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Trump publica “fórmula” para justificar tarifas. Mas “está cheia de erros”

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KENT NISHIMURA / EPA

Donald Trump explica as tarifas sobre os parceiros comerciais globais

A Casa Branca publicou uma fórmula a aplicar uniformemente a todos os países para justificar as tarifas anunciadas por Donald Trump, esta quarta-feira. Porém, a fórmula levantou muitas críticas de economistas, incluindo do Prémio Nobel Paul Krugman.

Na data que apelidou de “Dia da Libertação”, Donald Trump impôs uma tarifa global de 10% a 184 países e à União Europeia (UE), que em alguns casos subiu para 34% para a China ou 20% para os produtos europeus.

Para impor estas tarifas – que a Casa Branca justificou como uma forma de retaliação pelas barreiras enfrentadas pelas exportações dos EUA em todo o mundo – Trump declarou o estado de “emergência nacional”.

O presidente dos EUA alegou que a atual situação comercial representa um risco para a segurança do país.

“Este é um dos dias mais importantes, na minha opinião, na história dos Estados Unidos. É a nossa declaração de independência económica“, disse, num grande evento na Casa Branca, na quarta-feira.

Estas tarifas são a peça central do esforço para trazer de volta a produção para os EUA e remodelar um sistema de comércio mundial que Trump há muito tempo considera injusto.

Casa Branca publica fórmula

A Casa Branca publicou a “fórmula” matemática para justificar as tarifas impostas às importações globais anunciadas por Donald Trump, esta terça-feira.

Donald Trump expôs as supostas “tarifas” que os outros países estão atualmente a impor aos Estados Unidos. No entanto, os números apresentados não correspondem ao valor atual dos direitos aduaneiros.

SHAWN THEW / EPA

Gráficos com a lista das tarifas impostas pelo Presidente Trump, país por país

Segundo a Casa Branca, a China estaria a taxar os produtos americanos em 67%, contudo, segundo as estatísticas da Organização Mundial do Comércio (OMC), em 2024, aplicou uma tarifa aduaneira média de apenas 4,9%.

A diferença é igualmente grande para a União Europeia (1,7%, segundo a OMC, contra os 39% mostrados por Donald Trump) e para a Índia (6,2% contra 52%).

A Casa Branca afirma ter em conta outras barreiras comerciais para além dos simples direitos aduaneiros – citando, nomeadamente, as normas ambientais e a manipulação das taxas de câmbio.

“Está cheia de erros”

O representante do comércio dos EUA publicou uma fórmula com múltiplas variáveis em letras gregas. Porém, várias variáveis anulam-se mutuamente.

De facto, para calcular os chamados direitos aduaneiros, a Casa Branca divide a balança comercial (a diferença entre importações e exportações) pelo valor das importações – seja qual for o país.

Este cálculo não tem em conta a especificidade das relações comerciais.

“A fórmula baseia-se no valor relativo do excedente comercial com os Estados Unidos”, confirmam os economistas do Deutsche Bank.

“Esta fórmula está tão cheia de erros que é difícil saber por onde começar”, afirma o economista Paul Krugman, Prémio Nobel da Economia, salientando que os cálculos apenas têm em conta os bens transacionados, omitindo os serviços.

Que contas são estas?

Aplicando a fórmula publicada pela administração aos dados de 2024 publicados pelo Census Bureau, a AFP chegou aos números apresentados por Trump

As novas tarifas anunciadas para cada país correspondem então a este resultado, dividido por dois.

Se a fórmula der menos de 10%, ou se houver um excedente comercial, os Estados Unidos aplicam uma taxa mínima uniforme de 10% sendo o caso de mais de uma centena de países e territórios, incluindo o Reino Unido e a Austrália.

A fórmula utiliza igualmente pressupostos simples para estimar o impacto de um aumento do preço dos produtos importados na procura interna dos Estados Unidos, denominada “elasticidade”, esta variável é considerada a mesma para todos os países, independentemente do produto.

No entanto, um dos artigos científicos citados pela Casa Branca para fundamentar a sua fórmula sublinha que a elasticidade “varia consoante o produto e o importador”.

“Doente sobreviveu”, ironiza Trump

Depois das críticas da maioria dos economistas, que preveem que sejam os consumidores norte-americanos a suportar os custos, Trump comparou as tarifas a uma cirurgia, argumentando que “o doente sobreviveu e está a recuperar”.

