Austeridade em Portugal neutralizou efeitos positivos das reformas

José Sena Goulão / Lusa

Carlos Moedas, Vítor Gaspar

Carlos Moedas, Vítor Gaspar

Um estudo de um instituto económico alemão conclui que os cortes aplicados em Portugal, Espanha e Itália “neutralizaram em parte” os efeitos positivos das reformas estruturais e afundaram as economias em recessões duplas.

Segundo um estudo do DIW, Instituto de Investigação Económica alemão, publicado com o título “A austeridade foi contra-produtiva para Espanha, Itália e Portugal“, uma combinação de políticas mais equilibrada teria sido mais benéfica para os países atingidos pela crise da dívida.

“As diversas medidas de austeridade e de subidas de impostos aplicadas a partir de 2010 não reduziram a dívida soberana em Portugal, Espanha e Itália como estava previsto”, refere o estudo.

Pelo contrário, estas medidas estão “entre as forças que levaram estas três economias de novo para a recessão“, fenómeno conhecido também como recessão secundária.

Os economistas do DIW sublinham que o fracasso das políticas aplicadas em muitos países da Europa não se deveu tanto à falta de vontade reformista dos governos, mas ao efeito prejudicial que tiveram sobre estas medidas os cortes “dramáticos” e as subidas de impostos.

O estudo explica que o endurecimento das condições financeiras forçou as famílias a dedicar uma maior proporção dos recursos a pagar as hipotecas.

A queda do rendimento disponível prejudicou consequentemente o consumo das famílias e, em seguida, o Governo “aumentou os impostos e cortou gastos, o que só amplificou o efeito” depressivo sobre a economia, diz Mathias Klein, um dos autores do estudo.

“A forte queda do consumo privado reduziu o Produto Interno Bruto (PIB) e elevou a já de si elevada taxa de desemprego”, adianta o economista.

A austeridade ampliou os efeitos da recessão, reduzindo o potencial produtivo a longo prazo, já que estimulou o desemprego, já elevado devido à crise (especialmente o desemprego de longa duração), e desincentivou o investimento em investigação e desenvolvimento, afirma o texto.

Tinha sido preferível ter procurado uma recuperação “muito lenta”, assegura Philipp Engler, coautor do estudo, defendendo que “a consolidação orçamental não tem oportunidades de êxito num ambiente assim”.

“Uma combinação mais equilibrada de medidas, com ajustamentos orçamentais moderados, reformas estruturais e uma aposta orçamental no investimento” teria tido um efeito mais positivo sobre a economia, conclui Engler.

O Deutsches Institut für Wirtschaftsforschung, ou simplesmente DIW Berlin, é um dos mais conceituados institutos de investigação em Economia da Alemanha. Fundado em 1925, é uma organização académica sem fins lucrativos dedicada à investigação e a aconselhamento político.

  ZAP // Lusa

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7 COMENTÁRIOS

  1. Estes dois são casos de CASSA ÁS BRUXAS. Precisamos de fazer uma purga tipo Turquia aos indivíduos que dizem que governaram e agora notasse que só fizeram asneiras demonstrando uma completa ignorância sobre politica. Devia ser presos e não só eles note-se.

  2. Eles deviam explicar, como é que no meio de tanta austeridade, onde neutralizaram tudo e todos (?)houve quem conseguisse retirar do país para offshores, sem pagar impostos, 10.000 milhões de euros.
    Empresas e, pasme-se, simples contribuintes!
    Será que a austeridade tinha também esse objectivo?

  3. Isto acaba por constituir apenas uma semi-novidade, pois todos sentimos na pele os efeitos dessa estratégia economica assente na austeridade sem limite e no empobrecimento.
    Sendo certo que a austeridade por vezes afigura-se necessária, ela nunca deve ser aplicada nos moldes em que foi no período de 2011/2015. Uma austeridade sem critério, absolutamente “cega”, que gerou grave retracção no consumo, quebra de rendimento e empobrecimento, não produzindo efeitos na quebra da divida nem tão pouco na “travagem” recessiva que, pelo contrário, ainda agravou. É do senso comum, que uma austeridade desmesurada (que no caso do governo anterior foi muito álem do acordado com a troika) só poderia ter este efeito.
    Haverá sempre uns quantos que com ela concordam, basicamente serão aqueles a quem a austeridade não bateu á porta e ainda se deram ao luxo de meter 10 mil milhões fora daqui, aos quais se juntam uns quantos bem posicionados na sociedade e sobretudo bem informados.

  4. FINALMENTE os alemães chegaram às mesmas conclusões que nós na universidade tínhamos chegado à pelo menos dois anos e quando as publicamos fomos acusados de sermos um grupo de esquerdistas

  5. Infelizmente, já muitos portugueses tinham esta noção, pena que nenhum deles era governo, e todos eles eram contribuintes, mas não acredito que tanto ilustre governante fosse tão incompetente, acredito simplesmente que fabricar crise é necessário para mais rapidamente fazer movimentar o capital e os bens imóveis das mãos de muitos, para as mãos de poucos.

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