Ásia. Do continente mais pobre do mundo a uma potência económica global

Em 2050, a Ásia terá um significado económico e político no mundo que seria muito difícil de imaginar há 50 anos.

Se recuarmos a 1820, o cenário asiático era muito próspero. O continente representava dois terços da população mundial e mais de metade da receita global. Mas a aparente ascensão sofreu um declínio, depois de a Ásia ter integrado uma economia mundial moldada pelo colonialismo e impulsionada pelo imperialismo.

No final da década de 1960, a página virou e o que se seguiu foi muito mais negro – a Ásia era o continente mais pobre do mundo em termos de receita e os seus indicadores sociais de desenvolvimento (os piores de todos) resumiram o seu subdesenvolvimento. Caíra sobre o continente um profundo pessimismo em relação às suas perspetivas económicas.

Mas tudo mudou. Volta-se novamente a página e inicia um novo capítulo que conta, desta vez, a profunda transformação em termos de progresso económico e de condições de vida da Ásia. Deepak Nayyar, professor de Economia na Jawaharlal Nehru University, na Índia, revela que, em 2016, o continente representava 30% da receita mundial, 40% da manufatura global e mais de um terço do comércio mundial.

A transformação foi desigual entre países e entre pessoas, mas, mesmo assim, prever esta mudança exigiria uma “imaginação muito descontrolada”, escreveu Nayyar num artigo assinado no The Conversation. Aliás, esta transformação económica asiática num curto espaço de tempo é quase sem precedentes na História mundial e é analisada ao pormenor no novo livro do professor de Economia, Resurgent Asia.

Devido ao tamanho e à diversidade do continente, Nayyar dividiu a Ásia em quatro sub-regiões: Leste, Sudeste, Sul e Oeste. A leste analisou a China, Coreia do Sul e Taiwan; Indonésia, Malásia, Filipinas, Singapura, Tailândia e Vietname no sudeste; Bangladesh, Índia, Paquistão e Sri Lanka no sul; e Turquia na Ásia Ocidental. O Japão não surge incluído no estudo porque é um país de alto rendimento, industrializado há já 50 anos.

Houve diferenças marcantes entre os países em tamanho, histórias, legados coloniais, movimentos nacionalistas, condições, dotações de recursos naturais, tamanho da população, níveis de rendimento e sistemas políticos. Além disso, a dependência de mercados, o grau de abertura das economias e a política variaram bastante entre países e ao longo do tempo.

Mas apesar de toda a diversidade, existem padrões discerníveis comuns. O crescimento económico impulsionou o desenvolvimento. As crescentes taxas de investimento e poupança combinadas com a expansão da educação foram os fatores subjacentes. O crescimento foi impulsionado pela rápida industrialização, muitas vezes liderada por exportações e mudanças na composição da produção e emprego. Foi apoiado por políticas económicas coordenadas, não ortodoxas, onde e quando necessário, entre setores e ao longo do tempo.

Começou a sentir-se o desenvolvimento, à medida que as taxas de alfabetização e a expectativa de vida aumentavam por toda a Ásia. Houve também uma redução maciça da pobreza absoluta.

Mas a escala de pobreza absoluta ainda persiste. Aliás, segundo o académico, a redução da pobreza poderia ter sido muito maior, exceto pela crescente desigualdade entre pessoas dentro dos países.

O importante papel dos governos

A abertura económica desempenhou um papel muito importante de apoio ao desenvolvimento asiático. A política comercial era liberal para as exportações, mas restritiva para as importações, conta Deepak Nayyar. As políticas do governo em relação ao investimento estrangeiro foram moldadas pela política industrial na busca dos objetivos de desenvolvimento nacional.

Na transformação económica da Ásia a meio século, os governos desempenharam um papel vital. Os estados em desenvolvimento na Coreia do Sul, Taiwan e Singapura coordenaram políticas entre os setores ao longo do tempo, em busca dos objetivos nacionais de desenvolvimento e conseguiram tornar-se nações industrializadas em apenas 50 anos.

A China emulou esses estados de desenvolvimento com muito sucesso, e o Vietname seguiu o mesmo caminho duas décadas depois, uma vez que os dois países têm fortes governos comunistas unipartidários.

Por sua vez, a Índia, Indonésia, Malásia, Tailândia, Bangladesh e Turquia, conseguiram desenvolver alguns arranjos institucionais, ainda que menos eficazes, propícios à industrialização e desenvolvimento.

A ascensão da Ásia representa o início de uma mudança no equilíbrio do poder económico no mundo e uma certa erosão no domínio político do Ocidente. O futuro será moldado em parte pela maneira como a Ásia explora as oportunidades e enfrenta os desafios e pela evolução da difícil conjuntura económica e política no mundo, considera o professor de Economia.

