Autor do tiroteio em Buffalo queria “matar o máximo de pretos possível” e considera-se “eco-fascista”

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Brandon Watson / EPA

O tiroteio é mais a juntar-se à lista de massacres com motivações racistas e alimentados por teorias da conspiração sobre a imigração. Este foi o 198.º tiroteio em massa nos Estados Unidos em 2022.

No último sábado, a cidade norte-americana de Buffalo foi abalada por um tiroteio em massa num parque de estacionamento de um supermercado que matou 10 pessoas e deixou outras três feridas.

Desde então, as autoridades já começaram a investigar as motivações do ataque e o FBI avança que o tiroteio foi um “crime de ódio e um caso de extremismo violento com motivações raciais”. O suspeito tem 18 anos e transmitiu o massacre online em directo, tendo depois entrado na loja e continuado a disparar, revela o The Guardian.

A polícia acredita que o assassino escolheu o supermercado especificamente num bairro onde vivem muitos negros e que escreveu também um manifesto de 180 páginas que publicou na internet onde confessou o desejo de “matar o máximo de pretos possível” e mostrou acreditar na teoria da “grande substituição”.

A teoria em questão defende que as elites políticas e económicas do Ocidente, frequentemente retratadas como sendo de origem judaica, têm um plano para “substituírem” a população branca e cristã com negros e muçulmanos através da imigração em massa e da quebra das taxas de natalidade dos cidadãos nativos.

Anteriormente vista apenas como uma conspiração de grupos de extrema-direita marginais, a teoria da grande substituição tem ganho popularidade na direita mainstream e até já foi publicamente defendida por Tucker Carlson, apresentador da Fox News cujo programa é o mais visto nos canais de notícias por cabo nos EUA.

Uma investigação do New York Times em Abril concluiu que Carlson referiu a ideia de que um grupo de elites está a forçar as mudanças demográficas através da imigração em mais de 400 programas.

O manifesto em questão também menciona preocupações com o ambiente sob um prisma “eco-fascista“, um termo que o suspeito usava para se auto-descrever. O eco-fascismo descreve uma corrente de pensamento que usa as preocupações com o ambiente como uma cortina de fumo para esconder uma ideologia racista, culpando as taxas de natalidade mais altas nos países africanos pela suposta sobrepopulação que vai levar a que não haja recursos naturais suficientes para todos no futuro.

“Durante demasiado tempo temos deixado a esquerda usar o movimento ambientalista para servir os seus próprios interesses. A esquerda contra toda a discussão sobre a preservação ambiental enquanto simultaneamente preside sobre a continuação da destruição do ambiente natural através da imigração em massa e da urbanização descontrolada, enquanto não oferece nenhuma solução para estes problemas”, lê-se no manifesto.

A transmissão em directo no Twitch do tiroteio também mostra que estava escrito um insulto contra a população negra na arma do jovem, assim como o número “14”, que se refere às 14 palavras de um conhecido lema da extrema-direita: “We must secure the existence of our people and a future for white children” — “Devemos assegurar a existência do nosso povo e um futuro para as crianças brancas”.

Já vários estudos mostraram que a imigração não é uma causa para o aumento das emissões poluidoras e que, no caso dos Estados Unidos, os estrangeiros consomem muito menos recursos do que os norte-americanos. Apesar de ser um problema maioritariamente causado pelos países desenvolvidos, as nações mais pobres vão também ser as que mais vão sofrer com as alterações climáticas.

“Grande substituição” já inspirou outros tiroteios

O conceito do eco-fascismo e a teoria da grande substituição não são conceitos novos e até já estavam presentes na propaganda nazi, mas têm ganhado mais relevância nos círculos da extrema-direita nos últimos anos e já inspiraram vários tiroteios.

Em 2019, houve um caso semelhante em Christchurch, na Nova Zelândia, quando um nacionalista branco entrou em duas mesquitas e disparou indiscriminadamente, matando 51 pessoas. O autor do tiroteio também escreveu um manifesto de 74 onde usava argumentos semelhantes para justificar o massacre.

“Os invasores são os que estão a causar a sobrepopulação do mundo. Matem os invasores, matem a sobrepopulação e ao fazerem isso estão a salvar o ambiente”, escreveu.

Também em 2019, um tiroteio em massa abalou um supermercado na cidade de El Paso e matou 23 pessoas. O culpado também escreveu um manifesto e publicou-o no fórum 8chan, que é frequentado por muitos radicais de extrema-direita, onde afirmou que o massacre era uma retaliação contra a “invasão hispânica no Texas” e que queria “matar tantos mexicanos quanto pudesse”.

Em 2018, um homem já com um histórico de anti-semitismo nas redes sociais também foi o autor de um tiroteio numa sinagoga em Pittsburgh e atirou sobre 11 pessoas. O suspeito culpava os judeus por deixarem entrar “invasores que matam as nossas pessoas” nos Estados Unidos.

O tiroteio deste fim-de-semana é o mais mortífero até agora em 2022 em solo americano. Este foi o 198.º tiroteio em massa este ano nos Estados Unidos, o que se traduz numa média de 10 ataques por semana, segundo o Gun Violence Archive.

  Adriana Peixoto, ZAP //

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