Aldeia de Moçambique receia radicalismo islâmico oculto nas matas

Cerca de trinta homens mascarados atacaram durante três dias postos policiais no norte de Moçambique, levantando suspeitas sobre as atividades do al-Shabaab, grupo extremista islâmico somali, no país.

Cesário da Silva, chefe de uma aldeia nos arredores de Montepuez, norte de Moçambique, perdeu de vista 30 pessoas da comunidade, incluindo casais com filhos, que no último ano trocaram a povoação por parte incerta, no mato.

Eram famílias muçulmanas, mas com hábitos diferentes da maioria, descreve. “Eles vestiam calções curtos, elas andavam sempre cobertas” e quando falavam com os vizinhos, consideravam ser os guardiões da forma correta de rezar e praticar o Corão.

Ninguém deu explicações na hora de sair da aldeia, chamada Unidade B, e “só depois de alguns meses” chegou o relato de que estavam a dezenas de quilómetro para leste, perto de Nanhupo, no mato, num suposto “treino”.

A fazer treino para quê? Até hoje não sabemos o que estiveram a fazer por lá”, refere Cesário da Silva, líder de uma comunidade com 3.700 pessoas que vive no meio do planalto, em casas de adobe, longe do asfalto e do betão. A situação motivou, na altura, encontros entre diferentes líderes religiosos.

Saide Bacar, líder muçulmano regional, aponta este e outros testemunhos como indício de atividades de radicalização, vindas do exterior e a decorrer longe do olhar alheio.

“Há pessoas que fugiram de lá e que nos forneceram dados sobre o que se passa: iam para integrar o grupo, mas quando lá chegaram não encontravam a religião, mas tráficos e matanças”, refere.

O dinheiro serve para arregimentar moçambicanos “que não estudaram”, que vivem “pobres e esfomeados” – um movimento que Bacar responsabiliza pelo ataque armado da última semana a postos de polícia de Mocímboa da Praia.

De acordo com os relatos dos residentes, os atacantes exibiram sinais de afiliação muçulmana (palavras de ordem e vestes) durante os confrontos que paralisaram a vila costeira da província de Cabo Delgado durante dois dias e que provocaram 17 mortos – dois polícias, um civil e 14 atacantes, segundo dados da polícia.

No dia em que os tiroteios irromperam em Mocímboa, um dos casais que tinha deixado Unidade B voltou à aldeia, refere Cesário da Silva – mas ao tomar conhecimento do que se passava na ponta norte da região, voltou a desaparecer.

Saide Bacar é representante na província do Conselho Islâmico Moçambicano, umas das congregações muçulmanas do país, e relata um outro episódio ocorrido em 2016, quando expulsou da sua mesquita, em Montepuez, um grupo de jovens que o acusou de não ser um bom praticante.

Apresentaram-se como seguidores do Islão, mas o encontro correu mal. “Começaram a atacar-nos porque nos reunimos com o governo, por termos filhos no ensino oficial” e respeito pelas instituições do Estado.

“Tive que os expulsar”, destaca, na sequência da abordagem que se repetiu noutras mesquitas, levando-o a tomar uma posição.

A 15 de junho do último ano, Saide Bacar emitiu uma circular para cinco distritos do sul de Cabo Delgado (Montepuez, Balama, Namuno, Chiure e Ancuabe), alertando para a presença de um grupo de supostos islamitas na região, que diziam pregar a moral, mas que pedia às comunidades que observassem princípios que aquele dirigente considera ofensivos.

Amputai o ladrão e apedrejai o adúltero e adultera até à morte e que o medo ao governo não vos impeça de cumprir a pena”, foi um dos princípios divulgado, citado na circular como parte da mensagem que tem várias referências à insurgência contra o Estado.

“Não içai a bandeira e nem participai nos eventos nacionais”, foi outra das orientações ouvida por quem se cruzou com o grupo em locais de culto, refere-se no documento.

Saide Bacar queixa-se das autoridades moçambicanas: gostava que fossem mais atuantes face aos sinais de presença de radicalismo.

No último ano, o líder muçulmano confrontou em Montepuez um dos estrangeiros que associa às investidas de pregação, um cidadão da Gâmbia que se limitou a dizer que estava “a cumprir o seu serviço”, relata. “Acho que ainda anda por aí”, a pregar pela região.

Eles não têm mesquitas, introduzem-se nas que já existem, mas quando são identificados como grupo radical, desaparecem”, acrescenta.

Uma semana depois dos confrontos em Mocímboa da Praia, Saide Bacar teme que este foco de tensão no norte de Moçambique ainda não tenha acabado e reafirma a frase com que terminou a circular que distribuiu em julho de 2016: “cabe às autoridades tomar medidas”.

// Lusa

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