Justiça climática. Vamos todos sofrer com as alterações climáticas, mas não de forma igual

Felton Davis / Flickr

A recente onda de calor na América do Norte é mais um exemplo de que apesar de ser um problema global, as alterações climáticas não vão afectar todos igualmente e podem exacerbar injustiças sociais e económicas já existentes.

As alterações climáticas já estão a fazer estragos um pouco por todo o mundo, entre as recentes cheias no norte da Europa e na China ou a onda de calor e os incêndios na América do Norte. Já dizia George Orwell que se todos os animais são iguais, há alguns mais iguais que outros, e esse parece ser o caso quando o assunto é quem vai sofrer mais com as alterações climáticas.

No mundo inteiro, mais de 166 mil pessoas morreram em ondas de calor entre 1998 e 2017, de acordo com a Organização Mundial da Saúde. Isto torna o calor uma das maiores causas de morte dentro dos desastres relacionados com o tempo. No entanto, o seu impacto continua a ser muitas vezes subestimado, já que as certidões de óbito geralmente registam a causa de morte sem referir a associação ao calor extremo.

As ondas de calor mais fatais costumam ocorrer em cidades com um clima temperado que são inesperadamente expostas a temperaturas extremas, como aconteceu em Paris em 2003, quando morreram 14 mil pessoas. A recente onda de calor na costa oeste dos EUA casou também 116 mortes só no estado do Oregon.

Para ajudar a reduzir o risco de insolação, os planeadores urbanos, climatólogos e meteorologistas estão a trabalhar para identificar as zonas mais vulneráveis. As pesquisas mostram que as minorias étnicas e comunidades pobres vão ser desproporcionalmente afectadas por ondas de calor, especialmente nos Estados Unidos.

Esta diferença explica-se pelo redlining, uma práctica histórica nos EUA e no Canadá que barrava a compra a negros em comunidades mais desenvolvidas e que segregou as minorias a zonas urbanas mais pobres. O termo foi criado pelo sociólogo John McKnight nos anos 60 visto que o governo desenhava uma linha vermelha no mapa à volta dos bairros onde não iam investir devido aos dados demográficos.

Mas o legado do redlining vai para além da discriminação no acesso à habitação. Os efeitos desta política no crime já eram conhecidos, devido à concentração de comunidades negras em zonas mais pobres e também com a maior probabilidade de envenenamento por chumbo, que está associado a atrasos cognitivos e delinquência.

O jovem Freddie Gray, cuja morte às mãos da polícia em 2015 motivou protestos e motins em Baltimore, é um exemplo mediático de intoxicação por chumbo associada ao redlining. Os efeitos destas políticas racistas ainda se sentem hoje em dia, visto que muitas das grandes cidades norte-americanas continuam extremamente segregadas, e notam-se correlações entre as comunidades mais pobres e com menores esperanças de vida e as zonas onde vivem mais negros.

 

Apesar das ondas de calor também afectarem as zonas rurais, as cidades geralmente sofrem mais. Isto acontece por causa do efeito de ilha de calor urbano, visto que os materiais de que são feitas as ruas e os edifícios causam um aumento de temperatura maior do que áreas mais frondosas.

Muitas das comunidades onde vivem minorias aquecem mais por estarem em zonas com muito asfalto, enquanto a população branca geralmente beneficia da proximidade de zonas verdes e parques. “É muito chocante. Temos de nos perguntar porque é que estes padrões são tão consistentes e universais“, revela a cientista Angel Hsu, da Universidade da Carolina do Norte, à Nature.

A cientista do clima gere um grupo que analisa dados para soluções climáticas e o racismo que determina quem sofre mais com o calor ficou claro. Num dos maiores estudos até agora que avaliou as diferenças na exposição ao calor nos EUA, a equipa de Angel Hsu combinou as medidas de satélites sobre as temperaturas urbanas com os dados demográficos dos Censos em 175 cidades americanas.

Já se esperavam grandes diferenças, mas Hsu ficou chocada. Em 97% das cidades, as minorias foram expostas a temperaturas um grau mais altas, em média, do que as comunidades brancas. “Temos provas sistémicas e difundidas do racismo ambiental relativo à exposição ao calor urbano. Não achava que fosse basicamente universal”, afirma.

Um outro estudo de 2018 mostrou que as temperaturas nas áreas separadas nos mapas do redlining são em média 2.6 graus mais altas em 108 áreas urbanas nos Estados Unidos, como resultado de decisões como construir auto-estradas e zonas industriais nas comunidades de minorias étnicas.

As comunidades hispânicas nos EUA estão também expostas a mais poluição aérea do que aquela que produzem, ao contrário da população branca, que respira ar de melhor qualidade apesar de ser mais poluidora, de acordo com um estudo de 2019.

