Entre “casos e casinhos”, Ventura atacou Marisa Matias, que não foi debater com o Rato Mickey

José Fernandes / SIC / Lusa

Marisa Matias e André Ventura protagonizaram esta quinta-feira um dos mais intensos debates destas eleições presidenciais. A candidata bloquista não poupou nas críticas ao seu rival, que disse não ser o Rato Mickey e que veio preparado para acabar com ela.

A jornalista Clara de Sousa abriu o debate confrontando ambos os candidatos com o facto de Marisa Matias, caso fosse Presidente da República, recusar dar posse a um Governo com o Chega incluído. Ventura acusou Marisa Matias de ignorar parte do eleitorado e ter uma “lógica irresponsável” na sua candidatura. Ainda assim, acredita que a candidata faria diferente se, de facto, fosse Presidente.

“Não faria diferente”, ripostou a candidata apoiada pelo Bloco de Esquerda, antes de comparar as atitudes do adversário com os recentes acontecimentos nos Estados Unidos, onde apoiantes de Donald Trump invadiram o Capitólio.

“A extrema-direita é igual em todo o lado”, argumentou, justificando que não pode dar posse a um Governo que defende o segregacionismo.

“Convocaria eleições até ter o resultado que lhe agradasse?”, questionou o líder do Chega, que, por sua vez, daria posse a um Governo com o Bloco de Esquerda.

Dito isto, Ventura não tardou em partir para o ataque e insistiu que o Bloco é um partido de extrema-esquerda que considera que “só o público é que é bom e que no privado é tudo péssimo”.

No contra-ataque, Marisa Matias diz que o deputado do Chega é o único candidato durante a democracia que teve a Polícia Judiciária a fazer buscas no seu gabinete num caso relacionado com corrupção.

“Buscas também houve em autarquias apoiadas pelo Bloco”, atirou André Ventura, acusando o seu partido de hipocrisia e pedindo que, então, retirasse o apoio a Fernando Medina. O gabinete do autarca lisboeta foi um dos que foi alvo de buscas da PJ.

Além disso, disse que não foi o Chega que teve um Ricardo Robles, vereador bloquista que pôs à venda por 5,7 milhões de euros um prédio que comprou à Segurança Social em 2014 por 347 mil euros. Não foi também o Chega “que deu moradas falsas no Parlamento”, disse ainda Ventura.

Em contrapartida, Marisa Matias focou-se no programa político do seu adversário e criticou a taxa única de IRS que defende, que “significa que os portugueses com salários baixos que vão ter um aumento de impostos brutal”.

Rapidamente, André Ventura negou, explicando que nesta taxa única de 15% há isenções e deduções e que, como tal, “alguém que ganhasse 650 euros estaria completamente isento”. O candidato de direita salientou ainda que países que aplicam a taxa única de IRS superaram Portugal nos últimos anos.

“Quem quiser destruir o SNS, vota Ventura”

Sobre o Serviço Nacional de Saúde, Marisa diz que quem o quiser destruir, vota André Ventura. Por outro lado, quem o quiser salvar, vota Marisa Matias. “Votam em si? Deve ser por isso que está tão mal nas sondagens”, disparou Ventura.

Covarde, troca-tintas e vigarista. Foram estes os adjetivos escolhidos por Marisa Matias para caracterizar o seu adversário.

E, de novo, Ventura contra-atacou: “Eu sei que está mal nas sondagens, mas acho que lhe fica mal. Se há vigarista nesta mesa, está desse lado”.

Posteriormente, o líder do Chega enumerou uma série de votações em que o Bloco de Esquerda se mostrou contra e que mostram que o partido “anda a enganar os portugueses”.

O Chega propôs uma comissão de inquérito para fiscalizar o financiamento a campanhas eleitorais, no qual o BE não votou a favor. Quanto à antecipação da idade da reforma dos enfermeiros, o BE não votou a favor. Na revisão salarial dos profissionais de saúde, apenas o Chega votou a favor, apontou Ventura.

“O tipo que quer destruir o Serviço Nacional de Saúde a propor que eles tenham aumentos salariais numa altura tão grave como esta”, atirou o deputado, antes de mencionar ainda a votação contra dos bloquistas relativamente à redução do salário dos políticos e dos limites para as transferências.

Quanto à Educação, a única coisa que o Chega não quer é uma “Educação à Bloco de Esquerda, tipo trotskista“, como na Venezuela e em Cuba. “O que queremos é que as pessoas possam escolher”, explicou.

Entre a espada e a parede, Marisa apertou o seu adversário, dizendo que já era candidato à presidência e ainda trabalhava no gabinete que ajudava empresas a fugir aos impostos via paraísos fiscais.

O ping-pong de acusações continuou, com André Ventura a mostrar uma folha com uma notícia do Polígrafo, que considerou “falsa” uma declaração de Marisa Matias em que se lê que “o Bloco nunca defendeu a saída de Portugal do Euro”. Apesar da insistência de Ventura para ter uma resposta da bloquista, Marisa não respondeu.