  ZAP //

PARTILHAR

37 COMENTÁRIOS

  1. “As crescentes taxas de investimento e poupança combinadas com a expansão da educação foram os fatores subjacentes”. O investimento na educação é um investimento a médio e longo prazo, algo que os governantes portugueses têm sido incapazes de fazer. Os nossos governantes fazem política para as próximas eleições. Os resultados têm que ser rápidos, assim, a educação nunca é uma prioridade. Os poucos que não seguiram este princípio de política para a reeleição não aguentaram mais do que um mandato.

  2. O progresso economico e tecnológico da China é espantoso e, se conseguirem alcançar o bem-estar geral da população, será o sucesso total, a prova real q o comunismo é uma forma de política de governo sustentável e desejável para o “terceiro mundo”, para acabar com a miséria, a pobreza e a desigualdade que as provoca.

    • É apenas uma ditadura brutal, sem qualquer espaço para as liberdades individuais!
      E lá não falta miséria e pobreza – além de ter, talvez, as maiores desigualdades sociais do mundo!…

    • Hum… O princípio seguido na RPC é “Um País, Dois Sistemas”. Por isso a realidade não é tão linear. Talvez não haja soluções perfeitas e talvez seja um erro colocar as ideologias à frente do pragmatismo. Sem dúvida, os chineses parecem ser bastante pragmáticos.

      • Isso refere-se apenas a Macau e Hong Kong (Taiwan?!); nada tem a ver com a China “continental” onde o sistema é só um: ditadura “social-fascista” onde as pessoas valem pouco mais do que nada!!

        • Taiwan é outro país, República da China e não é comunista.
          Já não ouvia a expressão “social-fascista” desde os tempos do PREC! 😀
          Mas tem razão quanto ao resto. Basta lembrar Tiananmen 1989.

          • Sim, eu sei – mas a China acha que não!…
            E tem feito tudo para “deitar a mão” a Taiwan, usando a sua cada vez maior influência ($$$), tem conseguido fazer com que, cada vez menos países reconheçam Taiwan como país independente!
            Por exemplo:
            “Só 17 países resistem à China e mantêm relações diplomáticas com Taiwan”
            dn.pt/edicao-do-dia/22-ago-2018/so-17-paises-resistem-a-china-e-mantem-relacoes-diplomaticas-com-taiwan-9744400.html
            .
            A China é a China e é difícil de catalogar – mas é algo entre “ditadura social-fascista” e “capitalismo de Estado”!!

  3. Incomoda assim tanto? É um facto. o comunismo perfeito seria q todos fossem capitalistas e vice-versa. Com riso de cinismo ou sem, a evidência está lá.

    • O facto é que a China, de comunismo, tem pouco mais do que nada!!
      Basta ver que os trabalhadores são quase escravos sem direitos sequer à opiniao.
      Se não há democracia, nunca pode haver comunismo, já que tal como o nome indica, a comunidade tem que participar nas decisões.

      • “Basta ver que os trabalhadores são quase escravos sem direitos sequer à opiniao.”
        E como é que tu pensavas que era no Leste da Europa?! Pensas que andavam por lá a apregoar o que lhes ia na alma?!
        E ainda te digo mais uma: o belo estado comunista podia lembrar-se um belo dia de te enfiar em tua casa mais 4 ou 5 marmelos que passariam de ora em diante a viver contigo! E tu só podias aceitar. Vai à República Checa, à Eslováquia, a Ucrânia, à Hungria, Bulgária e ouve as muitas lindas histórias do belo comunismo.
        E tinhas senhas para o pão, que obviamente não dava para todos. E pela frente uma enorme fila enorme. Tenhos muitos amigos atuais que viveram nos tempos difíceis do bloco de leste e felizmente viram o muro cair.
        O problema destas coisas é que anda aqui muito comentador de bancada que não percebe nada do que diz.

        • Deves estar a fazer confusão… alguém aqui disse o contrário disso?!
          Esses, tal como a China, de comunismo tinham pouco ou nada!…
          Eram apenas regimes totalitários (Estalinismo, etc) – o que acaba por ser oposto do comunismo!!
          .
          Há comentadores que não sabem o que dizem e há outros que não sabem ler/interpretar o que os outros dizem!

  4. Os tugas adoram falar sobre aquilo que não sabem. Aposto que os comentadores aqui nunca colocaram os pés na China nem nunca lá viveram. Mal conhecem a Tugalândia, enfim.

    • Tem razão, a avaliar pelos comentários aqui largados os comentadores a única coisa que conhecem da China são as lojas e restaurantes chinos presentes em portugal e ainda assim se calhar mal.
      Uma única cidade chinesa tem quase mais habitantes que a península ibérica. Etnias, línguas e dialectos tem mais que toda a europa ocidental toda. Políticamente a china é uma desconhecida para os tugas mas são todos treinadores de bancada que como diz se calhar nunca pisaram solo chinês.