Uma investigação de 2017 concluiu também que as comunidades negras que vivem nas zonas na costa do sul dos EUA estão sob um risco desproporcional de sofrer com o aumento do nível das águas do mar.

As desigualdades raciais também se traduzem em menos recursos para lidar com as alterações climáticas. Mais de 30% dos negros de Nova Orleães não tinha carro para poder evacuar quando o Furacão Katrina atingiu a cidade em 2005, de acordo com um estudo de 2008. A população negra da cidade caiu depois do Katrina, pois muitos residentes não tinham condições económicas para regressar à cidade.

De acordo com a socióloga ambiental Dorceta Taylor, o mundo do activismo climático tem sido dominado historicamente por homens brancos, citada pelo Washington Post. Um estudo de 2014 da Iniciativa pela Diversidade Verde mostrou que só 12% dos membros das fundações e organizações não-governamentais ambientais pertenciam a minorias.

Um problema global

Mas dada a escala planetária das alterações climáticas, este não é só um problema nos Estados Unidos. No Qatar, muitos imigrantes que trabalham na indústria da construção morreram por falhas cardiovasculares causadas por golpes de calor. Cerca de 6500 imigrantes que trabalham na preparação do Mundial de 2022 no país já morreram.

Já em Banguecoque, capital da Tailândia, um inquérito a 505 residentes realizado durante a estação quente em 2016 concluiu que as pessoas com rendimentos mais baixos tinham uma maior probabilidade de sofrer stress térmico do que quem vive com rendimentos mais altos.

Em Madagáscar, mais de um milhão de pessoas estão a sofrer com aquela que está a ser considerada a primeira escassez de alimentos na história moderna causada pelas alterações climáticas. Em resposta à fome, um executivo das Nações Unidas afirmou que uma “área do mundo que em nada contribuiu para as alterações climáticas” está agora a “pagar um preço alto”.

Muitos países em desenvolvimento estão a sofrer bastante com as consequências das mudanças no clima, apesar de não serem os principais poluidores. Uma estudo deste ano concluiu que os dez países que mais devem sofrer os impactos são: Singapura, Ruanda, China, Índia, Ilhas Salomão, Butão, Bostwana, Geórgia, Coreia do Sul e Tailândia.

A crise climática também está a exacerbar a desigualdade entre homens e mulheres. De acordo com dados das Nações Unidas citados pela BBC, 80% das pessoas que tiveram de se deslocar devido ao clima eram mulheres.

Há já algumas estratégias de combate às desigualdades sociais que a crise climática está a expor. Muitas cidades nos EUA estão agora a ter em conta a igualdade térmica no planeamento urbano ao pintar os telhados de branco ou plantar mais árvores em zonas que tinham sido historicamente discriminadas. Há também metrópoles a dar apoios financeiros a residentes para ajudar a pagar as contas energéticas no Verão.

Uma abordagem é manter parques abertos mais horas durante ondas de calor, para que as pessoas que vivem em casas mais quentes possam ir a um lugar mais fresco. Na Índia, em Ahmedabad, começaram a enviar alertas públicos quando as previsões da temperatura ultrapassassem os 41 graus depois de uma onda de calor em 2010. Um estudo concluiu que a estratégia salvou em média 1190 vidas por ano.

Já em Paris, há um programa para tornar os recreios das escolas públicas em lugares de refresco, em especial nos subúrbios, onde vivem mais minorias raciais.

Os recentes fenómenos extremos, como as cheias na China e no Norte da Europa e os incêndios em Itália ou nos Estados Unidos, têm posto a nu as desigualdades sociais e económicas das vítimas das alterações climáticas a uma escala global. Resta saber se os líderes mundiais vão conseguir unir-se para reverter esta tendência.

AP, ZAP //

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2 COMENTÁRIOS

  1. “No mundo inteiro, mais de 166 mil pessoas morreram em ondas de calor entre 1998 e 2017, de acordo com a Organização Mundial da Saúde. Isto torna o calor uma das maiores causas de morte dentro dos desastres relacionados com o tempo. No entanto, o seu impacto continua a ser muitas vezes subestimado, já que as certidões de óbito geralmente registam a causa de morte sem referir a associação ao calor extremo.”

    Daqui a uns anos, vai aparecer algo idêntico, mas sobre mortes de COVID, que por acaso, até nem eram :/

  2. Nos USA deve haver muitas mortes devido ao chumbo, tantas armas e tantos atiradores! Países considerados mais afetados embora não sendo os mais poluentes, há que ter em conta que serão dos mais populosos e onde o controlo de natalidade não existe e esse é o fator mais importante no desequilíbrio do ecossistema, portanto culpados não faltam, uns porque poluem demais, outros porque são demais a poluir.

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