A jornalista Clara de Sousa, que moderou o debate, confrontou André Ventura com uma declaração sua, datada de 7 de setembro de 2015, em que diz que Portugal devia ter acolhido o maior número de migrantes possível. O deputado da Assembleia da República manteve-se fiel ao que disse há mais de cinco anos.

“Não podemos fechar as portas a quem foge da guerra, do terrorismo e da perseguição religiosa. Isso é uma coisa. Não é qualquer pessoa que chega de Marrocos, a entrar de qualquer maneira na Europa”, explicou o candidato presidencial. Por sua vez, Marisa Matias diz que este é um discurso “que envergonha qualquer democrata”.

“É um covarde que não tem o mínimo de pudor. Usa estas pessoas para colocar o país contra eles”, atirou a bloquista. “Não podemos usar estas pessoas como bodes expiatórios para criar divisões”, acrescentou.

Com a tensão em alta, Ventura perguntou se a sua adversária concorda que quem chega à Europa como asilado tenha uma comparticipação a 100% nos medicamentos, enquanto os portugueses não têm. “Uma coisa não tem nada a ver com a outra”, respondeu Marisa.

Marisa Matias não veio “debater com o Rato Mickey”

Questionados sobre as parcerias público-privadas (PPP), a bloquista diz defender a Lei de Bases da Saúde e que não se podem aceitar que existam PPPs que permitem o negócio, quando devemos ter tudo a preço de custo. Em resposta, Ventura diz que a Lei de Bases da Saúde veio pôr fim a inúmeros exemplos de sucesso e que as pessoas “ficaram a perder por causa da cegueira ideológica” do seu partido.

“Só fico um pouco espantado, porque sabia que vinha debater comigo, não vinha debater com o Rato Mickey, sabia que eu lhe ia rebater todos os argumentos, sabia que ia perder. Talvez por isso as suas sondagens são tão más, é porque não consegue desenvolver uma ideia sem me atacar. Mas teve azar hoje, porque vinha preparado para acabar consigo“, atirou Ventura.

Marisa Matias acusou o líder do Chega de não assumir aquilo que tem no programa, não responder a uma única pergunta sua e só trazer “casos e casinhos”. “Nem o próprio André Ventura se leva a sério, vou eu levar a sério? Claro que não. O que eu levo a sério é o que está escrito no programa”, explicou.

O próximo debate de Marisa Matias é já esta sexta-feira, frente a João Ferreira, na RTP, às 21h. André Ventura também volta a entrar em cena, frente a Ana Gomes, na TVI, às 20h50.

Daniel Costa Daniel Costa, ZAP //

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5 COMENTÁRIOS

  1. chamam a isto debate para as presidenciais?
    o que eu vi e ouvi parecia um debate para as legistativas em que debateram o que fariam se fossem governo.
    nao vi nada que debatessem o que fariam se fossem presidentes da republica.
    mas uma coisa é certa, na minha opiniao a marisa matias nao teve pedalada para o ventura

    • Por acaso houve um assunto que debateram no contexto de ser Presidente da República, e que foi esclarecedor.
      A Marisa Matias confirmou o que já tinha dito antes. se fosse Presidente não daria posso a um Governo que integrasse o Chega. Embora depois nem explicasse o que faria ao certo.
      Ou seja, aquilo que acusa o Ventura (de não ser o Presidente de todos os portugueses) acaba ela por ser igual, pois não seria a Presidente dos votantes do Chega.

  2. Pois, só tenho pena que a Marisa tenha partido para o insulto pessoal, em vez de esgrimir argumentos e apresentar as suas ideias.
    Começou também o debate trazendo para a discussão o Trump e os acontecimentos no capitólio, mas logo de seguida diz que, se fosse presidente, nunca daria posse a um governo formado pelo Chega, mesmo que isso tivesse sido a opção do eleitorado. Fiquei sem perceber quem é que afinal não respeita o resultado das eleições e quem acha que democracia é apenas boa quando os resultados são favoráveis.

  3. Antes de mais tenho de dar os parabéns ao Zap Aeiou. É raro ver uma notícia que não esteja enviesada contra o André Ventura e o Chega.
    Eu vi o debate, e o que está retratado nesta notícia foi o que realmente se passou.

    Quanto ao debate em si, foi mais um baile do Ventura, como se esperava.
    Os debates com o Mayan, com o Marcelo, e mesmo com o Tino acabaram por não correr bem ao Ventura (na minha opinião), claramente ele não se dá bem quando debate com candidatos moderados, mas neste debate com a Marisa, bem como no debate com o João Ferreira, o André Ventura acabou por fazer uns brilharetes.
    O Ventura é um extremista, mas não o esconde, enquanto que PCP e BE tentam camuflar-se como sendo partidos muito democráticos, europeístas, etc. mas no fundo, quando observados com mais atenção, vê-se que não é bem assim.
    E ao Ventura é fácil apontar as incongruências e hipocrisia desses partidos, e sair-se-á sempre bem ao fazê-lo.
    Vamos ver como corre hoje o debate com a Ana Gomes, já que é uma candidata que está a meio caminho entre o moderado e o extremista

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