    • Outro “iluminado”!… agora, para se comentar sobre determinado país, tem que se ir (ou viver) lá?!
      Há uma coisa chamada cultura (e educação) que ajuda – um dia pode ser que alguém tas “apresente”!…
      E logo na China, onde não é difícil alguém no exterior saber mais da China do que os próprios chineses que, coitados, só sabem o que o grande líder do partido quer que eles saibam…
      Provavelmente também não sabes mas, na China, o Google, o Youtube, a Wikipedia, o Twitter, o Facebook, a Netflix, a CNN, o Le Monde, etc, etc, são proibidos e estão bloqueados!!
      .
      A Tugalândia deve ser onde tu vives, e os tugas devem ser teus familiares; tal foi qualidade e utilidade do teu comentário!…
      Curiosamente (ou talvez não) nem sequer rebateste nada do que os outros comentadores escreveram!

      • Devem ser estrangeiros, esses tugas. Parece que vivem em países chamados Tugalândia e Portugalex. De facto, devem conhecer bem a China porque até conhecem países que não existem. O estranho é que parece que vivem lá!… Ora, pela ordem natural das coisas e não desobedecendo à mais elementar lógica, um indivíduo que vive num país inexistente, ele próprio não existe. Assim, chego à conclusão de que o Eu! está a falar com fantasmas. Já eu (eu mesmo, não o Eu!) prefiro evitar esses comportamentos para bem da minha saúde mental. 😉

  5. Segundo relatórios económicos de 2019 indicam que até a índia em breve vai ultrapassar os amérikas. O ocidente tem cada vez menos espaço no jogo global.

  6. a grande china um pais e dois sistemas, o partido comunista continua a gerir o pais que ja passou desde 2016 a ser a principal economia mundial

RESPONDER

"Conquistem a vaga no relvado": aviso à UEFA sobre a nova Liga dos Campeões

Associação das Ligas Europeias contra vagas garantidas para clubes que não terminarem o campeonato nacional num dos primeiros lugares. A reunião da Associação das Ligas Europeias de futebol terminou com o reforço de posições públicas contra …

Bloco diz que as suas nove propostas foram rejeitadas. Governo aponta avanços em sete

O Bloco considerou, esta sexta-feira, que o Governo recusou as suas nove propostas para chegar a acordo no Orçamento do Estado para 2022 (OE2022). O Executivo, por sua vez, considera que há avanços negociais em …

Comissão de inquérito ao Novo Banco. PSD frisa "maioria popular", PS queixa-se de "partidarite"

Os partidos apreciaram, esta sexta-feira, o relatório final da comissão de inquérito ao Novo Banco, aprovado em julho, com o PSD a destacar a "maioria popular" nas conclusões e o PS a criticar a "partidarite" …

"Falta de respeito". Patrões abandonam Concertação Social e pedem audiência a Marcelo

As quatro confederações patronais suspenderam, esta sexta-feira, a sua participação nas reuniões da Concertação Social e decidiram solicitar uma audiência ao Presidente da República, perante a "desconsideração do Governo pelos parceiros sociais" na discussão sobre …

Parlamento aprova diplomas para alargar gratuitidade das creches e "direito ao esquecimento"

O Parlamento aprovou, esta sexta-feira, um projeto-lei para o alargamento da gratuitidade das creches e de soluções equiparadas e ainda um diploma que consagra o "direito ao esquecimento". A Assembleia da República aprovou um projeto-lei do …

Costa está muito empenhado num acordo pelo OE, mas não "a qualquer preço"

O primeiro-ministro disse, esta sexta-feira, que o Governo vai fazer tudo ao seu alcance para chegar a um acordo sobre o Orçamento do Estado para 2022 (OE2022), mas advertiu que "um acordo não se obtém …

Evergrande escapa por um triz ao default e garante o pagamento de juros de 71.7 milhões de euros

A gigante imobiliária chinesa conseguiu cumprir com o pagamento dos juros no limiar do fim da extensão do prazo. No entanto, persistem os receios sobre a possibilidade da crise na China contagiar a economia mundial. A …

Pessoas a andar na rua em Viena, Áustria

Em caso de apagão geral, Áustria é o primeiro país europeu a ter um Plano B(lackout)

E se houvesse um apagão que afetasse todo o continente europeu? O cenário é o argumento que o Ministério da Defesa austríaco tem usado para enviar um aviso à população desde o início deste mês. A …

Só um terço das empresas em Portugal têm gestores com um curso superior

O estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos refere que este valor é negativo para o país já que a formação superior dos gestores está associada à produtividade e há maior probabilidade da empresa começar …

Governo avança com desconto de 10 cêntimos por litro nos combustíveis para as famílias

O Governo vai criar um desconto de dez cêntimos por litro nos combustíveis para todas as famílias, até 50 litros por mês. Uma medida que estará em vigor entre novembro deste ano e março do …