Torturador da Somália descoberto a trabalhar como motorista da Uber nos EUA

Um ex-motorista da Uber que vivia na Virgínia, nos EUA, cometeu atos de tortura durante a guerra civil da Somália no final dos anos 80, concluiu na terça-feira um júri americano.

O ex-coronel Yusuf Abdi Ali era um dos comandantes do Exército nacional e partidário do ditador Mohamed Siad Barre, conforme consta no processo. Até este mês, ele conduzia para a Uber, com uma nota de avaliação alta: 4,89.

Na semana passada, o cidadão somali Farhan Tani Warfaa contou que foi baleado e torturado por Ali há mais de três décadas, num depoimento ao tribunal federal na cidade de Alexandria, na Virgínia.

O júri considerou então que Ali foi responsável pela tortura de Warfaa e concedeu à vítima uma indemnização de 500 mil dólares (sensivelmente 450 mil euros).

Warfaa, que abriu o primeiro processo contra Ali em 2004, disse à BBC que ficou “muito feliz” com o veredito. “Estou muito, muito satisfeito com o resultado”, afirmou através do tradutor do tribunal.

O cidadão somali contou que foi sequestrado na sua casa, no norte da Somália, por um grupo de soldados de Ali em 1987. Nos meses seguintes, Warfaa disse que foi interrogado, torturado, espancado e baleado sob as ordens de Ali, que era comandante de batalhão. Abandonado para morrer, diz que só conseguiu sobreviver ao subornar os coveiros.

Verificação de antecedentes

Em maio, repórteres da CNN, disfarçados de passageiros, deram uma volta de Uber com Ali. Na viagem, contou aos jornalistas que trabalhava para a Uber e para a Lyft a tempo inteiro, preferindo turnos de fim de semana porque “era ali que estava o dinheiro”.

Questionado se o processo de inscrição para ser motorista era difícil, Ali respondeu que era simples: “Eles só querem verificar os antecedentes“. Ele conduziu para a Uber durante 18 meses, depois de passar por uma verificação de antecedentes realizada por uma empresa especializada.

Agora, foi “permanentemente removido” da aplicação, segundo informou um porta-voz da Uber à BBC. A porta-voz da Lyft, Campbell Matthews, afirmou que a empresa estava “horrorizada” com as acusações contra Ali.

“Nós banimos permanentemente este motorista da nossa comunidade e estamos prontos para ajudar em qualquer investigação”, afirmou Matthews. As verificações de antecedentes da Uber e da Lyft são conduzidas pela agência Checkr.

O processo de verificação da Checkr varia de acordo com o cliente, mas inclui “fontes padrão da indústria”, como o banco de dados nacional Sex Offender (de condenados por crimes sexuais), a lista de procurados do FBI e da Interpol, várias listas de sanções internacionais, além de históricos de tribunais locais e federais.

“Segundo a lei federal, as agências de informação ao consumidor que fazem verificações de antecedentes dependem de registos criminais que foram arquivados em tribunal, em vez de fontes não confirmadas, como os resultados de pesquisas no Google”, explicou um porta-voz da Checkr.

“A maioria dos empregadores não solicita verificações de antecedentes que incluam ações civis entre entidades privadas porque as informações são subjetivas demais para serem usadas para uma decisão de contratação”.

Antes de trabalhar para a Uber e a Lyft, Ali trabalhou como segurança no Aeroporto Internacional de Dulles, perto de Washington DC.

O veredito

A decisão desta terça-feira, a favor de Wafaa, exigiu “um esforço heroico”, informou a sua advogada, Kathy Roberts. Roberts faz parte do Centro de Justiça e Responsabilidade, organização sem fins lucrativos com sede em São Francisco, que procura levar à justiça suspeitos de crimes de guerra.

Grande parte do processo de Warfaa, frustrado por atrasos de mais de uma década, dependia da possibilidade de Ali ser considerado culpado por um tribunal americano de um crime cometido na Somália.

A Lei de Proteção às Vítimas de Tortura proíbe a tortura, seja em solo americano ou no exterior, e permite que cidadãos e não cidadãos americanos apresentem denúncias de tortura e assassinatos extrajudiciais cometidos em países estrangeiros.

O caso de Warfaa incluiu os depoimentos de um ex-embaixador dos EUA, de soldados que serviram sob o comando de Ali e de uma outra vítima do ex-coronel, que argumentou que Ali ordenou atos de tortura e uma tentativa de assassinato.

A decisão do júri dos EUA foi dividida, considerando Ali culpado apenas de tortura. Ainda assim, Warfaa mostrou-se “absolutamente entusiasmado”, disse Kathy.

Já o advogado de Ali, Joseph Peter Drennan, afirmou à CNN que ele e seu cliente ficaram desapontados.

“Yusuf Abdi Ali foi considerado culpado porque ele era comandante de um exército que serviu sob um regime que tinha um histórico frágil de direitos humanos. Mas, além do depoimento do autor do processo, não havia praticamente nenhuma evidência de que Ali torturou alguém”, declarou Drennan.

Drennan disse ainda que Ali não pode se dar ao luxo de pagar a indemnização, lembrando que ele perdeu recentemente o emprego como motorista.

ZAP // BBC

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1 COMENTÁRIO

  1. Uma vez a tornozeleira do motorista de Uber que eu pedi danou foi apitar,perguntei o que era disse ele que ele não podia atravessar para outra cidade e estávamos a quase 70km de onde ele não podia sair,que roía que passei

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