Covid-19. Deixar o vírus circular para alcançar imunidade de grupo “pode torná-lo mais letal”

A teoria de que os agentes patógenos causadores de novas doenças evoluem e tornam-se menos virulentos com o tempo é cientificamente infundada, revelou um estudo recente.

Esta nova descoberta sugere que deixar de controlar os surtos de covid-19 – ou mesmo encorajar a circulação do vírus que a causa, o Sars-CoV-2 -, pode aumentar a probabilidade de emergirem variações mais prejudiciais do vírus num curto espaço de tempo, noticiou na quinta-feira o Guardian.

Especialistas em saúde pública vêm alertando há meses que tentar obter imunidade de grupo, ao permitir que o vírus circule mais livremente, é perigoso porque pode originar mortes desnecessárias e sobrecarregar os serviços de saúde. Contudo, os especialistas geralmente não têm em consideração a possibilidade de que essa abordagem pode aumentar a letalidade da doença.

Desde a década de 1980, biólogos evolucionistas previram uma associação entre a virulência e a propagação de um novo patógeno, com base em modelos teóricos. Testar esses modelos tem se mostrado difícil, porque a doença infeciosa – a interação de um patógeno com o seu hospedeiro – é um sistema com muitas variáveis.

Na natureza, as populações de hospedeiros e de patógenos apresentam grande diversidade genética e estão ambas em constante evolução em resposta uma à outra, sendo quase impossível realizar uma experiência controlada, em que um determinado parâmetro seja ajustado para ver como o sistema responde.

Neste novo estudo, publicado na Evolution Letters, uma equipa liderada pela ecologista evolucionista Camille Bonneaud, da Universidade de Exeter, em Inglaterra, utilizou um experimento natural, utilizando dados de uma doença ocular que se espalhou por tentilhões no leste dos Estados Unidos (EUA), depois que a bactéria Mycoplasma gallisepticum atingiu essa espécie, em 1994.

Os investigadores concluíram que as variações mais virulentas se transmitiam mais rapidamente, enquanto as de virulência intermédia eram as mais bem-sucedidas a nível evolutivo – acabando por dominar a população bacteriana. “A virulência evolui para um nível que otimiza a sua capacidade de transmissão”, indicou Camille Bonneaud.

Se o patógeno encontra resistência na transmissão – com um hospedeiro recuperado e imune ou vacinado, ou através do distanciamento social -, as formas altamente virulentas acabam por morrem com o seu hospedeiro. Se não houver tal resistência, o patógeno pode matar o seu hospedeiro sem um custo evolutivo e permanecer altamente virulento.

Por outro lado, quando emerge um patógeno pouco transmissível, este pode aumentar a sua virulência com o tempo. Olivier Restif, especialista em doenças infeciosas da Universidade de Cambridge, que não esteve envolvido na pesquisa, referiu que isso ilustra o preconceito com que tendemos a pensar sobre doenças infeciosas.

“Notamos os agentes que são altamente virulentos quando surgem e que reduzem a sua virulência com o tempo mais do que aqueles que começam de forma mais suave e se tornam mais perigosos”, indicou. As “superbactérias”, resistentes a antibióticos e outros medicamentos, são um exemplo deste último tipo.

Paul Ewald, biólogo evolucionista da Universidade de Louisville, em Kentucky, nos EUA, referiu que a humanidade não teve sorte com o Sars-CoV-2 porque este já era um vírus altamente virulento e transmissível quando surgiu. Com o tempo, é provável que reduza a sua virulência, o que pode já estar a acontecer.

“Eu esperaria que evoluísse para uma virulência muito parecida com a gripe [sazonal]”, acrescentou. As medidas de contenção, devidamente implementadas, devem acelerar esse processo. Futuros patógenos podem ser mais nocivos e transmissíveis do que o Sars-CoV-2 e levar mais tempo para se adaptar ao seu hospedeiro humano, sublinhou.