A operação médica acabou! O prognóstico é que o doente vai ficar muito mais forte, maior, melhor e mais resiliente do que nunca. Vamos tornar a América grande outra vez!”, escreveu Donald Trump na rede Truth Social.

Entretanto, em entrevista à Fox News, o vice-Presidente, JD Vance, admitiu que os benefícios desta medida não serão vistos de imediato.

“Não vai acontecer imediatamente. Se procurarmos políticas de desregulação e de corte de custos, as pessoas vão ver isso nas carteiras e beneficiar disso”, defendeu.

“O que peço às pessoas é que entendam que não vamos resolver as coisas de um dia para o outro”, disse Vance, explicando que o Governo está a “trabalhar arduamente para baixar os preços”.

Quedas acentuadas na bolsa

O primeiro dia de negociação nos mercados financeiros desde que as tarifas foram anunciadas começou com quedas acentuadas na bolsa de Nova Iorque.

O principal índice bolsista, o Dow Jones Industrial Average, perdeu quase 1.200 pontos, uma queda de 2,75%.

O impacto destas novas taxas foi sentido pelas empresas de todos os setores, que apresentaram uma elevada volatilidade esta manhã: Nike (-11,3%), Apple (-9%), Amazon (-7,7%), Meta (-7,4%), Nvidia (-6%), Tesla (-3,90%), Alphabet (-3,60%) e Stellantis (-3,45%), entre outras.

Inflação vai aumentar

O Conselho do Banco Central Europeu (BCE) acredita que as tarifas anunciadas por Donald Trump aumentarão a inflação a curto prazo.

Segundo a ata da reunião de política monetária realizada no início de março, “a combinação de tarifas americanas e medidas de retaliação pode gerar riscos de alta para a inflação, especialmente no curto prazo”.

“Além disso, as empresas também aprenderam a aumentar os preços mais rapidamente em resposta a novos choques inflacionistas”, acrescenta o documento.

O Conselho do BCE, que em março baixou as taxas de juro diretoras em um quarto de ponto, para 2,5%, reúne-se em 16 e 17 de abril, mas não é claro que decisão tomará desta vez, se voltará a baixar as taxas de juro ou se preferirá fazer uma pausa e mantê-las.

Governo reúne com associações empresariais

O Ministério da Economia vai reunir-se na próxima semana com 16 associações empresariais de diversos setores para avaliar o impacto e as medidas de mitigação das tarifas anunciadas pela administração dos Estados Unidos nas empresas portuguesas e na economia nacional.

Segundo detalha um  comunicado divulgado esta quinta-feira pelo ministério, estes encontros irão decorrer de quarta a sexta-feira, em Lisboa e no Porto, contando ainda com a participação de representantes da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP), IAPMEI, Compete, Direção-Geral das Atividades Económicas (DGAE) e Banco Português de Fomento (BPF).

O objetivo é “abrir um canal de diálogo com os setores que serão mais afetados pelo modelo das ‘tarifas recíprocas’”, designadamente a indústria automóvel, combustíveis, borracha, setor elétrico e eletrónico, metalurgia e metalomecânica, madeira e mobiliário, cortiça, calçado, curtumes, têxtil e vestuário, têxtil-lar e lanifícios, para além das associações patronais AIP, CIP e AEP.

“Pretende-se auscultar as associações representativas das empresas destas atividades económicas sobre a avaliação que fazem do impacto da imposição das novas taxas aduaneiras sobre produtos europeus”, refere o Ministério da Economia.

Ao mesmo tempo, o executivo quer ouvir “as propostas que têm para o mitigar e minimizar esse impacto nas exportações nacionais”.

ZAP // Lusa

4 Comments

  1. A fórmula para calcular as tarifas sobre bens é tão estúpida que penaliza fortemente países e territórios pobres e/ou que quase não têm comércio com os EUA. São os casos, por exemplo, do Lesoto, de S. Pedro e Miquelão, Cambodja, Malvinas, Madagáscar, Laos, ou as ilhas Heard e McDonald. Para responder, devíamos impor tarifas sobre os serviços norte-americanos, que é onde somos mais deficitários.

    • Não sou economista, mas suponho que os EUA também sofram com tarifas pesadas, impostas por outros países. É a lei económica e comercial. Iremos ver o impacto desta medida, mas pode ser parte de uma estratégia-Trump que não entendo ainda muito bem.

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