investimento, mas depois com contas que não permitem o investimento, que diz que quer recuperar os salários dos funcionários públicos, mas depois, com contas que não permitem sequer recuperar a inflação”, exemplifica.

“Para nós, o tema das contas certas tem esta dupla dimensão. Por um lado, acertarmos contas com os défices que o país tem, todos eles, reais, da saúde, das pensões, dos salários, do que é preciso fazer e, por outro lado, também chamarmos à atenção para que, quando um programa promete medidas e as suas contas não batem certo, quer dizer que não vai fazer o que lá está, vai fazer outra coisa qualquer”, sustenta.

Em relação à atualização dos salários da função pública que o PS promete fazer à taxa de inflação, na perspetiva da líder do BE, se os socialistas apresentam “uma conta que não chega, quer dizer que, em vez de aumentos à inflação, vai ter cortes”. “Nós achamos que estamos a ver quais são os cortes, mas era bom que o PS falasse ao país sobre isso.”

Segundo a líder bloquista, os números do programa socialista só apareceram depois do debate televisivo que teve com secretário-geral, António Costa, uma vez que antes desse frente-a-frente “o PS nem números apresentava, remetia só para o Programa de Estabilidade”. “Existe uma ambiguidade neste programa do PS, nestes números mal explicados, que não existiu há quatro anos”, critica.

Para justificar a incongruência do PS, Catarina Martins explica que “atualizar os salários da função pública ao nível da inflação custa 345 milhões de euros” e depois os socialistas orçamentam “95 milhões de euros”.”Nós percebemos que, em vez de atualização, estamos a falar, seguramente, de cortes”, insiste.

Segundo a líder bloquista, este é o mesmo PS que diz querer “rever as carreiras especiais, o que significa que muito provavelmente enfermeiros, médicos, professores, polícias oficiais de justiça estão preparadas más notícias”, alerta.

Sobre o “outro lado” das contas certas, na visão da cabeça de lista do BE pelo círculo do Porto, “quando faltam milhões [de euros] em hospitais, não há contas certas, mesmo que depois o que vá para Bruxelas seja muito bonito”.

Pelo meio, fica outra farpa a António Costa: “Achei, em particular, muito chocante a forma como o primeiro-ministro colocou a questão”, diz Catarina Martins em entrevista à Lusa, na medida em que ele se referiu ao tema como “o último dos cortes que era preciso acabar”.

A coordenadora do Bloco afirma que “isso não é verdade, [porque] as horas extraordinárias passaram a ser pagas pela metade, quando deviam ser pagas pelo dobro”, bem como não foram repostos os 25 dias de férias. “As pessoas continuam a ter só 22 dias de férias e não ganharam mais por trabalhar mais três dias por ano”, afirma Catarina Martins, segundo a qual também foram cortadas e não repostas as compensações por despedimento.

“Quem trabalha em Portugal sabe que hoje está a ganhar menos do que ganhava [antes da troika] e vir alguém dizer que o corte sobre os salários dos cargos políticos é o último dos cortes, a mim parece-me um enorme desfasamento com a realidade, que tende a insultar quem trabalha e sabe que ainda não recuperou o seu salário”, conclui a dirigente do Bloco.

Confessando que nunca debateu com Rui Rio, mas que conhece a sua prática no Porto, Catarina Martins reconhece que fica “um bocadinho desconcertada” com o seu discurso de “‘eu penso isto, mas se for um bocadinho diferente também pode ser'”. “Não se sabe, afinal, o que o PSD pensa sobre cada matéria“, o que “torna mais difícil o debate por [haver] falta de clareza do projeto para o país”, diz.

“Rui Rio tem uma espontaneidade na conversa que é real, ele é mesmo assim e isso desperta alguma simpatia porque todos nós gostamos de estar a debater com alguém que tenha esse grau de espontaneidade”, afirma Catarina Martins.

A coordenadora do Bloco chama, no entanto, a atenção para o facto de essa espontaneidade também ter “muitas vezes uma dimensão de um certo desprezo pelo debate democrático, ou de não o considerar muito importante”. E sublinha: “isso é perigoso porque com isso vem o autoritarismo que toda a gente que viveu no Porto conheceu tão bem”.

ZAP // Lusa

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