ZAP ZAP //

PARTILHAR

2 COMENTÁRIOS

  1. Obviamente que o interesse por trás deste grande looby internacional chamado Covid-19 é fazer confinamentos sucessivos e viver constantemente em estado de emergência.
    Já ninguém se acredita muito no que vai sendo dito em torno do Covid.
    Acima de tudo estamos perante um modo de vida que veio para ficar independentemente da existência ou não do Covid.
    O estado de emergência e os confinamentos não surtem de forma nenhuma o efeito apregoado mas no entanto continuam a ser obrigatórios, com que intuito ?
    Os laboratórios internacionais responsáveis pela fabricação da vacina nunca ganharam tanto dinheiro como agora e no entanto ainda nem sequer lançaram nenhuma vacina!
    Tudo muito estranho e muito contraditório o que se vai passando!

    • Se considera que a dita imunidade de grupo é a solução, livre a si de se deixar infectar, eventualmente de cair numa unidade de cuidados intensivos, de sofrer as consequências futuras em termos de Saúde ou mesmo falecer. Mas por favor não infecte ninguém deliberadamente !…… Corporações ganham e muito com este surto, é uma realidade, mas não é uma razão para o suicídio !

RESPONDER

Cientista descobre espécie extinta de ganso através de uma pintura egípcia

Uma famosa pintura que estava originalmente no túmulo do príncipe egípcio Nefermaat levou um cientista a descobrir uma espécie de ganso já extinta. A cena "gansos de Meidum", originalmente pintada no túmulo do príncipe Nefermaat, encontra-se …

Físico cria algoritmo de IA que pode provar que a realidade é uma simulação

Hong Qin, do Laboratório de Física de Plasma de Princeton (PPPL) do Departamento de Energia dos EUA, criou um algoritmo de Inteligência Artificial que pode provar que a realidade é, na verdade, uma simulação. O algoritmo …

Quase 10 anos depois, avião de Gaddafi continua parado num aeródromo em França

Quase uma década depois de ter aterrado em solo francês, o avião presidencial do ex-ditador líbio continua parado num aeródromo no sul do país, estando no meio de vários processos judiciais que parecem não ter …

Governo recebeu 1.600 ideias para a bazuca. Costa agradece mobilização

Durante a fase de discussão pública, o Plano de Recuperação e Resiliência recebeu mais de 1.600 contribuições e mais de 65 mil consultas. O primeiro-ministro António Costa disse que, durante a fase de discussão pública, …

"Honjok" é o nome do movimento sul-coreano que reivindica a solidão

A solidão tornou-se um tema recorrente devido à pandemia de covid-19. Na Coreia do Sul, existe um movimento chamado "honjok", que promove um estilo de vida solitário. O isolamento imposto pela pandemia de covid-19 está a …

Do subsolo sírio à nomeação ao Óscar: hospitais em tempos de guerra numa "era de impunidade"

The Cave é o nome de uma produção que esteve nomeada para o Óscar de Melhor Documentário de 2020. É também o lugar onde hospitais sírios se escondem para salvar vidas longe de bombardeamentos e …

Patrícia Mamona sagra-se campeã no triplo salto em pista coberta

Esta tarde, Patrícia Mamona tornou-se a terceira atleta portuguesa a garantir a medalha de ouro para Portugal no Campeonato da Europa em pista coberta. A portuguesa Patrícia Mamona conquistou, este domingo, a medalha de ouro na …

Dias de aulas mais longos, férias mais curtas e cinco períodos. Em Inglaterra, já se equacionam formas de recuperar o tempo perdido

Há três medidas em cima de mesa que podem vir a ser adotadas para combater os atrasos na aprendizagem dos alunos. Na Inglaterra, as escolas reabrem para aulas presenciais esta segunda-feira, mas já se pensa …

Índia abre centro de bem-estar para hóspedes abraçarem vacas e "esquecerem todos os problemas"

Animais de conforto e apoio emocional são cada vez mais populares em todo o mundo. Embora a maioria das pessoas use cães ou gatos, há também algumas escolhas mais bizarras, incluindo pavões, macacos e cobras. Os …

Abel Ferreira tentou levar jogador do Benfica para o Palmeiras

O treinador português Abel Ferreira, no comando técnico dos brasileiros do Palmeiras, pediu a contratação de Franco Cervi, que alinha pelo Benfica, mas acabou por ver a sua proposta recusada pelo jogador argentino. A notícia …