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Apenas 14% das vacinas prometidas aos países mais pobres foram efetivamente entregues

Jean-Francois Monier / AFP

Apesar das promessas deixadas por muitos dos países mais ricos e desenvolvidos, número de vacinas que chegou aos territórios é ainda muito baixo, o que pode comprometer os avanços já conseguidos.

Apenas uma em sete doses de vacinas contra a covid-19 prometidas aos países mais pobres do mundo foram realmente entregues. Ao longo dos últimos meses, aproximadamente 1,8 mil milhões de doses deveriam ter sido encaminhadas para este destinado, sendo que, na realidade, apenas 261 milhões cumpriram. Os números são avançados pela People’s Vaccinealliance, uma coligação formada por entidades como a Oxfam, o ActionAid e a Amnistia Internacional.

Este fracasso na distribuição igualitária de vacinas resulta, naturalmente, num número baixo de pessoas a viver em países pobres já vacinadas contra a covid-19 — estima-se que sejam apenas 1,3%.

À Covax, por exemplo, uma iniciativa global de distribuição de vacinas, foram prometidas 994 milhões de doses de vacinas por fabricantes como a Johnson & Johnson, a Moderna, a Oxford/AstraZeneca e a Pfizer/BioNTech, das quais apenas 120 milhões (12%) foram entregues. No que respeita a países, o Reino Unido, também se comprometeu a enviar 100 milhões de doses de vacinas para os países mais pobres, apesar de só o ter feito com 9.6 milhões (menos de 10%). Números semelhantes acontecem com o Canadá — 3.2 milhões de doses entregues das 40 milhões prometidas (8%) — e com os Estados Unidos que, apesar de já terem distribuído 177 milhões de doses, estão ainda longe das 1,1 mil milhões de doses inicialmente previstas para doação.

Robbie Silverman, representante da Oxfam, afirmou que estes números evidenciam “o falhanço das doações dos países ricos e o falhanço da própria Convax”. “A única forma de acabar com esta pandemia é a partilha da tecnologia e conhecimentos com outras fábricas qualificadas para que qualquer pessoa, em qualquer sítio possa ter acesso a estas vacinas que podem salvar vidas“, afirmou, numa declaração que pode remeter para necessidade de libertar as patentes.

Ao longo dos últimos meses, a Organização Mundial de Saúde tem apelado com muita frequência aos países que também priorizem esta problemática em vez de apostarem na administração de doses de reforço em populações com números gerais de vacinação muito elevados. Recentemente, a OMS também destacou a importância de se apostar na distribuição de vacinas pelos territórios mais pobres até ao final do ano. No entanto, o mesmo relatório da People’s Vaccinealliance aponta que os países estão mais concentrados na aquisição de novas doses — com vista à administração de doses de reforço a grupos mais abrangentes da sua população — do que na distribuição das mesmas.

“Em todo o mundo, os trabalhadores do setor da saúde estão a morrer e as crianças estão a perder os seus pais pais e avós. Com 99% das pessoas nos países de baixos rendimentos ainda por vacinar, já perdemos a paciência com estes gestos demasiado pequenos e atrasados”, afirmou Maaza Seoum, integrante da Aliança Africana e da Vacina da População da Aliança Africana, citada pelo The Guardian.

O passo mais “ousado” que foi dado no objetivo de distribuir mais vacinas por mais países, sobretudo os pobres, foi dado pela Índia e pela África do Sul, que já propuseram à Organização Mundial do Comércio a libertação das patentes das vacinas e medicamentos contra a Covid-19. O pedido foi apoiado por mais de cem países, associações de direitos humanos (Médicos sem Fronteiras, Human Rights Watch) e personalidades proeminentes, como o antigo primeiro-ministro britânico Gordon Brown. O argumento utilizado utilizado é do que “ninguém está a salvo do coronavírus até que todos estejam a salvo”.

O duque e a duquesa de Sussex também já apoiaram uma iniciativa paralela, mas que também teve como objetivo alertar e pedir aos países membros do G7 e à União Europeia que partilhem pelo menos 1 bilião de doses de vacinas contra a covid-19 com os territórios mais pobres, ao mesmo tempo que destacaram a importância da libertação dos direitos de propriedade intelectual das vacinas.

  ZAP //

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