A maioria das bruxas eram mulheres, porque a caça às bruxas servia para perseguir os fracos

Ao longo da história, “caça às bruxas” sempre foi um termo usado para ridicularizar tudo, desde investigações de agressões sexual a alegações de corrupção.

Quando nos referimos a bruxas, geralmente não estamos a falar de mulheres de cara verde com chapéus pontiagudos. Estamos normalmente a referir-nos aos julgamentos das “bruxas de Salém“, perseguições ocorridas no século XVII, no Massachusetts , no decorrer das quais 19 pessoas foram executadas sob acusação de bruxaria.

Usar o conceito de “caça às bruxas” para desacreditar alegações sem fundamento, no entanto, reflete um mal-entendido da história americana. Julgamentos de bruxas não tinham como alvo os poderosos. Por outro lado, perseguiam os membros mais marginais da sociedade – principalmente as mulheres.

A professora universitária Bridget Marshall, da Universidade de Massachusetts, investigou e escreveu vários livros onde expõe o lado mais negro da cultura norte-americana. Paralelamente, dá uma aula na faculdade sobre o assunto.

Segundo Bridget, os seus alunos rapidamente perceberam que a questão do género era algo que importava nos julgamentos das bruxas. Em Salém, 14 das 19 pessoas consideradas culpadas e executadas por bruxaria eram mulheres.

Em toda a Nova Inglaterra, onde os julgamentos de bruxas ocorreram com alguma regularidade de 1638 a 1725, as mulheres superaram em muito os homens nas fileiras dos acusados e executados. De acordo com o autor de “O Diabo em Forma de Mulher”, de Carol F. Karlsen, 78% das 344 supostas bruxas na Nova Inglaterra eram do sexo feminino.

E mesmo quando os homens enfrentavam alegações de bruxaria, era tipicamente porque estavam de alguma forma associados a mulheres acusadas. Como o historiador John Demos estabeleceu, os poucos homens puritanos julgados por bruxaria eram principalmente maridos ou irmãos de supostas bruxas.

As mulheres ocupavam uma posição precária, primordialmente impotente, no seio da comunidade puritana profundamente religiosa. Os puritanos acreditavam que as mulheres deveriam ter filhos e criá-los, governar a vida doméstica e modelar a subserviência cristã aos seus maridos. Recordando Eva e a maçã do pecado, os puritanos também acreditavam que as mulheres eram mais propensas a serem tentadas pelo diabo.

Pessoas impotentes

Como magistrados, juízes e clérigos, os homens aplicaram as regras da sociedade americana primitiva.

Quando as mulheres saíram dos papéis prescritos, tornaram-se alvos a abater. Muita riqueza poderia refletir ganhos pecaminosos. Muito pouco dinheiro podia demonstrar mau caráter. Muitas crianças poderia indicar um acordo com o diabo. Ter poucos filhos também era suspeito.

Mary Webster, de Hadley, Massachusetts, era casada, sem filhos, e contava com a caridade vizinha para sobreviver. Aparentemente, Webster não era grata o suficiente pelas esmolas que recebia: desenvolveu uma reputação de ser desagradável.

Os vizinhos de Webster acusaram-na de bruxaria em 1683, quando tinha cerca de 60 anos, alegando que trabalhava com o diabo para enfeitiçar o gado local. O Tribunal de Assistentes de Boston, que presidiu os casos de bruxaria, declarou-a inocente.

Alguns meses depois do veredito, um dos vizinhos de Webster, Philip Smith, adoeceu. Residentes perturbados culparam Webster e tentaram enforcá-la, supostamente para aliviar os tormentos de Smith. De qualquer maneira, Smith morreu. Webster, no entanto, sobreviveu à tentativa de execução.

A acusada de bruxaria Mary Bliss Parsons, de Northampton, Massachusetts, era o oposto de Webster. Ela era a esposa do homem mais rico da cidade e mãe de nove filhos saudáveis.

Mas os vizinhos consideraram Parsons uma “mulher de linguagem violenta e de comportamento dominador”, escreveu o historiador James Russell Trumbull. Em 1674, ela foi acusada de bruxaria.

Parsons também foi absolvida. Eventualmente, rumores contínuos sobre bruxaria forçaram a família Parsons a mudar-se para Boston.

Antes de Salém, a maioria dos julgamentos de bruxaria na Nova Inglaterra resultava em absolvição. Segundo Demos, dos 93 julgamentos de bruxas documentados que ocorreram antes de Salém, 16 “bruxas” foram executadas. Mas a acusada raramente saía impune. Em alguns casos, eram obrigadas a pagar multas e taxas relacionadas com o seu aprisionamento.

Opressão sistemática

Outras histórias de Salem culpam Tituba, uma mulher escravizada na casa do reverendo Samuel Parris, por ensinar bruxaria às mulheres locais. Tituba confessou “assinar o livro do diabo” em 1692, confirmando os piores temores dos puritanos de que o diabo estava a recrutar ativamente.

Mas, dada sua posição como uma pessoa escravizada e uma mulher de cor, é quase certo que a confissão de Tituba foi coagida.

Por isso, os julgamentos de bruxas não eram apenas acusações que hoje parecem infundadas. Também retratavam um sistema de justiça que fazia das queixas locais, ofensas capitais, e visava uma minoria subjugada.

As mulheres foram vítimas e acusadas nesta terrível história americana, vítimas de uma sociedade criada e controlada por homens poderosos.

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