Jornalista saudita. Arábia transferiu 100 milhões para os Estados Unidos

(h) Bandar Algaloud / EPA

O Príncipe saudita recebeu o secretário de estado norte-americano, Mike Pompeo (E) em Riade

A Arábia Saudita transferiu 100 milhões de dólares para os EUA nesta terça-feira, no mesmo dia em que o secretário de estado norte-americano Mike Pompeo chegou à capital Riade para discutir os contornos da morte do jornalista Jamal Khashoggi. 

A notícia, avançada nesta quinta-feira pelo jornal Washington Post, foi confirmada por uma fonte oficial do Departamento de Estado norte-americano.

A Arábia Saudita já tinha prometido publicamente apoiar financeiramente os Estados Unidos devido aos esforços de estabilização no nordeste da Síria no passado mês de agosto. No entanto, restavam ainda dúvidas sobre se o financiamento ia mesmo acontecer e, caso ocorresse, quando é que a Arábia o faria.

O timing da transferência, abordado pela primeira vez pelo New York Times, levantou dúvidas sobre um alegado retorno, como se se tratasse de uma espécie de recompensa, uma vez que Riade procura neste momento lidar com alegações de que foram agentes sauditas os responsáveis pelo desaparecimento do jornalista Khashoggi.

No entanto, o Departamento de Estado dos EUA já veio negar qualquer ligação entre a transferências dos 100 milhões e o encontro de Pompeo com as autoridades sauditas.

“Sempre esperámos que a contribuição [da Arábia] fosse concluída até ao final do outono deste ano”, disse Brett McGurk, diplomata norte-americano responsável pela coligação anti-Estado Islâmico em comunicado enviado ao Washington Post.

“A transferência específica de fundos faz parte de um longo processo e não tem nada a ver com outros acontecimentos ou com a visita de Mike Pompeo”, rematou.

Tal com nota o Post, a Arábia Saudita, uma monarquia rica em petróleo e forte aliada dos Estados Unidos, há muito que utiliza a sua generosidade financeira para conseguir que os seus parceiros apoiem os seus objetivos no âmbito da política externa.

Diplomatas ocidentais suspeitam que a Arábia vá também compensar a Turquia, uma vez que o país se demonstrou disposto a conduzir uma investigação conjunta sobre o desaparecimento de Jamal Khashoggi.

Ainda de acordo com o matutino norte-americano, esta recompensa poderá representar um alívio da dívida externa em larga escala, compras estratégicas ou ainda contemplar outras medidas que impulsionem a economia turca.

Polícia da Turquia já terminou as buscas

A polícia turca terminou esta quinta-feira de madrugada as buscas à residência do cônsul saudita em Istambul no âmbito das investigações sobre o desaparecimento de Khashoggi no passado dia 2 de outubro.

O canal televisivo da Turquia NTV emitiu imagens dos agentes da unidade de investigação que abandonavam a casa por volta das 05h00 (02h00 em Lisboa), no qual transportavam caixas de cartão e sacos.

As autoridades realizaram nesta segunda-feira uma busca ao consulado que se prolongou durante nove horas. O consulado fica localizado a 200 metros da residência do cônsul.

A autorização de Riade para que pudessem ser efetuadas buscas na residência do diplomata só foi emitida na noite de terça-feira, no mesmo dia em que o cônsul Mohamed Otaibi abandonou a Turquia com destino à Arábia Saudita.

Urgência da liberdade de expressão

Khashoggi, jornalista saudita residente nos Estados Unidos desde o ano passado era uma das vozes mais críticas do regime de Riade. A urgência da liberdade de expressão e de imprensa nos países árabes domina o último artigo enviado pelo jornalista saudita ao Washington Post, que decidiu publicar o texto na quarta-feira.

“O Post suspendeu a publicação [do artigo] porque esperávamos que Jamal voltasse para o editarmos juntos. Agora tenho de aceitar: isso não vai acontecer”, disse a editora Karen Attiah, que recebeu o artigo um dia depois do seu desaparecimento.

Na sua coluna, intitulada “O que o mundo árabe mais precisa é de liberdade de expressão”, Khashoggi argumenta que a maioria dos cidadãos dos países árabes estão “mal informados” e, por isso, “não conseguem lidar adequadamente, muito menos discutir em público, as questões que afetam a região e o seu quotidiano”.

“Uma narrativa dirigida pelo Estado domina a opinião pública e, embora muitos não acreditem nisso, uma grande maioria da população é vítima dessa falsa narrativa, e, infelizmente é improvável que essa situação mude”, disse o jornalista saudita.

Além da censura interna, o jornalista saudita lamenta no seu artigo que, com exceção do Qatar, os demais países não relatam os eventos que acontecem na região para preservar a “velha ordem árabe”.

Jamal Khashoggi, um crítico do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, era colaborador do Washington Post e vivia nos Estados Unidos desde 2017.

ZAP // Lusa

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